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Luís Pedro, a história e as histórias do "senhor II Liga"

28 mai, 2019 - 17:30 • Sílvio Vieira

O sonho roubado em Berlim, o momento em que vestiu a camisola da seleção, a oportunidade que ainda não surgiu e o orgulho pelos 317 jogos na II Liga. Conheça melhor Luís Pedro, o central cuja história já se confunde com a segunda maior competição do futebol profissional em Portugal.

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É preciso puxar pela memória para nos lembrarmos de uma época de II Liga sem Luís Pedro. São 12 temporadas consecutivas, 317 jogos, que fazem do central do Penafiel o jogador no ativo, nos escalões profissionais, com mais jogos realizados na II Liga.

"É um orgulho. Mas mais do que os jogos que fiz, dou relevância à competência que mostrei na maior parte desses jogos. Espero fazer muitos mais e ainda me sinto com capacidade para jogar mais alguns anos. Nós, por vezes, nem temos noção destes números, mas são, de facto, muitos jogos. É uma marca importante para mais tarde recordar. O que me deixa mais feliz é saber que fui útil por onde passei", reage Luís Pedro, de 29 anos, em entrevista à Renascença.

Ricardo Pessoa, antigo capitão do Portimonense, já retirado, é o recordista, com 358 jogos. Tem mais 41 do que Luís Pedro, uma marca ao alcance do central natural de Freamunde.

"Vou tentar lutar para o alcançar, ou até ultrapassá-lo", assume o desafio, recordando que foi companheiro de Ricardo Pessoa, em Portimão, em 2013/14. Este objetivo, no entanto, colide com outro que Luís Pedro tem para cumprir: estrear-se na I Liga.

A oportunidade que ainda não surgiu

"Sempre tive o objetivo de chegar à I Liga e enquanto tiver forças vou acreditar que é possível. Ainda não tive oportunidade, mas também não me lamento, porque isso não resolve nada. Vou esperar para ver o que o futuro me reserva. Se for na I Liga, muito bem, se não for darei o melhor pelo clube que representar", sublinha o central.

Na altura de encontrar uma explicação para o facto de nunca ter dado o salto para a I Liga, Luís Pedro recorda alguns episódios que impediram esse passo e também destaca a impressão com que o marcaram. "Penso que as pessoas olharam para mim como jogador de II Liga. Em Portugal há essa tendência de olhar para treinadores e jogadores como de primeira, ou de segunda", regista, lamentando nunca ter tido "a oportunidade que merecia".

A experiência abortada no Hertha de Berlim e o sonho concretizado

Oportunidade que poderia ter surgido logo no início da viagem, quando voou para Berlim para prestar provas no Hertha. "Cheguei a estar lá a treinar, mas devido a circunstâncias que não dependeram de mim, mas de empresários, não aconteceu", desabafa ao microfone da Renascença, antes de contar toda a história.

"Eles dificultaram a minha ida para lá, pediram muito dinheiro. Não foi o Freamunde. O clube só tinha 25% dos meus direitos. Essa empresa, que não vou dizer o nome, comprou 75% do meu passe e eles pediram uma barbaridade de dinheiro [ao Hertha]. Era muito jovem e tive propostas da I Liga, mas estava preso. Mantive-me sempre na II Liga e não conseguiu sair desse enredo. Nunca consegui dar o salto que na altura pensei que iria dar", recorda, sem arrependimentos e com orgulho pela carreira construída, até porque conseguiu atingir outro dos objetivos a que se tinha proposto.

"Tinha o sonho de ser internacional e fui internacional sub-21 no Torneio da Lusofonia. Entrei num jogo e marquei, mas uma entorse que sofri, logo a seguir, fez com saísse do torneio", recorda, considerando que a sua geração de centrais "não foi devidamente aproveitada".

Luís Pedro não concorda com a ideia publicada, sobretudo após o Euro 2016, de que a seleção nacional estaria prestes a viver um défice de centrais de qualidade. "Penso que nunca houve crise de centrais. As pessoas é que, por vezes, criam essa ideia. Na minha geração tinha jogadores como Bura [Leixões], André Pinto [Sporting], Neto [Zenit, a caminho do Sporting], Fábio Faria [retirado, ex-Benfica]. A aposta é que, se calhar, nunca foi forte nesses jogadores. Agora temos Rúben Dias, Ferro, Jorge, Diogo Leite. Temos centrais de excelência, é preciso dar-lhes oportunidade e estaremos sempre bem servidos de centrais", garante.

Relevância da II Liga

Se há alguém com propriedade para falar sobre a II Liga é Luís Pedro e o central considera que "com o aparecimento das equipas B a qualidade disparou" e a rotação adquirida por muitos jogadores promoveu a sua afirmação. O defesa destaca, em particular, os jovens dos jogadores do Benfica campeões nacionais. Luís Pedro defrontou-os a todos e destaca João Félix.

"Notava-se que era diferente dos outros", assinala, recordando que a estreia de Félix, nos campeonatos profissionais, foi frente ao Freamunde, onde jogava Luís Pedro, em Setembro de 2016. O jovem craque tinha 17 anos.

Na opinião de Luís Pedro o nível competitivo na II Liga está já num patamar bem interessante e não faz sentido pensar numa alteração do atual modelo para um formato com duas séries divididas pelo mapa. "Os dois campeonatos profissionais devem ter o mesmo formato. Não faz sentido nenhum mudar", avalia.

Futuro em aberto

Depois de duas épocas em Penafiel, que se seguiram a uma vida no Freamunde (nove épocas), com um ano de escala no Portimonense, Luís Pedro terminou contrato com a equipa duriense e estuda "algumas possibilidade que surgiram para optar pelo melhor projeto".

O central tem ainda muitas metas para cortar nesta maratona e recordes para bater. Tem apenas 29 anos, mas Luís Pedro, o senhor II Liga, já coleciona história para contar aos netos.

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