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Reportagem

António quer ser pasteleiro. O andarilho é apenas um pormenor

29 set, 2021 - 08:30 • Liliana Carona

É possível ajustar o posto de trabalho à pessoa, mas muitos empresários desconhecem os apoios do Instituto do Emprego e Formação Profissional para adaptar o posto de trabalho às dificuldades dos trabalhadores com deficiência.

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António Madeira, de 58 anos, sai todos os dias de casa para aprender pastelaria e padaria. O andarilho que o auxilia não o impede de trabalhar e de sonhar ser pasteleiro.

A bancada onde se encosta para rechear um pão-de-ló com creme russo foi adaptada para poder trabalhar. António pode, finalmente, regressar ao “vício do trabalho”, depois de, em 2018, ter sofrido um AVC que o deixou dependente de um andarilho. Mas essa circunstância não o impede de retirar, com astúcia, mais um tabuleiro de biscoitos de amêndoa do forno.

Desde maio, este aprendiz de pastelaria e padaria sai cedo de Lagarinhos para trabalhar na pastelaria do NRP – Núcleo de Reabilitação Profissional da ABPG – Associação de Beneficência Popular de Gouveia.

Helena Santos, coordenadora pedagógica do Núcleo de Reabilitação Profissional, observa o esforço de António Madeira: “Com muitas limitações físicas, ele vem todos os dias, faz um caminho tremendo do autocarro para aqui”.

“O Sr. António vive todos os dias com a dificuldade de, nos dias de chuva, não poder agarrar no guarda-chuva. O pai dele é idoso e a sua vinda foi resultado de uma articulação com a Unidade de Cuidados Continuados, da ABPG. Tentámos limitar ao máximo esse impacto emocional”, recorda, contando que fizeram algumas adaptações ao posto de trabalho com a ajuda da secção de carpintaria da ABPG.

“Pensei logo numa cadeira mais alta, no caso de se cansar; depois, o problema é ao nível de pernas, de braços e a disposição das bancadas foi alterada. Pôs-se também um corrimão para ter mais acesso”, descreve o carpinteiro Toni Oliveira, não escondendo o contentamento pelo resultado final.

Neste caso, não foi preciso recorrer ao financiamento do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) para adaptação do posto de trabalho, tendo em conta que esta IPSS dispõe da secção/formação de carpintaria.

“Ajustar o posto de trabalho é possível, mas pouco divulgado”

Enquanto psicóloga, Helena Santos relembra que existem apoios para contratar pessoas com deficiência ou incapacidades, apontando com orgulho o exemplo de António Madeira.

“Se nós ajustarmos o posto de trabalho – e é uma das medidas de apoio do IEFP – é possível, mas pouco divulgado. Nós podemos integrar as pessoas, fazendo adaptação do posto de trabalho”, insiste a responsável, dando um exemplo prático. “Numa pessoa com deficiência visual, podemos propor ao IEFP comprar um monitor gigante para ver melhor. São adaptações ao trabalho financiadas pelo IEFP, para que as pessoas com incapacidade ou deficiência possam trabalhar”, elucida a coordenadora pedagógica do NRP.

A formadora de pastelaria e padaria Ilda Magina elogia o desempenho de António Madeira. “O Sr. António sente-se muito melhor, esforça-se muito. É o primeiro que tenho com estas dificuldades, mas ele quer fazer tudo, quer ajudar. É um bom aluno, um bom exemplo, tem muita força de vontade. Ele faz tudo: pão, bolos...”, salienta.

António Madeira que foi emigrante, trabalhou na Alemanha no setor da restauração e foge a entrevistas, porque a emoção deixa-o sem voz. Mas, tentando conter as lágrimas que deslizam pelo rosto, António relembra que há cerca de meio ano “estava em casa sem fazer nada. E agora “estou assim: gosto de trabalhar e de estar com os colegas. Para mim, é um vício trabalhar e posso trabalhar aqui”, respira de alívio.

Enquanto não chega o almejado posto de trabalho, António Madeira vai fazendo bolos, treinando para não estar parado, porque o andarilho é apenas um pormenor.

Inaugurado a 14 de outubro de 1996, em Gouveia, o NRP existe para dar resposta à integração das pessoas com deficiência ou com incapacidades.

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