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Jorge Sampaio à Renascença. “Todas as conquistas da Europa estão postas em causa”

02 fev, 2016 - 23:00 • Dina Soares , Catarina Santos (imagem)

O ex-Presidente arrasa a resposta da UE à maior crise de refugiados das últimas décadas e confessa estar envergonhado com a atitude de países como a Dinamarca, que vai confiscar os bens dos requerentes de asilo.

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Jorge Sampaio à Renascença. “Todas as conquistas da Europa estão postas em causa”
Jorge Sampaio à Renascença. “Todas as conquistas da Europa estão postas em causa”

A falta de uma resposta eficaz à crise de refugiados coloca “todas as conquistas da Europa em causa”, alerta Jorge Sampaio. Em entrevista ao programa “Terça à Noite” da Renascença, o antigo Presidente da República considera que a nova lei dinamarquesa que prevê o confisco dos refugiados é “triste” e uma “hipocrisia”.

Na semana em que mais de 70 nações se reúnem em Londres numa conferência de recolha de fundos, o ex-alto representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações espera que os acordos estabelecidos sejam de facto concretizados.

Critica a União Europeia por não honrar os seus compromissos. Confessa-se, mesmo, envergonhado com a falta de respostas da Europa e com o comportamento de países ditos desenvolvidos, como a Dinamarca ou a Suécia. Adverte ainda a Europa para a necessidade de ajudar a Grécia, a grande porta de entrada de refugiados e que está a ser abandonada à sua sorte.

Jorge Sampaio foi o primeiro político português a tomar a iniciativa de ajudar as vítimas da guerra na Síria. Em 2013, criou a Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios, um mecanismo que já permitiu a dezenas de universitários prosseguirem os estudos em Portugal e noutros países.

Esta quinta-feira, mais de 70 países vão estar reunidos em Londres numa conferência de doadores para ajudar as vítimas da guerra na Síria. O que espera desta conferência?

Metade dos contributos anunciados, na reunião anterior, ainda não foram concretizados. De qualquer modo, acho muito significativo que este dossiê esteja agora a ser objecto de conversações multilaterais. A cimeira de Londres é significativa – vamos ver o que dá. Temos mais de 4 milhões de refugiados sírios na área, 13 milhões de deslocados no interior da Síria. Os objectivos dessa conferência destinam-se às questões fundamentais da segurança, da educação e do emprego.

Pode imaginar o que significa um país como a Jordânia ter mais de um milhão e meio de refugiados, o que equivale a 30% da sua população. Já para não falar do que se está a passar na Turquia, que já recebeu mais de 2 milhões de refugiados, e do Líbano, o país complicado que conhecemos.

Espero que essa conferência traga compromissos, tanto mais que em Genebra está a decorrer mais uma ronda de negociações, com dificuldades extremas de juntar as várias partes e de perceber quem representa quem.

Até ao fim houve a dúvida sobre se os representantes das oposições iriam estar presentes.

As oposições são de tal maneira fragmentadas na Síria... No entanto, há sinais relativamente ao acordo que possa ser atingido entre os Estados Unidos e a Rússia relativamente ao futuro da transição. Como é que se faz uma transição num contexto de profunda divisão, com mais de 250 mil mortos ao fim de cinco anos de guerra? Qual é o papel de Bashar al-Assad [Presidente da Síria]? As coisas estão de tal ordem que já se pensa que Assad pode ficar numa espécie de transição, como pretendem os russos. Eu não tenho grandes esperanças em relação à rapidez do processo, acho que vai ser muito longo, muito lento.

Embora esteja calendarizado.

Mas a divisão é tão grande... As guerras terminam por cansaço, porque há uma mediação forte ou porque as partes consideram que isso é possível. Além disso, temos aqui interesses estratégicos muito significativos, porque por detrás disto estão o Irão e a Arábia Saudita. Não se pode encontrar maior tragédia desde a II Guerra Mundial, mas, ao mesmo tempo, não se pode encontrar situação mais complexa, com ramificações em variados países da região. A conferência de Londres deve ter sucesso, as pessoas têm que se comprometer e finalizar os compromissos de que ao menos essas três vertentes (segurança, educação e emprego) possam ser prosseguidas.

