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De Portugal saem centenas de vestidos novos para crianças africanas

14 fev, 2017 - 19:12 • Ana Rodrigues e Liliana Carona

Dar dignidade e protecção às meninas de países abaixo do limiar da pobreza é o objectivo dos projectos “Dress a Girl Around the World” e “Little Dresses for Africa”. Em ambos participam portugueses.

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Tecido, linhas, agulhas, vontade de fazer a diferença e muito amor. Foi com esta matéria-prima que dois grupos de Cascais e da Covilhã já produziram centenas de peças de roupa nova para crianças africanas que vivem abaixo do limiar de pobreza.

O projecto “Dress a Girl Around the World” nasceu nos Estados Unidos e ganhou dimensão internacional. A nível mundial, já foram costurados quase 600 mil vestidos para meninas de 81 países.

Em Portugal o projecto funciona há menos de um ano. Recentemente foram entregues 500 vestidos em Moçambique, mas antes muitos outros chegaram ao destino também em São Tomé e Príncipe e nos Camarões.

É no ateliê Craft Company, em Cascais, que se juntam voluntárias de várias idades para costurar. É o caso de Camila. Já passou dos 70 e encontrou neste projecto uma nova razão de viver: “Estar em casa a ver novelas de empreitada não, isso não faz o meu estilo. Estou aqui e levo trabalho para casa também”, conta à Renascença.

Os vestidos são entregues a cada menina com a ajuda de organizações não-governamentais (ONG) que trabalham em África. Esta entrega dos vestidos em mão é ponto de honra do projecto e quem costura comove-se ao ouvir as histórias de quem os recebeu.

“Fico com o coração cheio. Choro, choro, porque eu sou muito chorona, mas é uma alegria enorme”, conta Maria Luis, uma das voluntárias que já perdeu a conta a quantos vestidos já fez.

Diz que podem até nunca ver as crianças que vestem os seus vestidos, mas imaginam os seus rostos, os sorrisos e os olhos a brilhar. É isso que as inspira quando se agarram à máquina.

O facto de a roupa ser nova e a garantia de que vai chegar a quem precisa foram duas razões que levaram Ana Costa a abraçar o projecto. “Há uma certa tendência para desclassificar África e dar só coisas usadas, portanto o facto de serem só tecidos novos levou-me a vir cá. E também haver certeza de que eles são entregues”, sublinha esta voluntária, uma das mais novas.

Roupa que ajuda a proteger as meninas de África

O encontro de gerações faz-se à roda de uma mesa grande com várias máquinas de costura. Todas têm um molde que tem algumas regras básicas: “O vestido pode ser curto, mas tem de ser um tecido de algodão, não pode ser transparente, tem de ter os bolsinhos. O branco é uma cor que evitamos por causa da transparência, porque o que queremos é proteger o corpinho das meninas.”

Dentro de cada bolso vão também umas cuecas. É outra das características deste projecto que, como já se provou, faz toda a diferença, até porque a roupa interior nos países pobres é um luxo.

A própria etiqueta tem muita importância, diz Sacha Egreja, a proprietária do Craft Company: “Os predadores sexuais cada vez que vêem meninas com vestidos com estas etiquetas sentem que se calhar é melhor não se meterem com elas, porque sabem que elas são protegidas por uma ONG. Mesmo que não estejamos lá, no terreno, a protegê-las, eles percebem que há aqui uma protecção”.

Foi este objectivo de dar dignidade e protecção às meninas em África com “um simples vestido colorido” que inspirou Vanessa Campos a trazer a ideia para Portugal. É um projecto, diz, onde todos ficam a ganhar: “ganham as meninas, ganham as senhoras, porque passamos aqui tardes divertidas, ganham os ateliês. E ganha o meio ambiente, porque só utilizamos tecidos que de outra forma iriam para o lixo. O que nós pedimos aos fabricantes é que nos forneçam sobras de tecido”.

Alunos da Covilhã vestem órfãos com “muito amor”

Outro projecto semelhante envolveu os alunos da licenciatura de Design de Moda da Universidade da Beira Interior. Fizeram vestidos para meninas, mas também bermudas e camisas para meninos. Mais de uma centena de peças já chegaram ao destino, em Angola e no Quénia, em parceria com a organização não governamental (ONG) Little Dresses for Africa - Portugal.

