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Michael Butter

"Homens tendem a acreditar mais em teorias da conspiração"

23 mai, 2022 - 17:30 • Sandra Afonso

Em entrevista à Renascença, o investigador Michael Butter explica como se desenvolvem as teorias da conspiração, quem as segue e com que objetivos. Teorias da conspiração nunca vão desaparecer, mas podemos e devemos minimizar o impacto que têm, sobretudo quando se tornam perigosas, adverte.

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Com a internet as teorias da conspiração ficaram mais visíveis e ganharam novos adeptos, mas elas já existem há séculos. Desde a negação da morte de Hitler ou da chegada à Lua, até à origem da Covid-19, quase tudo se pode embrulhar numa teia conspirativa. Portugal não foge à regra, temos por exemplo a morte de Sá Carneiro, que depois de anos de investigação, várias comissões parlamentares de inquérito e muitos livros publicados, continua por esclarecer.

O alemão Michael Butter lidera um projeto de investigação sobre populismo e teorias da conspiração, um trabalho ao abrigo do Conselho Europeu de Investigação que deverá ficar concluído em 2025.

Em entrevista à Renascença, explica como se desenvolvem as teorias da conspiração, quem as segue e com que objetivos. Este professor universitário distingue ainda conspiração de terrorismo e destaca a forma como são utilizadas pelos populistas. Ideias já colocadas em livro, em “A Natureza das Teorias da Conspiração” (Desassossego).

Michael Butter admite que as teorias da conspiração nunca vão desaparecer, mas podemos e devemos minimizar o impacto que têm, sobretudo quando se tornam perigosas.

Quais são hoje as teorias da conspiração mais populares?

Neste momento eu diria que as teorias da conspiração sobre a Covid são muito populares em todo o mundo. Estão tanto no Quénia como no Brasil, no Japão, na Alemanha e, tenho a certeza, também em Portugal.

Temos ainda os clássicos, como a teoria da conspiração do 11 de setembro, que existe há 20 anos. Ainda mais antigas, temos a teoria da conspiração mundial Judaica, que existe não apenas há décadas, mas há séculos.

De uma forma geral, as teorias da conspiração não desaparecem, elas acabam sempre por emergir com novas formas. Por exemplo, quase nenhuma teoria da conspiração sobre a Covid é realmente nova. Antes da pandemia já tínhamos teorias da conspiração sobre o 5G, sobre a vacinação, sobre a grande substituição. Surgiu a Covid-19 e tornou-se o último capítulo, a estratégia mais recente numa longa trama, é assim que as teorias da conspiração funcionam.

Que tipo de pessoas acredita nestas teorias?

Em termos psicológicos, sabemos que existem atualmente no Ocidente dois grupos de pessoas que são particularmente propensas a teorias da conspiração. Por um lado, as pessoas que têm dificuldade em lidar com a ambiguidade, que querem clareza, que querem respostas definitivas, e as teorias da conspiração geralmente fornecem essas respostas definitivas. Por outro lado, há pessoas que sentem que perderam o controlo e o poder e nas teorias da conspiração encontram uma explicação para esta impotência, que lhes devolve até certo ponto o controle.

No que diz respeito aos fatores sociodemográficos, é mais complicado porque todos nós, até certo ponto, acreditamos em teorias da conspiração: os homens, as mulheres, os ricos, os pobres, pessoas da esquerda, pessoas da direita, moderados.

Mas há certas tendências. Em primeiro lugar, os homens tendem a acreditar mais em teorias da conspiração do que as mulheres, a menos que se trate das chamadas teorias da conspiração médicas, nestas não há distinção.

Pode dar exemplos?

O 11 de setembro, o assassinato do Kennedy e a chegada à Lua: são teorias seguidas sobretudo por homens. O coronavírus, rastos químicos ("chemtrails"), vacinação: há tantas mulheres como homens que acreditam.

O que explica esta vulnerabilidade feminina às questões da saúde?

Estas são teorias da conspiração que exigem uma tomada de posição. É preciso uma mudança de vida de acordo com a teoria.

Quem acredita que o 11 de setembro foi um trabalho interno do Governo dos EUA, não tem que mudar a vida, pode continuar no bar a beber cerveja. Mas os que acreditam que o Governo as está a envenenar, através dos rastos químicos, tem que se precaver. É aqui que entram o cuidado feminino e a preocupação com a maternidade, por exemplo.

As teorias da conspiração parece que ganharam uma segunda vida com a internet. Há outros fatores ou foi sobretudo o online que reanimou estes discursos?

Temos que assumir que a Internet deu mais visibilidade às teorias da conspiração e, até certo ponto, tornou-as mais populares. Isto não quer dizer que há 20 anos não existiam.