É aí que se inserem as minhas preocupações. Há um nicho que é absolutamente fundamental e que tem a ver com a educação universitária em situação de emergência. É perfeitamente compreensível que a primeira preocupação vá para as crianças. Há milhares de crianças sem escola e sem a menor referência do que é a escola. Mas há também muitos estudantes universitários que vêem o seu futuro interrompido e que são, no fundo, o futuro do país. Um dia, quando houver paz, é essencial que o país tenha elites porque a Síria tinha elites qualificadas e tudo isso está rebentado. Há muitos estudantes que viram os seus estudos interrompidos, professores que fugiram, universidades destruídas. A educação humanitária dedicada aos estudantes universitários é um nicho tremendamente importante no sentido de assegurar que a transição terá suporte humano técnico no seu mais amplo sentido. Tenho-me batido por lançar, a nível internacional, esse mecanismo de resposta de emergência para estudantes universitários e espero poder apresentá-lo na Cimeira de Istambul, em Maio, que é a grande cimeira humanitária. Porque a educação é fundamental, mas é um processo contínuo, que não pode ficar interrompido. Senão, depois, quem é que ensina os estudantes da escola primária e depois os do liceu? Têm que ser pessoas com formação universitária.

Que resultados tem da sua experiência com os estudantes sírios que foram acolhidos em Portugal?

Temos 98 estudantes sírios em Portugal, estão para chegar mais 20 e estão mais 40 noutros países, como o Canadá, Líbano, Turquia e Jordânia. A experiência está a ser um sucesso porque foram bem seleccionados, a partir de mais de 2.500 candidaturas. Aqueles que conseguimos sustentar – também graças à colaboração dos politécnicos e das universidades – têm tido boas notas, muitos já estão a acabar as licenciaturas ou os mestrados, alguns foram convidados para fazer doutoramentos, estão a fazer estágios em empresas. Muitos já falam muito bem português. Isto prova que é possível ter estudantes universitários, vindos de situações de emergência séria, a prosseguirem os seus estudos e a transformarem-se em quadros futuros para o seu país.

O objectivo da conferência de Londres é procurar meios de auxílio às pessoas que continuam a viver na Síria ou nos países vizinhos. É legítimo colocar a dúvida sobre se esta não será uma tentativa de manter o problema longe das fronteiras da Europa?

Não podemos, a pretexto da tragédia que estamos a viver e da falta de respostas coordenadas da Europa, deixar de ajudar os países limítrofes da Síria e a própria Síria a criarem emprego e educação. Aí à volta estão quatro milhões de pessoas, metade da população portuguesa. São poucos. Quaisquer que sejam as motivações, não podemos deixar colapsar esses países, porque o influxo enorme, as pessoas ficam, em média, 15 a 17 anos nos campos de refugiados e não há emprego nem educação. A conferência de Londres não afasta a responsabilidade europeia, mas é importante e significativa. Oxalá tenha êxito e passe das declarações à prática, possibilitando ajuda concreta para os sírios que vivem dentro e fora do país.

Dos fundos de apoio aos refugiados constituídos até agora no âmbito da UE, os Estados-membros contribuíram apenas com uma ínfima parte do dinheiro com que se comprometeram. Porque haverá a conferência de Londres de ter resultados diferentes?

Se, nos próximos meses, não houver fundos que ajudem as pessoas a fixarem-se e a ficarem onde estão, obviamente que virão para a Europa. A Europa está confrontada com um problema que tem a ver com alguns dos seus eixos fundadores de grande importância e estoira o sistema. É delicado de repente haver um fluxo dessa natureza. Eu, todavia, continuo a pensar que há meios para, rapidamente, ordenadamente avaliar quem deve ficar e quem não deve ficar, fazer essa distinção e dar destino a essas pessoas que trazem capacidades engenhosas, nomeadamente as que vêm da Síria. Algumas poderão ficar, para outras terão que se encontrar destinos alternativos. Agora, quando vemos cada um a seguir o seu próprio caminho, de forma desordenada, Schengen é posto em causa, todas as conquistas da Europa são postas em causa. A própria Alemanha começa a ter problemas entre os partidos que suportam o Governo, o que vem provar que, perante uma dimensão muito significativa, não foram encontradas respostas organizadas.

A Europa não está a fazer esse trabalho de organização e isso está a ter reflexos. Veja-se agora o caso da Suécia, que se prepara para expulsar entre 60 a 80 mil pessoas que pediram asilo em 2015 por não cumprirem os requisitos.

