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Dormidas a 20 euros, neve e regras Covid. No Sabugueiro, só faltam os turistas

02 dez, 2021 - 08:50 • Liliana Carona

“Quero fazer sandes, mas não há ninguém”, lamenta uma comerciante. A freguesia do Sabugueiro, no concelho de Seia, tem um total de 465 camas disponíveis e vive do inverno. Os prejuízos de quase dois anos de pandemia ainda se fazem sentir.

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peça de Liliana Carona sobre turismo no Sabugueiro (02/12/2021)
peça de Liliana Carona sobre turismo no Sabugueiro (02/12/2021)
Ouça aqui a reportagem da jornalista Liliana Carona

Preços atrativos, dormidas por 20 euros e medidas de prevenção extra para que contrariar a pandemia de Covid-19, assim se preparou o Sabugueiro, aos pés da Serra da Estrela, para receber os visitantes.

Com cerca de 400 habitantes e situado a 1.050 metros de altitude, o Sabugueiro – que, à entrada, tem na sinalética a inscrição de “aldeia mais alta de Portugal Continental” – vive essencialmente do turismo, com mais de 30 lojas comerciais, 10 restaurantes e 30 unidades de alojamento (um hotel, um hostel e várias unidades de alojamento local), num total de 465 dormidas.

Os primeiros flocos de neve já vão caindo, mas os turistas ainda não respondem à chamada do Inverno na Serra da Estrela.

“Eu queria fazer sandes, mas não há ninguém. Isto está muito mau para quem paga impostos e não podemos aumentar os custos. Já há dois anos que não fazemos Inverno. Temos aí os gorros, tudo acumulado”, observa Luisete Cruz, 65 anos e proprietária da Casa Sabugueiro, comércio e alojamento local (com três quartos). Nem quer fazer as contas aos prejuízos de quase dois anos de pandemia.

“Eu nem faço essas contas. Quero gastar dinheiro e não tenho”, conta, salientando respeitar as normas relativas à Covid-19. “Temos os cuidados todos. Fazemos preços muitos baixos, mas isto nem dá para luz nem para desinfetantes, nem para nada”, conclui Luisete, que confessa já ter ponderado abdicar da única funcionária da casa.

“Nós trabalhamos no Inverno, vivemos do Inverno, mas assim sem gente, morre tudo. Eu tenho uma empregada e já pensei duas vezes. O Governo tem de pensar que esta doença vai ficar connosco e vamos viver com isto”, alerta a comerciante, enquanto pega num quarto de um centeio para fazer uma sandes de presunto e queijo. “Houvesse clientes. Esta é para si, quer?”, pergunta à Renascença.

Hostel corta lotação para metade

Dormir uma noite na Casa Sabugueiro ronda os 25 euros. Preços baixos que são ainda mais baixos no Hostel Criativo (o primeiro da Serra da Estrela, inaugurado em 2018), onde a reserva individual não passa dos 20 euros e a lotação não vai passar dos 50%.

A medida não foi anunciada pelo Governo, mas foi adotada pela gerente Marlene Fonseca, de 46 anos, na unidade com 32 lugares disponíveis. “Começámos bem, com muita procura, mas tivemos de encerrar. Temos sempre receios, estamos devagarinho a recuperar. Tentamos não encher o hostel, para que não haja problemas com a Covid-19. Separamos os grupos se não forem da mesma família; o uso de máscaras, o distanciamento, não deixamos que haja muita gente. Fazemos uma redução de 50%, a não ser que seja um único grupo familiar para todo o hostel”, relata da marquise aquecida com vista para a Serra da Estrela e para as residências artísticas ali existentes.

Clientes já mostravam certificado digital

“Iremos introduzir essa nova regra”, assegura Marlene, garantindo no entanto que “os clientes até já têm por hábito mostrar o certificado digital, principalmente os estrangeiros. E nós até já estamos a ir além dessa medida, com a redução da lotação.

No Hotel Rural e Spa de 4 estrelas Abrigo da Montanha, com capacidade para 75 pessoas, o diretor Nuno Nogueira, de 43 anos, tomou ainda outras medidas. “Portas automáticas em todo o lado para não tocarem nas maçanetas das portas”, mostra, ao mesmo tempo que faz contas aos prejuízos.

“Tivemos uma quebra muito grande, encerrámos e fomos para ‘lay-off’. Um hotel desta dimensão tem muitos custos e esperamos dias melhores. Ainda não tivemos retorno para fazer face aos prejuízos. Vai ser um processo lento. Valores muito elevados, mais de 75 % de quebras”, revela o diretor da unidade hoteleira, onde a apresentação do certificado digital é encarada com normalidade.

“Ficamos sempre na expectativa. À partida, se obrigassem aos testes era mais complicado. O fazer o teste na hora, as pessoas sentem-se incomodadas e na parte da restauração, nos clientes do restaurante, víamos quando era obrigatório fazer os testes, as pessoas iam embora”, relembra Ricardo Cabral, o proprietário do hotel Abrigo da Montanha e responsável pela remodelação do espaço em 2015, que passou de hospedaria a hotel rural e spa de 4 estrelas.

Mais medidas? “É cortarem-nos as pernas”

“Medo? Não temos de ter medo, temos de viver com este vírus, saber viver com ele. Desinfetante em todos os pisos, máscaras, medidores de temperatura, desinfeção constante do espaço”, assegura o diretor do Hotel Rural e Spa, Abrigo da Montanha, onde uma noite custa aproximadamente 100 euros.

O hotel tem capacidade para 75 pessoas e já se prevê casa cheia para o Natal e passagem do ano. “Estamos muito próximos de lotação esgotada para o Natal e passagem de ano. No Natal, temos o almoço com as degustações natalícias e fazemos o jantar de réveillon com música ao vivo e magia”, antecipa o diretor da unidade de hoteleira de 4 estrelas, Nuno Nogueira.

Ainda que admita não ter medo, o diretor da unidade hoteleira nem quer ouvir falar de mais medidas. “Se fossem obrigatórias outras medidas… era cortarem-nos as pernas, ficávamos muito mal, se implementassem as medidas do ano passado, ficávamos sem argumentos para sobreviver”, afirma.

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