Tempo
|
A+ / A-

Reportagem

"Isto não é telenovela", é a vida da pastora Ana Matos

30 mar, 2021 - 09:59 • Liliana Carona

Não era filha de pastores nem tinha qualquer ligação a este ofício, mas há dois anos deixou Mafra para se instalar na Serra da Estrela, recuperando um dos casais de Folgosinho, o Casal de Pias, onde hoje é a única pastora.​ Ana Matos é bióloga e engenheira florestal, estudou na Escola de Pastores e começou um estágio na Escola de Queijeiros.

A+ / A-

Foi no ano letivo de 2019/2020 que Ana Matos deu o primeiro passo para a vida de pastora, quando se inscreveu na Escola de Pastores, um projeto financiado por fundos comunitários, para a valorização da fileira do queijo da Região Centro, com aulas em Viseu.

“No final, recebi um cheque no valor de cinco mil euros, que me ajudou a dar os primeiros passos na pastorícia. Pagou parte da desmatação, por exemplo”, conta.

Mas porque deixou Vila Franca do Rosário, em Mafra? “Porque gosto muito da serra. Quando era pequena, o meu pai, biólogo, vinha estudar a lagartixa de montanha quase todas as primaveras e eu e a minha mãe vínhamos com ele e ficou a ligação aqui”, desvenda, sublinhando que sentia falta da natureza.

“Tem muita natureza aqui, era o que sentia falta no litoral, em que já está tudo urbanizado. Aqui na quinta só se veem umas eólicas a muitos quilómetros, nada de urbanização, ruído, poluição; tem muito potencial este sítio, foi o que me conquistou”, afirma sobre a quinta que adquiriu há um ano.

“É um projeto que tenho mais o meu companheiro [arqueólogo], de recuperação ambiental e de compatibilização com a agricultura biológica e natureza: converter uma paisagem degradada, suscetível aos fogos e com pouca biodiversidade num mosaico agroflorestal, com pastagens naturais e floresta autóctone”, revela a jovem pastora à Renascença.

Depois da Escola de Pastores, a Escola de Queijeiros

Hoje, Ana Matos está a fazer um estágio na Escola de Queijeiros, que vai decorrer em Frexes, Trancoso. Mas a prática já começou no Casal de Pias, em Folgosinho, concelho de Gouveia, onde tem 13 ovelhas. “Ainda vou comprar 12 borregas para o mês que vem. Assim, vou ficar com 25, mais um carneiro”, adianta a mais jovem residente dos Casais de Folgosinho.

Ainda no âmbito da Escola de Pastores, realizou um estágio na Queijaria da D. Ângela, em Paços da Serra, e após um ano de experiência no terreno, chegam-lhe com facilidade à mão as 13 ovelhas que hoje enchem a vista de Ana Matos.

Os olhos iluminam-se ao falar dos animais. “Dá muita alegria quando nasce um borrego novo. Gosto muito de os criar, estar na natureza com os animais", diz.

Quanto às ovelhas, gosta da "personalidade delas, elas serem meigas. Estou a pastá-las e vêm ter comigo pedir festas. Criei-as de pequeninas. Cada um tem os seus gostos e também é preciso vir gente para este meio, para dar vida novamente", considera.

O trabalho não se resume ao pastoreio. “Há uma parte da ribeira que está em erosão e estive a cortar estacas de sabugueiro e de salgueiro e a espetar para fazer uma vedação, e ver todas as coisas a crescer é o que me dá gosto”, realça. E, aos 29 anos, está decidida também a semear uma variedade de centeio pouco comum, de primavera (o centenico) e apostar na castanha, na floresta autótone e no turismo.

Filha única, a opção de Ana de mudar de vida, espantou os seus pais. “No início acharam que era um pouco doida, mas depois apoiaram-me, foram vendo que eu queria mesmo isto, até porque cada um tem os seus gostos”, diz a pastora acompanhada de dois gatos e dois cachorros Serra da Estrela.

Há outras mulheres pastoras

A pastora, bióloga e engenheira florestal tem como vizinha, a uns dois quilómetros de distância, uma veterana na matéria: a pastora Maria da Conceição Oliveira, de 72 anos, do Casal da Feiteira, com 40 ovelhas e 20 cabras.

“Ela deve gostar mesmo de viver ali e já compôs aquilo. Foi para o casal mais seco que aqui havia e não tinha uma pinga da água. Eu não me admiro, porque fui cá criada, agora ela vir de propósito para aqui?”, comenta.

“Eu não sei ler. A escola foi pegar no sacho e trabalhar. Desde que nasci, foi sempre a minha vida como pastora. Nunca fui à escola”, conta Maria da Conceição, deixando uma reivindicação: “Só querem votos, arranjar o caminho nada”. Também a jovem pastora deixa o mesmo alerta. “Faltam os caminhos; os carros não aguentam, vão logo para a oficina.”

Maria já não faz queijo, ainda que saiba ver as virtudes da profissão. “A gente não se chateia com ninguém, não há ódios” e Ana ganha ainda mais certezas: “Isto é o início, espero ficar aqui por muitos anos”.

Duas mulheres de gerações distintas e nenhuma das duas tem televisão. Maria da Conceição diz que não precisa e Ana Matos acrescenta ser suficiente a Internet e o som da natureza.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Ivo Pestana
    31 mar, 2021 Madeira 13:13
    Parabéns à Ana, bonita, corajosa, altruísta e inteligente. Está no caminho certo, a natureza agradece. É assim que a vejo.

Destaques V+