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Acordo Ortográfico gera “aberrações”, “caos” e “insólitas incoerências”

23 jan, 2017 - 07:53

Manifesto contra o acordo diz que “o processo de entrada em vigor do AO90, nos Estados lusófonos, começou por ser um golpe político”.
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O manifesto dos “Cidadãos contra o ‘Acordo Ortográfico’ de 1990” (AO90), divulgado esta segunda-feira, contesta o “critério da pronúncia” adoptado, que “gerou aberrações” e afirma que “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”.

O manifesto, que é dirigido ao chefe de Estado, ao parlamento e ao Governo, a juízes dos tribunais, “aos portugueses, funcionários públicos, escolas públicas, particulares e cooperativas, respectivos professores e alunos, universidades, editoras e autoridades administrativas independentes”, afirma que “o processo de entrada em vigor do AO90, nos Estados lusófonos, começou por ser um golpe político”.

Os subscritores lembram que Angola e Moçambique, “os dois maiores países de Língua Portuguesa a seguir ao Brasil”, “nunca o ratificaram”, enquanto Portugal, Brasil e Cabo Verde “o mandaram ‘aplicar’ obrigatoriamente”.

O manifesto, assinado por mais de uma centena de personalidades, como António Barreto, Carlos Fiolhais e António-Pedro Vasconcelos, é também dirigido à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, à Academia das Ciências de Lisboa, ao Instituto de Linguística Teórica e Computacional e ao Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, à Imprensa Nacional – Casa da Moeda “e a todas as restantes entidades públicas e privadas”.

Referindo-se ao “critério da pronúncia”, os signatários citam alguns exemplos, no tocante às consoantes mudas, defendendo que “o AO90 criou arbitrariamente centenas” de entradas de dicionário, “até aí inexistentes em qualquer das ortografias", como “conceção” por “concepção”, “receção” por “recepção”, “espetador” por “espectador”, que geraram “confusões semânticas: “'conceção de crédito', ‘receção económica’ ou ‘espetador de cinema’” são exemplos.

“No entanto, pela mesma lógica, o AO90 deveria começar por cortar a mais ‘muda’ de todas as consoantes: o “h” inicial. O que não fez”, realça o texto também assinado por Helena Buescu, Joaquim Pessoa e João de Freitas Branco.

Segundo o documento, o AO90 “estabeleceu 17 normas que instituem duplas grafias ou facultatividades, assentando num critério que se pretende de acordo com as ‘pronúncias’”, dando como exemplos “corrupto” e “corruto”, “ruptura” e “rutura”, “peremptório” e “perentório”.

No caso de “’óptico’ (relativo aos olhos), com a supressão da consoante ‘muda’ ‘p’, passou a ‘ótico’ (relativo aos ouvidos), o que cria a confusão total" entre especialistas e público, "que deixam de saber a que órgão do corpo humano”.

Mais "arbitrariedades"

Em Portugal, para os subscritores do manifesto, como Constança Cunha e Sá e Eugénio Lisboa, “a eliminação sem critério das consoantes ‘c’ e ‘p’, ditas ‘mudas’, afasta as ortografias do português europeu e do Brasil”, tendo ainda criado “desagregações nas famílias de algumas palavras”.

Salienta o texto que estas “desagregações” provocam “insólitas incoerências”, como “Egito” e “egípcios”, produtos “lácteos” e “laticínios”, os “epiléticos” que sofrem de “epilepsia” ou o “convector” que opera de modo “convetivo”.

"O facto de as facultatividades serem ilimitadas territorialmente", acrescenta o manifesto, "conduz a uma multiplicação gráfica caótica”, como acontece com "‘contacto’ e ‘contato’, ‘aritmética’ e ‘arimética’".

“O curso universitário de ‘Electrónica e Electrotecnia’ pode ser grafado com 32 combinações diferentes", cita o documento, como exemplo "manifestamente absurdo”.

“A confusão maior surgiu entre a população que se viu obrigada a ter de ‘aplicar’ o AO90, e passou a cortar ‘cês’ e ‘pês’ a eito, o que levou ao aparecimento de erros”, como “batérias”, “impatos”, “ténicas”, “fição”, “adatação”, “atidão”, “abruto” e “adeto”, "além de cortarem outras consoantes, como, por exemplo, o ‘b’ em ‘ojeção’, ou o ‘g’ em ‘dianóstico’”.

Os subscritores, como Helena Roseta, José Pacheco Pereira e Januário Torgal Ferreira, afirmam que, no uso de maiúsculas e minúsculas, “o caos abunda” e é “caótica “a forma como se utiliza o hífen": “guarda-chuva” e “mandachuva”, “cor-de-rosa” e “cor de laranja” são alguns exemplos.

“Entre outras arbitrariedades, a supressão do acento agudo cria situações caricatas. A expressão popular: ‘Alto e pára o baile’, na grafia do AO90 (‘Alto e para o baile') dá origem a leituras contraditórias", e a frase "Não me pélo pelo pêlo de quem pára para resistir” fica incompreensível, adianta o documento.

“Para ‘compensar’ o desaparecimento da consoante ‘muda’ e evitar o ‘fechamento’ da vogal anterior, imposto pelo AO90, na escrita corrente, surgem aberrações espontâneas como a colocação de acentos fora da sílaba tónica”, como “’correção’ escrito ‘corréção’, ‘espetaculo’ corrigido para ‘espétaculo’ ou mesmo ‘letivo’ que passa a ‘létivo’”.

