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Papa diz finalmente "rohingya" e pede perdão pela indiferença do mundo

01 dez, 2017 - 11:46 • Aura Miguel , Filipe d'Avillez

Neste encontro com líderes religiosos o Papa elogiou a convivencia inter-religiosa no Bangladesh.

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Papa Francisco. "A presença de Deus hoje também se chama Rohingya"
Papa Francisco. "A presença de Deus hoje também se chama Rohingya"

O Papa Francisco recebeu esta tarde um grupo de refugiados de etnia rohingya, a quem pediu perdão pela indiferença do mundo ao seu sofrimento.

Os 16 elementos desta comunidade cumprimentaram o Papa um por um e contaram-lhe as suas experiências de perseguição e fuga do Myanmar, auxiliados por tradutores, perante um Papa com ar muito compungido.

No final deste encontro Francisco voltou a pegar no microfone e dirigiu-se a eles, pedindo perdão pela indiferença a que o mundo os tem sujeitado. "A vossa situação é muito dura. Em nome dos que vos fizeram mal e pela indiferença do mundo, peço perdão."

Francisco realçou a humanidade destes refugiados muçulmanos, com referência à tradição cristã. "Caros irmãos, no acto cristão da criação, todos somos feitos à imagem de Deus. Somos todos imagem do criador".

Depois, voltando-se para o resto dos participantes do encontro inter-religioso, que juntou milhares de pessoas em Daca, capital do Bangladesh, Francisco pediu "continuemos a audar estes irmãos. Não fechem os corações, não desviem o olhar. A presença de Deus hoje também se chama rohingya!"

Depois do Papa vários líderes religiosos foram também cumprimentar os rohingya, alguns dos quais choravam de emoção.

A situação desta minoria muçulmana do Estado birmanês de Rakhine tem marcado a visita do Papa ao Myanmar e ao Bangladesh. Se no primeiro país visitado a própria palavra estava proscrita – embora tenha havido referências à situação em Rakhine – no Bangladesh, país para onde fugiram quase um milhão de rohingyas, o tema tem sido falado desde o início.

O grão-mufti do Bangladesh referiu, no seu discurso que o “forte apoio” do Papa pelos rohingya “terá resultados positivos no esforço para assegurar os seus direitos humanos”.

Bangladesh como exemplo

Durante o encontro com os representantes das diversas religiões presentes no Bangladesh, o Papa Francisco apontou para aquele país como exemplo de são convívio inter-religioso.

Francisco elogiou os seus anfitrioes, dando como exemplos práticos os esforços conjuntos na sequência dos desastres naturais que afectam com frequência a região, muito sujeita a inundações, e a forma como a sociedade se uniu após os atentados terroristas do ano passado.

“As várias comunidades religiosas do Bangladesh abraçaram de modo particular este caminho no compromisso pelo cuidado da terra, nossa casa comum, e na resposta aos desastres naturais que afligiram a nação nos últimos anos”, disse.

“Penso também na manifestação coletiva de pesar, oração e solidariedade que se seguiu ao trágico desabamento do Rana Plaza, que permanece gravado na mente de todos. Nestas expressões, vemos como o caminho da bondade leva à cooperação no serviço dos outros.”

“Quanto necessita o nosso mundo que este coração bata com força, para contrastar o vírus da corrupção política, as ideologias religiosas destrutivas, a tentação de fechar os olhos às necessidades dos pobres, dos refugiados, das minorias perseguidas e dos mais vulneráveis! Quanta abertura é necessária para acolher as pessoas ao nosso redor, especialmente os jovens que às vezes se sentem sozinhos e confusos na busca do sentido da vida!”, disse ainda Francisco.

Neste encontro discursaram também representantes da comunidade cristã, budista, hindu e o grão-mufti do Bangladesh, líder religioso da maioria muçulmana, Farid Uddin Masud.

O grão-mufti teceu fortes elogios ao papel de Francisco na promoção da paz e da concórdia entre religiões. “O que o mundo mais precisa hoje é de amor e compaixão. O único remédio e solução para o problema do mal, da inveja e dos confrontos entre as nações, raças e credos, está no amor compassivo pregado e praticado pelos grandes homens e mulheres do mundo. Sua Santidade o Papa Francisco está a fazer esforços incansáveis para encorajar e promover a humidade, erguendo a sua voz pelos oprimidos, independentemente da sua religião, casta ou nacionalidade”, disse.

“É uma grande inspiração para todos nós”, concluiu Farid Uddin Masud.

A Renascença com o Papa em Myanmar e no Bangladesh. Apoio: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Comentários
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  • João Lopes
    01 dez, 2017 Viseu 20:17
    Excelente reportagem!

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