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Europa esqueceu-se da transição demográfica no PRR, diz Adalberto Campos Fernandes

15 mar, 2022 - 18:31 • Liliana Monteiro

Antigo ministro da saúde considera que é de lamentar que a questão demográfica seja esquecida nos investimentos e alerta que daqui por 38 anos se nada for feito teremos apenas 8,6 milhões num país sem jovens.

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Europa esqueceu-se da transição demográfica no PRR

Adalberto Campos Fernandes considera que “o investimento em saúde e vida é o mais reprodutivo da sociedade humana”, lembrando que “não há chegada à idade avançada se não houver cobertura geral em saúde e proteção social”.

No encerramento do 3.º Fórum Reino Unido–Portugal sobre envelhecimento saudável, o antigo governante lamentou: “Tenho muita pena que aquando do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) pós Covid a Europa e Estados-membros se tenham esquecido de acrescentar à transição digital e energética a transição demográfica porque sem povos e vitalidade democrática não há economia”.

O ex-ministro sublinha que Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa, a par da Itália.

As perspetivas futuras não são animadoras. “Daqui por 38 anos, se nada for feito, nós temos apenas 8,6 milhões de residentes em Portugal e, desses, a maioria está dependente dos que ainda trabalham. O país será inviável e não vale a pena iludir a questão”. “Não há nenhum país independente e autónomo que tenha 8,6 milhões de habitantes com cerca de 131 jovens para 337 idosos”, reforça.

Adalberto Campos Fernandes diz mais: “Será a banca rota do sistema de saúde e da segurança social.”

A solução pode ser ter a capacidade de nos próximos anos ter uma imigração jovem ativa e forte que venha recolocar os patamares demográficos em Portugal.

Sarah Harper, professora do Instituto de Envelhecimento da População em Oxford, mostrou que continuam a ser as mulheres quem tem mais longevidade, que a condição económica está diretamente relacionada com a saúde e que ao longo da última década temos aumentado a esperança de vida que ainda não é acompanhada por uma vida também ela extensível na qualidade.

A esperança média de vida com anos livres da doença é para um sueco de 70 anos, já para um português são 59 anos.

Adalberto Campos Fernandes acrescenta que isso “é uma carga enorme sobre o sistema de saúde e que podemos ter vencido a batalha da quantidade dos anos de vida, mas estamos a perdê-la na qualidade dos anos de vida.”

Mais legumes, mais desporto e uma mudança de paradigma, olhar para a vida saudável como forma de atrasar as doenças cada vez mais.

“O único casamento que não se dissolve é o casamento entre saúde e pobreza e se nada for feito continuamos a ter uma sociedade pobre, doente, infeliz e desumana”, acrescenta o antigo ministro.

Durante o 3.º Fórum sobre o envelhecimento foram vários os especialistas que falaram na necessidade de apostar num espaço público virado para os mais velhos.

Bancos de ruas, árvores para sombra, acessos adaptados para fácil mobilidade, lembrando que qualquer investimento será sempre um investimento não apenas para os mais velhos, mas para uma geração que lá vai chegar um dia.

George MacGinnis, director do Departamento de Inovação e Pesquisa do Reino Unido, afirmou que “é hora de começar a pensar nos mais velhos como uma oportunidade e não como um problema. Temos de pensar em novos edifícios. Casas utilizadas por pessoas em cadeira de rodas. Na melhoria das cidades.”

António Carvalho, professor associado de Arquitetura e Urbanismo Politécnico di Milano, defendeu por seu lado que é preciso “começar nas escolas para os mais velhos serem vistos como um processo natural e não um problema” e naturalmente apostar em “desenhar espaços que permitam uso de zonas enquanto se é saudável e depois quando se sofre condicionamentos de saúde.”

Cláudia Cavadas, vice-reitora da Universidade de Coimbra, sublinha a importância do sono. “Falamos de comida, medicação, exercício, mas não muito do sono. O sono é fundamental para uma longa vida e de qualidade. O número de problemas que resultam de um mau sono são neurogenéticos, cancros, parkinson, depressões. Os estudos mostram, por exemplo, que os trabalhadores da área da saúde que trabalham por turnos têm elevados índices de cancro, trabalham hoje de manhã e depois outro dia à noite. O número de horas que dormimos e a qualidade desse sono são fundamentais.”

Por seu lado, Susana António - Fundadora da Creative Hub 60+ a avó veio trabalhar - lembrou que a Covid ajudou todas as gerações a olhar para os reformados.

“Todos em casa a sentir o que sente uma pessoa mais velha. Isto é, a viver como muitos mais velhos vivem em casa sem nada para fazer, sem tirar o pijama.”

“Somos sempre o que comemos, que bebemos, o que fazemos e em 30% somos a genética que nos transmitiram”

Adalberto Campos Fernandes, lembra que a inovação tecnológica na área da saúde faz muitas vezes mais do que a simples medicação.

“Os estados têm enorme dificuldade em libertar recursos para a inovação terapêutica e muitas vezes esta inovação não é disruptiva, devo dizer que faz mais pela vida de uma pessoa, uma casa adaptada, ou um dispositivo para monitorizar quem vive sozinho, do que pseudo-soluções terapêuticas de duvidosa efetividade e que acrescentam uma brutal carga sobre a despesa pública e privada das famílias”, disse no encerramento do encontro.

Por fim acrescentou: “Temos que capacitar os Estados para afetar mais recursos financeiros a promoção da saúde e prevenção da doença e ensinar na primária -desde a infância- que a vida é uma conta poupança corrente para o futuro: somos sempre o que comemos, que bebemos, o que fazemos e em 30% somos a genética que nos transmitiram.”

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