Historicamente, as teorias da conspiração eram ainda mais populares do que são hoje, eram muito mais populares no século XVII, XVIII e XIX, do que no século XX. Em meados do século XX desapareceram da cultura dominante e deslocaram-se para as margens da sociedade. Acabam por regressar através da internet, porque é um meio que permite aos teóricos da conspiração publicarem as suas ideias, o que facilita a pesquisa.

Há 30 anos, para encontrar uma explicação alternativa era preciso ir a uma livraria, provavelmente consultar um catálogo porque o livro não estava lá e o vendedor ainda tinha de o encomendar. Depois tinha que esperar semanas até que o livro chegasse e podia acabar desapontado com a obra. Poucas pessoas se davam a este trabalho.

Hoje basta pesquisar uma vez na internet e na segunda página dos resultados, no máximo, já encontra um link para uma teoria da conspiração.

Esta acessibilidade e partilha é perigosa ou não há motivos para preocupação?

Depende da teoria da conspiração, nem todas são perigosas e as pessoas sempre ou há centenas de anos que acreditam nestas teorias e a sociedade sobreviveu. Mas, claro que existem teorias que podem ter efeitos muito problemáticos.

Que tipo de teorias são essas?

De um modo geral, existem três áreas nas quais as teorias da conspiração podem ser problemáticas. Em primeiro lugar, as teorias da conspiração podem ser um catalisador para a radicalização e podem levar à violência, pessoas que pensam ter descoberto uma trama secreta e podem tentar combatê-la com recurso a armas. Temos os ataques às mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, há alguns anos, baseado em teorias da conspiração. Anders Breivik, na Noruega, matou muitas pessoas há dez anos devido à sua crença em teorias da conspiração. Apenas há alguns meses, alguém que acreditava nas teorias da conspiração do coronavírus disparou sobre um jovem que trabalhava em um posto de gasolina na Alemanha, porque lhe pediu que usasse máscara dentro das instalações.

Em segundo lugar, as teorias da conspiração médicas, perigosas porque ao negarem o conhecimento médico estabelecido é muito provável que coloquem em risco quem acredita e quem está próximo. Quem acha que a Covid não existe ou que não é pior do que uma gripe comum, pode não querer usar máscara quando é necessário ou manter a distância de outras pessoas.

Finalmente, as teorias da conspiração podem ser um perigo para a democracia, porque podem minar severamente a confiança nas instituições e processos democráticos. Na melhor das hipóteses, as pessoas cansam-se da política e deixam de participar nas eleições, no pior cenário passam a votar em partidos populistas que prometem fazer tudo melhor e desvendar as tramas secretas das elites. Pior ainda, há quem encontre motivação nos populistas e passe aos protestos armados contra as instituições democráticas. Foi o que aconteceu na invasão ao Capitólio, nos EUA, a 6 de janeiro de 2021.

Já estamos a assistir à ascensão desses movimentos e partidos populistas.

A ascensão dos movimentos populistas está muito ligada ao aumento da visibilidade das teorias da conspiração, porque existem paralelismos entre os dois. Os populistas tendem a dividir o mundo em dois grupos, a elite e o povo. Os teóricos da conspiração fazem exatamente o mesmo, os conspiradores e as vítimas da conspiração.

As teorias da conspiração podem funcionar como uma explicação poderosa para os populistas, porque as elites estão a agir contra os interesses do povo. Às vezes, os populistas apenas argumentam que as elites são negligentes, que não se importam com as pessoas, mas não sabem o que estão a dizer. Ou então argumentam que são corruptos, só querem enriquecer, ou que fazem parte de uma trama sinistra.

Por outro lado, tanto o populismo como a teoria da conspiração são discursos nostálgicos. Por isso é que os populistas estão sempre a defender o regresso a um passado dourado, que existia antes de tudo ter começado a correr mal, mas é um passado que nunca existiu. Os teóricos da conspiração também estão sempre a idealizar o passado, quando tudo era melhor, antes da conspiração começar.

Às vezes, os líderes populistas também usam teorias da conspiração, não porque acreditam nelas, mas para exibir o "elogio das más maneiras". Os populistas muitas vezes rompem com tabus e eles querem mostrar que são anti-elitistas, que são anti-ciência. Adotam as teorias da conspiração porque são um conhecimento estigmatizado e, portanto, um sinal para seus públicos: não pertencem à elite, estão com o povo.

O terrorismo também pode estar associado a teorias da conspiração?

Nalguns casos. Se olharmos, por exemplo, para o terrorismo islâmico, veremos que muitos desses terroristas também acreditam em teorias da conspiração sobre o Ocidente. Ao mesmo tempo, assistimos com frequência ao que se poderia chamar de terrorismo anti-islâmico, como Anders Breivik, que também foi motivado pela teoria da conspiração. Portanto, nem todo o ato de terrorismo está relacionado com teorias da conspiração mas, com frequência, é este o caso.