Foi numa sala de aula da Covilhã, no segundo semestre do ano lectivo 2015/2016, que se pensou nos orfanatos do continente africano. A professora Rafaela Norogrando, 37 anos, docente da unidade curricular de Design de Vestuário I, lançou o desafio que foi aceite por 48 estudantes: fazer roupa para as crianças africanas.

“Tivemos grupos que trabalharam para meninos de dois, três anos, e grupos que trabalharam para adolescentes dos 14 aos 16 anos. Fizemos vestidos, calças, bermudas, camisas”, revela à Renascença a docente responsável pelo projecto.

Mafalda Mesquita, 23 anos, frequenta o 3.º ano de Design de Moda, e fez vestidos só com materiais recicláveis. “Tivemos que encontrar tecidos, não podíamos comprar, tínhamos que procurar retalhos. Fizemos os desenhos simples, para serem mais fáceis de vestir, fizemos os moldes, cortámos os tecidos, cosemos. Foi um projecto óptimo porque estávamos não só a ajudar, mas também a fazer porta-fólio para nós”, sublinha a aluna.

Cada estudante fez duas peças de roupa, mais uma peça conceptual. António Simões, 20 anos, conta o que fez para as crianças africanas: “Eu fiz dois vestidos, um deles que era um vestido bege, com alças brancas, e levava umas flores cor-de-rosa. Foi feito para uma criança mais pequena. O outro era tinha uma parte de cima branca, e a parte de baixo rosa, com flores castanhas, e a peça conceptual foi um casaco castanho de bombazina, com as mangas cobertas com flores feitas por nós e pregadas à mão por nós”.

António Simões não esconde que este foi um trabalho que o emocionou: “Houve muito amor. Certamente que as crianças ficaram mais felizes quando tiveram vestidos novos, vestidos muito engraçados que nós fizemos aqui”.

“As roupas já estão a ser usadas por crianças do Quénia e de Angola, e as fotos que já chegaram mostram os sorrisos de quem as usa. As peças foram integradas na doação da Little Dresses for Africa – Portugal, que as enviou para orfanatos do continente africano. Criado em Janeiro de 2016 este projecto envolve 100 voluntárias permanentes, que costuram a partir de casa. Para além da parceria com a UBI também já colaboraram com o projecto a Escola José Saraiva, de Leiria, a Escola Júlio Dantas, em Lagos, o atelier ‘Pontos e Nós’, das Caldas da Rainha, e a Companhia das Agulhas, em Lisboa, entre outras entidades. Ao todo a LDFA-Portugal já enviou quase mil e 500 peças de roupa para mais de uma dezena de países africanos.

[Notícia corrigida às 15h55 de dia 15]

Estas reportagens foram emitidas no espaço informativo das 12h00, na Renascença, em que à segunda-feira o destaque vai para temas de âmbito social e de solidariedade, e também relacionados com a vida da Igreja.

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  • Amália Maria Cavaco
    02 abr, 2018 Alcainça 13:43
    Fiquei sensibilizada com a vossa reportagem, pretendo ajudar também, cedendo materiais para a confecção dos vestidos, agradecia contacto.
  • Maria Adélia
    15 nov, 2017 Santa Maria da Feira 20:21
    Fiquei muito sensibilizada com essa reportagem, gostaria de puder ajudar também, com materiais ou até mesmo com mão-de-obra, agradecia contacto.
  • Maria de Lurdes Pere
    06 set, 2017 Armação de Pêra 20:21
    Gostava de ajudar pois trabalhei muito em costura e tenho muito tempo livre ,agradeço como o posso fazer
  • Delia Gaspar
    04 set, 2017 Pombal 21:06
    Quero ajudar nesta causa fazendo alguns vestidos. Agradeço que entrem em contacto comigo. Grata
  • Jose Piçarra
    15 fev, 2017 Ermesinde 17:47
    Conheço uma Sra. de 90 anos que já faz isso há 15 anos, sózinha, sem publicidade ou promoção. Envia-as via Religiosas do Colégio Sta. Joana-Ermesinde. Esta sim, merece louvor, sem marcas e sem etiquetas.
  • clementina salgueiro
    15 fev, 2017 Rio De Mouro 17:20
    Gostaria muito de saber qual é o ponto mais próximo de mim. Parabéns pelo vosso projeto