Obviamente que os países têm que saber quem está a entrar, de que forma e se têm legitimidade para isso. Naturalmente, vamos ter situações muito complicadas porque as pessoas lutarão de todas as formas para salvar a sua vida, portanto mais vale organizar isso e ter uma política de vizinhança. Soluções há muitas em cima da mesa. É preciso é que haja uma decisão demonstrativa da unidade na Europa, porque esse problema não é meu, não é seu, é de todos. E isto põe a Europa em causa de forma muito preocupante.

Ao mesmo tempo, a Grécia está a ser ameaçada de ter que abandonar o Espaço Schengen por estar a permitir o desembarque de refugiados. Parece-lhe que essa ameaça encarna o espírito europeu que acaba de descrever?

É muito grave porque não nos podemos esquecer da situação económica da Grécia, do resgate. A Grécia tem que ser seriamente ajudada. É muito difícil lidar com tudo o que está a acontecer na Grécia. Além do resgate, tem ainda que enfrentar sozinha um problema que não é só grego, é europeu.

Relativamente à Dinamarca, espanta-o que a UE tenha ficado aparentemente imperturbável perante a aprovação da lei que permite confiscar os bens de quem chega ao país em busca de asilo?

É triste, para usar uma palavra branda. É tapar a hipocrisia, é tapar algo que é absolutamente lamentável. Pensar que alguém pode ser desapossado das suas alianças para poderem ser vendidas em leilão é algo que não esperava ver, vindo daquele país. É a demonstração de que cada um está a correr por si. Temos que perceber que há limites para a organização, mas, não havendo nenhuma organização, nenhuma entreajuda, nenhuma política a sério perante esta grande movimentação, se continuamos a responder desta maneira, não auguro nada de bom para a Europa no futuro.

O problema é a falta de fundos ou de vontade política?

É a vontade política, com certeza. A Europa está a mudar lentamente. Falta liderança, falta assumir responsabilidades. A ausência de uma política que contribua para o desenvolvimento real de alguns destes países que estão na fronteira Sul do Mediterrâneo. Até tenho vergonha de falar no número de pessoas envolvidas neste processo de migração para a Europa, quando comparados com o que se está a passar, por exemplo, na Jordânia, na Turquia e no Líbano. Devíamos ter algum pudor. Nós, que somos sociedades desenvolvidas, temos que ter respostas. Sei é difícil, mas as nossas sociedades estão a ficar interculturais, plurais e têm que ser inclusivas. Não há outra maneira de construir a Europa do futuro. Só que a inclusividade também se administra, também se fomenta.

Não podemos ceder a um populismo fácil que culpa os refugiados pelas dificuldades económicas que estão a ser sentidas na Europa e que são muito mais profundas porque têm a ver com a mudança do padrão de desenvolvimento, do padrão produtivo e que está a criar desemprego. São problemas muito mais vastos, mais gerais, que apenas estão a ser acelerados por esta pressão que é nova, e que põe, definitivamente, a Europa em causa.

E que torna a Europa em terreno fértil para o florescimento de ideias que julgávamos afastadas?

Torna e está a tornar. É preciso uma resposta adequada, uma frente democrática, senhora dos seus valores e com medidas práticas e concretas. Porque quando se organizam as coisas, elas funcionam. Nós é que formos apanhados sem estarmos preparados. Com tantos milhares de funcionários, não é impossível organizar as coisas de uma maneira melhor.

Como avalia a atitude de Portugal face aos refugiados? Estamos a fazer o que podemos e devemos?

Portugal tem condições para desempenhar um papel activo nesta matéria, nomeadamente no acolhimento de estudantes. Procuramos cooperações bilaterais ou trilaterais para podermos dar resposta a estudantes que viram os seus estudos interrompidos e dar, com isso, um contributo muito importante para as elites futuras. Portugal tem condições para poder, com calma e organizadamente, fazer um bom papel até à Assembleia Global Humanitária de Istambul, em Maio.

E sente os portugueses receptivos a esse acolhimento?

Tem tudo de ser explicado com cuidado. Vejo muitos portugueses disponíveis. Se se organizarem de forma não tumultuosa, em que cada família é um caso, cada integração é um caso, pode ser um sucesso. O que não pode é, de repente, aparecer aqui um conjunto de pessoas, no contexto actual, e sem explicação. Isso pode criar problemas, o que é natural. Mas não vejo que seja impossível respondermos e estarmos presentes perante uma catástrofe humanitária desta dimensão.

