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A luta contra o coronavírus na primeira pessoa

“Situações de 'burnout' vão surgir, tal é o nosso sacrifício". O relato de uma enfermeira portuguesa em França

02 abr, 2020 - 21:16 • Beatriz Lopes , Rodrigo Machado (vídeo)

Sónia Moreira, enfermeira a trabalhar em Paris, relata à Renascença o desgaste emocional que se vive nos hospitais, onde o combate ao coronavírus parece estar em contramão. “O cansaço começa a tomar conta de nós e nós precisamos de tomar conta dos outros.”

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Exaustos, sem equipamento, incansáveis. Cinco médicos e enfermeiros contam como é a luta contra o coronavírus na Europa
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Sónia Moreira é enfermeira no Hospital Necker, em Paris, há oito anos. É precisamente na capital francesa que se regista cerca de um terço das mortes totais no país por Covid-19 e onde o aumento do número de casos de infeção tem vindo a sobrecarregar os serviços de saúde de tal forma, que há doentes a serem transferidos para outras regiões do país.

À Renascença, a enfermeira portuguesa dá conta do espírito de sacrifício dos profissionais com quem trabalha na unidade de cuidados intensivos, que se veem hoje obrigados a alugar um qualquer "cantinho", como um estúdio, para dormirem e protegerem as próprias famílias. Ao desgaste emocional, junta-se a frustração de racionar o material de proteção individual e a falta de camas para todos os doentes infetados que necessitam de uma hospitalização rápida e urgente.

Este é o quinto de vários relatos na primeira pessoa de médicos e enfermeiros de toda a Europa, que nesta altura lutam contra um vírus que já matou cerca de 51 mil pessoas no mundo. Uma lista em que França ocupa o sexto lugar com maior número de infetados: 59.105. Vítimas mortais são 4.503. Nos lares da região Leste de França, onde surgiu o surto, já morreram 572 idosos. Estas mortes não constam, porém, do balanço oficial nacional, que inclui apenas os óbitos registados nos hospitais.

Texto editado a partir de uma entrevista.

São poucos os que percebem a responsabilidade e o peso de vestir esta farda durante pelo menos doze horas. Chega a uma altura do dia em que já não sentimos as orelhas com a pressão dos elásticos, nem o nariz com esta máscara. Saímos do hospital e sentimos medo de tocar em qualquer coisa, de poder contaminar alguma coisa. É uma sensação assustadora. As pessoas ainda não perceberam que ao ficarem em casa podem fazer a diferença e melhorar o que para muitos é uma guerra. Porque estar isolado em quatro paredes é um cenário que ninguém quer, nem pára para imaginar.

Aqui, em França, há pessoas que se viram contra as autoridades quando são notificadas, como se ainda fossem donas da razão. Dizem sentir-se atrofiadas por estar em casa ao fim de uma semana. Não têm a mínima noção daquilo que nós, profissionais de saúde, vivemos ao estarmos perto de um doente. As máscaras, de que tanto falam e que tanta falta nos fazem, não precisam delas se ficarem em casa. Portanto, que as deixem para os profissionais de saúde, que são os que mais precisam.

Falo de um serviço onde era suposto recebermos os chamados Covid negativos, mas o aumento de casos foi de tal forma, que fomos obrigados a receber Covid positivos e, infelizmente, não temos capacidade para acolher toda a gente, as camas estão a abarrotar. O hospital tenta adaptar-se: tem havido bastante remodelação hospitalar, organização, também nos cuidados intensivos tenta aumentar-se o número de camas ocupando outros serviços.

Só que nesta altura já começamos a tentar poupar ao máximo o material, para que não chegue uma altura do campeonato em que não haja material para todos. Sentimos agora que esta é apenas a ponta do iceberg, mesmo duplicando o número de efetivos. No meu serviço, em vez de quatro profissionais de saúde por turno, passámos a ser oito.

Tenho perfeita noção que o cansaço começa a tomar conta de nós, quando nós precisamos de tomar conta dos outros. Acredito que situações de “burnout” vão surgir, tal é o sacrifício a que nos dispomos, esquecendo tudo o resto. Há muitos enfermeiros a alugar casas, quartos ou estúdios para evitar contaminar os membros da própria família, sobretudo os filhos pequenos ou idosos. Há muitas plataformas que estão a disponibilizar casas precisamente para esses fins. Mas sei que não está a ser fácil para muita gente, inclusive para uma amiga, que vive isolada dos dois filhos e do marido nesta altura.

Por outro lado, há coisas que nos continuam a encher o coração. Temos tido muita ajuda de alunos de enfermagem, auxiliares, médicos de outros serviços e hospitais. Também de colegas que já não trabalhavam connosco há três anos e que voltaram para nos ajudar. Temos também muitos restaurantes que nos dão comida, empresas de cosmética que nos dão cremes para as mãos, que se gastam. É esta solidariedade que nos faz ter vontade para continuar, ainda que o isolamento social, que acredito que custe para muitos, não tenha um fim à vista.

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