Isto também está relacionado com o facto de que atualmente, no mundo ocidental, enquanto as teorias da conspiração estão por todo o lado no espectro político, elas são particularmente proeminentes entre a extrema-esquerda e a extrema direita, porque são pessoas que se sentem impotentes e que podem recorrer à violência para alcançar os objetivos. Já não acreditam nos processos democráticos.

Banalizaram-se termos como terrorismo e teorias da conspiração?

Sim. Quer dizer, às vezes falamos sobre isso de ânimo leve e muitas vezes usamos e aplicamos esses termos a contextos em que não devem ser usados. Nem todos os que estão contra a vacinação conspiram contra a Covid, só se acreditarem numa trama sinistra, que Bill Gates quer implantar um chip, que querem reduzir a população mundial ou que o mundo inteiro sabe que as vacinas não são muito boas para as pessoas mas guardam o segredo para ganhar cada vez mais dinheiro.

Termos como terrorista ou teórico da conspiração carregam um enorme estigma e devemos ter cuidado e pensar bem se é apropriado usá-los.

Como fazemos chegar a informação às pessoas?

Temos que aceitar que, uma vez que as pessoas começam a acreditar em teorias da conspiração, é muito difícil convencê-las de que estão erradas.

Há evidências, de estudos norte-americanos de que, quando confrontados com provas de que estão errados, os teóricos da conspiração passam a acreditar ainda mais nestas teorias, porque sentem a sua identidade desafiada e acabam por se fechar e ignorar tudo o que é dito.

É preferível educar as pessoas com antecedência sobre as teorias da conspiração. Se se ensinarem as crianças nas escolas, mas também adultos, sobre o que são teorias da conspiração e como funcionam, como argumentam, como podem ser identificadas e porque não explicam o mundo muito bem, é muito menos provável que venham a acreditar nestas teorias.

Os media devem ter aqui um papel mais ativo?

Acho muito importante informar o público sobre estas teorias, ser pró-activo, mas tem que acontecer de forma natural. Não digam que toda a oposição às medidas restritivas contra a Covid são teorias de conspiração, não insinuem que todos os que acreditam em teorias da conspiração são potenciais terroristas ou radicais da extrema-direita.

Na Alemanha, é frequente criarem-se ligações imediatas entre o antissemitismo e as teorias da conspiração. Esta associação existe, mas não está em todas as teorias da conspiração.

As notícias falsas são alimento para estas teorias?

Exatamente. Temos de separar as teorias da conspiração das notícias falsas, porque as notícias falsas são desinformação intencional, quem as divulga sabe que o que está a dizer é errado, mas continua para atingir certos objetivos, e nem sempre admite que há uma conspiração envolvida.

As teorias da conspiração afirmam que há uma trama, e a maioria das pessoas que espalham estas teorias acredita realmente no que dizem. No entanto, há também protagonistas poderosos que espalham teorias da conspiração como notícias falsas, podem ser indivíduos, os chamados empreendedores da conspiração, que querem ganhar dinheiro, mas também podem ser instituições estatais como os serviços secretos de um país ou propaganda dos media.

Atualmente, temos situações em que teorias da conspiração e notícias falsas funcionam juntas.

Como nos protegemos das teorias da conspiração perigosas?

É importante encontrar critérios para distinguir entre teorias da conspiração inofensivas e mais perigosas e também olhar para contextos específicos. As pessoas que acreditam nessas teorias da conspiração são realmente, muito perigosas? Por exemplo, quem acredita na conspiração do 11 de setembro causa muitas vezes desconforto, mas não são violentos. Mas há outras teorias que visam grupos estigmatizados como judeus, ciganos, migrantes e refugiados, aqui as coisas ficam mais perigosas.

O que podem ou devem fazer os governos e as autoridades?

É importante que o governo esclareça as pessoas sobre as teorias da conspiração, que entrem para o currículo nas escolas, por exemplo. Também é importante combater a desigualdade social porque sabemos que faz com que as pessoas se sintam impotentes e fora de controle, o que alimenta as conspirações.

Também é importante que, nos casos em que as teorias da conspiração sejam realmente perigosas e violem a lei, as forças de segurança tomem medidas rápidas.

Na Alemanha, por exemplo, durante a crise da Covid, tivemos grandes manifestações em que as pessoas não usavam máscaras, não mantinham a distância adequada umas das outras e a polícia não interferia. Para os manifestantes, significava que a polícia estava do lado deles, que representavam a maioria do povo, mas que os outros tinham demasiado medo para se juntarem a eles. Sentiram-se motivados e isto é, obviamente, um problema!

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