Ver um país completamente destruído, crianças a morrer, lançados à água, o elo dourado para os traficantes de pessoas e ficarmos imunes, à espera que o sol brilhe sobre todos nós, é não percebermos o que temos sido através da história e o que fomos em relação a outros países porque nós também emigrámos e também fomos ajudados. Portugal tem condições ímpares e tem estado sempre no "top" dos países capazes de albergar. Somos uma sociedade multiétnica e multicultural, inclusiva, e isso é uma característica muito significativa e que nos tem dado, internacionalmente, uma grande importância.

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  • Manuel João
    04 fev, 2016 Lisboa 00:45
    Mas este dinossauro ainda existe?
  • INDIGNADO
    03 fev, 2016 barreiro 23:28
    um dos culpados por esta europa é esta coisa , o sampaio !
  • rui vieira
    03 fev, 2016 ourem 22:38
    gostei de ler alguns comentários , achei o do jose o mais engraçado o do pedro m. e o do Manuel mais realistas. o Jorge sampaio mais a escumalha do Manuel alegre e o mario soares, 3 dos maiores traidores sem escrúpulos de toda a historia de Portugal.
  • jose
    03 fev, 2016 lousada 18:12
    Adoro a solidariedade. não gosto que a façam com o meu dinheiro.
  • Preterido 1.14
    03 fev, 2016 Lx 14:47
    Obviamente, que existem pessoas que dão erros ortográficos e de construção frásica. Contudo, uma realidade indesmentível é que cada vez à menos gente a exercer o direito de voto e, aqui, o sujeito não concorda com o predicado.
  • António Costa
    03 fev, 2016 Cacém 14:35
    O acolhimento de "braços abertos" também foi realizado pela Jordânia, nos anos sessenta séc. XX aos palestinianos em fuga da guerra. Depois as organizações palestinianas tornaram-se um estado dentro de um estado. Em Setembro de 1970 o exército jordano atacou os palestinos matando milhares. Foi o "Setembro Negro". Os palestinianos fugiram em massa para o Líbano onde a guerra civil rebentou de seguida. Os problemas não tem nada a ver com "os refugiados", mas tem tudo a ver com as IDEIAS que os "refugiados" defendem! As pessoas não gostam de ser "abatidas" a tiro na rua, só porque não são muçulmanas! Só uma profunda ignorância sobre o que o Islão de fato é e sobre o que se passa EM TODOS os países muçulmanos leva a posições "à Jorge Sampaio". O exemplo da Turquia que muito recentemente massacrou milhares de curdos, perante a indiferença NOJENTA da UE, para onde pretende "entrar" são sinónimo disso.
  • Maria Manuela Pereir
    03 fev, 2016 Coimbra 13:27
    Como fazer esta Europa acordar de entre os mortos? O que os meus olhos me mostram, em cada dia que passa, é a mediocridade em que fermenta a diversidade dos países que a constituem. Tal como a serpente que não sabe mudar de pele perece, assim acontecerá à Europa. A Europa só tem que desatar os nós que com tanta força atou e que nos arrastou para um labirinto de desilusões. Deslealdade entre companheiros, sim. Haja bocas que se abram para lhes ressoar aos ouvidos que , essa Europa, matamorfoseada de ESPANTALHO, mais não é do que a Europa do PODER e da FORÇA. Entretanto, há os outros, como a Grécia, que ao longo da sua História foram em formas fazendo-se e agora se encontra a fazer o desfazer. Cada vez que me dou conta dos impostores da RETIRADA, gera-se em mim uma Angústia Desmesurada.
  • Vasyl Lozynskyy
    03 fev, 2016 Porto,Portugal 11:52
    Eu tenho dois nódulos hepáticos já muito anos sem operada.Que quer a minha morte? Com os meus melhores cumprimentos.
  • Pedro M
    03 fev, 2016 Aveiro 11:31
    O pessoal da conversa "holística" certamente deve conhecer os comentários de Barbara Spectre sobre o multiculturalismo na Europa... Sampaio é um cripto-judeu (procurem "Judeus em Portugal"). É um globalista, um sonso de lágrima fácil e falsa. Um traidor, não só à nação mas à própria humanidade. Este sentimentalismo não passa de um engodo.
  • linoavac
    03 fev, 2016 lx 10:47
    Se Portugal tem excesso de quadros profissionais. não necessita de abuso do sistema para outrem que nunca fez descontos sociais cá na nossa terra. O argumento para receber refugiados é pura e simples ajuda humanitária (e ainda por cima ainda oferecem escola, daqui a bocado os refugiados pensam que são os sr. drs. cá da terra

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