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Covid-19 não pode deixar cicatrizes nas economias, pessoas e empregos, diz OIT

21 abr, 2020 - 22:21 • Ana Carrilho

A organização recomenda estimular a economia e emprego, apoiar as empresas e os rendimentos, proteger os trabalhadores e encontrar soluções em diálogo social.

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A Covid-19 tem um efeito devastador sobre os trabalhadores e empresas de todos os setores de atividade, conclui a Organização Internacional do Trabalho (OIT) – num relatório apresentado esta terça-feira sobre o impacto da pandemia e as respostas que alguns governos estão a dar.

A organização analisou dez setores e se todos são afetados, nos do turismo, aviação e indústria automóvel, os efeitos são significativamente mais visíveis e com impacto na economia e no emprego, a nível global.

Por isso, esta tarde, em videoconferência, a diretora de Políticas Sectoriais da OIT, Alette van Leur frisou que “é preciso aumentar o investimento em condições de trabalho seguras e dignas para os trabalhadores da linha da frente e garantir que esta pandemia não deixa cicatrizes mais profundas e prolongadas no tempo, nas economias, nas pessoas e nos empregos”.

Estimular a economia e o emprego; apoiar as empresas, o emprego e os rendimentos; proteger os trabalhadores no local de trabalho e encontrar soluções em diálogo social, são os quatro pilares em que se fundam as recomendações da OIT para enfrentar a pandemia e preparar a recuperação quando terminar a crise.



Impacto devastador no turismo e aviação civil

O turismo é um dos setores mais dinâmicos e que mais facilmente favorece o crescimento económico e o emprego.

Em 2018, o setor tinha 318 milhões de empregos, ou seja, 10% do emprego global. Por outro lado, tem um efeito multiplicador: cada posto de trabalho direto criado no setor do turismo gera 1,5 indiretos noutros setores como a agricultura, transportes, artesanato, restauração e bebidas.

A hotelaria e restauração, com 144 milhões de trabalhadores, mais de metade mulheres e em micro, pequenas e médias empresas, foram particularmente afetados pelos encerramentos.

Além disso, no turismo há muita informalidade, trabalhos sazonais ou em part-time, baixos salários, horários longos e pouca proteção social. Condições que se intensificaram nesta pandemia.

A União Europeia e outros países já adotaram medidas para mitigar o impacto da pandemia e para a OIT, este “é um setor conhecido pela sua resiliência para ultrapassar as crises e recuperar mais rapidamente. Já o mostrou com o surto epidémico SARS de 2003 e a crise económico-financeira de 2008-2009. Pode, inclusive, desempenhar um papel-chave para revigorar a economia quando a crise acabar”.

Ainda assim, a OCDE estima que a indústria do turismo possa contrair entre 45% e 70% este ano, dependendo da duração da crise e velocidade da retoma.

Fundamental para o turismo é a aviação civil, que sofreu uma forte “machadada” com a Covid-19. Se noutras pandemias conseguiu começar a reerguer-se entre três e seis meses após o fim da crise, para a Organização Internacional do Trabalho, desta vez, precisará de muito mais que meio ano.

Com os aviões em terra, a IATA – Associação Internacional de Transporte Aéreo – prevê que a quebra das receitas em 2020 tenham uma quebra de 44% em relação a 2019, qualquer coisa como 252 mil milhões de dólares.

No emprego, o impacto também é muito forte: a aviação civil emprega mais de 10 milhões de pessoas em todo o mundo e gera outros 65 milhões de postos de trabalho indiretos.

Para a Organização Internacional do Trabalho é claro que as respostas têm que resultar do diálogo social entre governos, empregadores e trabalhadores.

Ligado ao turismo estão também os cruzeiros, que dão trabalho a 250 mil pessoas e que estão completamente parados.

Indústria automóvel parada, repercussões no PIB e no emprego

Este é outro setor que contribui significativamente para a economia global e para o Produto Interno Bruto de diversos países, nomeadamente Portugal. Não admira, por isso, que vários governos e bancos centrais tenham já adotado medidas para proteger as empresas, o emprego e os trabalhadores, nomeadamente ao nível financeiro, fiscal e de proteção social.

Em 2017, a indústria automóvel tinha 14 milhões de trabalhadores. Só na União Europeia estão 2,6 milhões e mais de um milhão foi afetado pelos encerramentos. Metade são alemães.

Só na Europa e Estados Unidos, o fecho das fábricas suspendeu a produção de 2,5 milhões de veículos, o que significa uma perda de 77 mil milhões de dólares.

“Merceeiros” e trabalhadores da limpeza, os outros trabalhadores na linha da frente

Bombeiros, forças de segurança, médicos, enfermeiros, auxiliares e outros trabalhadores da saúde foram desde o início da pandemia identificados como aqueles que “questão na linha da frente” no auxílio e tratamento da população.

Mas neste relatório em que analisa o impacto da Covid-19 em diversos setores, a OIT chama a atenção para outras classes profissionais, geralmente pouca qualificadas, mal pagas e com pouca proteção social: são os trabalhadores das limpezas e os que trabalham no comércio de bens alimentares. “Tornaram-se essenciais para a sobrevivência da economia e para garantir a segurança alimentar e higiene da população”. São eles que estão em contacto mais próximo com as pessoas.

O relatório refere que o comércio a retalho de produtos alimentares, em muitos casos, até assistiu a aumento das vendas – e teve de fazer contratações. Foi o que aconteceu em supermercados, mas também nalgum pequeno comércio de proximidade, mas que teve a capacidade de se adaptar, com o desenvolvimento de vendas online, entregas e reabastecimento. Para a OIT, os mais afetados são as micro e pequenas empresas que não conseguiram fazer essa transformação.

A OIT refere ainda os setores da educação, em que professores e alunos se estão a adaptar o ensino à distância, a agricultura e o do têxteis e calçado. Neste último, a OIT refere que as PMEs são as grandes sacrificadas. E na União Europeia, a queda nas vendas deverá atingir os 50% em 2020. O impacto no emprego será ainda mais forte nos países asiáticos, a começar pela China, também Bangladesh e vários países da América Central em que domina a informalidade. E assim que as encomendas param, os trabalhadores são os primeiros a deixar de receber.

Embora o refira mais insistentemente em relação aos trabalhadores do setor da saúde, a preocupação da OIT é generalizada: é preciso ter muita atenção à saúde mental dos trabalhadores e sobretudo das mulheres, que além do trabalho fora, ainda têm que se preocupar com a vida doméstica e o cuidado a idosos, dependentes e crianças que, nesta altura, com as instituições e escolas fechadas, estão em casa.

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