Um “caos ortográfico” que se reflecte nos vários dicionários, correctores e conversores, consideram os subscritores do manifesto.


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  • João Costa
    27 mar, 2017 Almada 18:46
    Quando, no início dos anos 70, um novo Acordo Ortográfico eliminou os acentos grave e circunflexo em palavras com o sufixo “-mente” e com sufixos iniciados por “z” (-zinho, -zito…), foram inúmeras as confusões e os mal-entendidos. Ouvia dizer-se: já não há acentos em português, o acento circunflexo e o acento grave deixaram de existir, agora já não sabemos escrever, etc. etc. Assim, depois deste Acordo, qualquer palavra acentuada, que seja acrescentada de um sufixo (“-mente”, “-zinho”, etc.), perde o acento: só – somente; sozinho (antes do Acordo de 1971: sòmente; sòzinho) avô, avó – avozinho, avozinha (antes do Acordo de 1971: avôzinho; avòzinha) café – cafezinho, cafeeiro (antes do Acordo de 1971: cafèzinho, cafèeiro) cortês, órfão – cortesmente, orfãozinho (antes do Acordo de 1971: cortêsmente, òrfãozinho [NB: o til não é um acento] ) Desta maneira, depois do Acordo de 1971, o acento grave (`) passou a existir, unicamente, nas seguintes palavras portuguesas: “à / às” e “àquele / àquela / àqueles / àquelas” (“eu vou à praia”; “eu vou àquela praia”) Se, nessa altura, houvesse Internet tal como hoje, os protestos seriam inúmeros – e muita gente revoltar-se-ia contra tal absurdo, “fruto do impulso de gente ignorante e com pouca cultura”, “nunca seremos colaboracionistas e cooperantes de uma ESTUPIDEZ deste calibre”, “Trouxe vantagens? Nenhumas. Nunca se escreveu com tantos erros em Portugal, como presentemente”, “Ó gentinha ignorante!!!!!! “, “Fique com a sua ortografia terceiro-mundista, que eu ficarei com a ortografia CULTA da Língua Portuguesa”…
  • Manuel Santos
    07 fev, 2017 4100-491 Porto 21:46
    A adopção do intragável "acordo" pela generalidade da comunicação social, com honrosas excepções como a deste jornal, seguiu "a voz do dono", neste caso a orientação governamental. Pelo menos, a privada não era obrigada a fazê-lo, mas outros valores mais altos se ergueram. A verdade é que continuamos a evidenciar lamentavelmente a nossa pequenez, até neste assunto. Porque, que eu saiba, os países ex-colonialistas como Espanha, França, Inglaterra, Holanda e Bélgica, não fizeram qualquer acordo ortográfico com as antigas colónias. Estive 26 meses em Angola e constatei que, em operações militares, o MPLA exigia a utilização da língua portuguesa nos seus acampamentos. Será por isso que este país, como Moçambique, não implementou o dito acordo.
  • Rodrigues
    24 jan, 2017 Abrantes 15:38
    Querem destruir tudo até a própria Língua ,continuo e continuarei a escrever como Português que SOU !!!
  • Fernando Ramos
    24 jan, 2017 Abrants 09:17
    São os países de língua portuguêsa que têm de aproximar a sua grafia ao português de Portugal e não o português de Portugal que tem de se aproximar ao português do Brasil (que é o que se passa). Imaginem agora que nos tínhamos aproximado do português angolano??? Os "ideilogistas" (ou idiotas) que se lembraram desta aberração, deviam ser presos por atentado à língua portuguesa e quase traição. Afinal de contas entregaram a nossa língua materna à aos caprichos da língua brasileira (nada contra o sotaque) que embora sendo muito viva, colorida e divertida, não é a língua portuguesa.
  • joao123
    23 jan, 2017 lisboa 21:01
    É um facto o senhor comprou um fato , ou como se escreve agora : é um fato o senhor comprou um fato...
  • Joao M Maia Alves
    23 jan, 2017 Cacém 18:21
    Sou totalmengte a favor do AO, que conheço razoavelmente e uso conscientemente. Já não andará para trás.
  • Eduardo Correia
    23 jan, 2017 Lisboa 17:58
    Que estranho jornalismo este! Então não há contraditório? Só argumentos em favor da revisão do AO? Que triste, Renascença.
  • APARAGALHOS
    23 jan, 2017 SÍTIO MANHOSO 16:38
    NÃO É ACORDO ORTOGRÁFICO QUE SE ESCREVE . . . CORRECTO : aborto ortográfico ! Nota: quando estou a ver os rodapés na TV, desligo tal o nojo que sinto.
  • Benedita Cordeiro
    23 jan, 2017 Mogadouro 11:48
    Nunca 'mas nunca mesmo , irei aderire a essa aberração e confusão Que desnatura a lingua Portuguesa , ainda que não fosse senão ' pelo respeito que que devo aos meus professores .Moro em França ha quarenta e três anos ' pratico as duas línguas , mas continuei sempre tanto que pude ,a preservar o o que aprendi .
  • Fátima Ferreira
    23 jan, 2017 lisboa 11:25
    Já mais irei assassinar a Língua Portuguesa com a História do acordo ortográfico só Portuguesa e tenho muita honra