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“Sempre senti o desejo de ir onde ninguém quer ir”

09 jan, 2017 - 16:03 • Ângela Roque

O que é que leva alguém a deixar a vida confortável que tem para ir, por um ano, ajudar num campo de refugiados?

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Joana Gomes, 28 anos, licenciada em serviço social com mestrado em recursos humanos, parte esta terça-feira para o Chade. Vai coordenar um projecto de educação num campo de refugiados onde vivem 20 mil sudaneses, e que é gerido pelo Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS).

Em entrevista à Renascença, Joana diz que há sacrifícios que só se fazem “se forem por Deus”, conta que se sente feliz “no incerto, na pobreza, no encontro com o outro” e que o mais a fascina “são as pessoas”. A vontade de ajudar já a levou a viver numa favela no Brasil e a campos de refugiados em Espanha e na Sicília onde, lamenta, a Europa só está a “fingir” que está a acolher. Mas quer continuar a ajudar, mesmo sabendo que a sua ajuda é só “uma gota no oceano”.

Porquê o Chade? Porquê agora?

Na verdade é o Chade como podia ser outro sítio qualquer. O que me leva a sair de Portugal e da minha vida é muito esta vontade de servir, em concreto esta causa dos refugiados. E calhou o Chade porque eu disse que estava disponível para ir para onde ninguém quisesse ir, e por isso ofereceram o Chade como destino de missão.

Vai ao abrigo de um projecto do Serviço Jesuíta aos Refugiados?

Sim, vou com o JRS. A primeira entrevista que fiz foi com o gabinete internacional em Roma, mas o meu contrato é directamente com o JRS do Chade.

O que é que vai fazer exactamente?

Vou coordenar um projecto de educação em campos de refugiados.

Porque este país também tem refugiados…

Na verdade tem muitos refugiados. O campo onde eu vou estar tem 20 mil pessoas. Um padre jesuíta com quem estive em Roma dizia que agora já não se fala no Chade, fala-se muito da Síria e de outros campos…

E fala-se muito da Europa, porque é aqui no nosso quintal e diz-nos mais respeito. E há muitos refugiados na Europa...

E isso toca-nos mais…

Mas, no Chade também há refugiados. 20 mil?

Só no campo onde eu vou estar. Existem 10 campos, o JRS está em oito deles, porque no Chade não existe serviço de educação, por isso toda a educação que é oferecida é oferecida por organizações particulares e ONGs. E o JRS está nestes oito campos a fazer de escola, a servir comunidade local nesta oferta escolar. E eu vou coordenar este projecto neste campo em concreto, depois numa pequena vila e num outro campo um bocadinho mais a sul.

E os refugiados são de onde?

Vêm do Sudão, já estão no Chade há 12 anos, por isso já não é uma situação de emergência. Mas os problemas são os mesmos de quando chegaram…

E a guerra arrasta-se no Sudão, por isso há com certeza gente que continua a sair…

Essa parte ainda não sei, mas sei que eles não podem voltar por isso há aqui esta dificuldade de por um lado o Chade não os reconhecer como nova população local, por outro lado eles gostavam de voltar mas não podem, e por isso a situação, não de emergência mas de necessidade, continua.

Portanto, haverá muito para fazer…

Eu espero que sim.

Esta não é a sua primeira missão. Quando partiu pela primeira vez tinha 18 anos e foi para uma favela do Brasil.

Sim. Queria fazer um “Gap Year”, na altura não sabia o que é que ia seguir na faculdade e não me apetecia ir para a faculdade só porque sim, e então decidi parar um ano de estudar e fui para o Brasil, onde estive a trabalhar com uma comunidade religiosa. Eu estava destacada numa casa que ficava perto da favela, tomava conta de crianças que os pais não queriam, ou não tinham condições para ficar com elas. Eu tinha 18 anos e era a pessoa com mais estudos na casa, por isso também foi assim um choque de realidade muito diferente daquilo a que estava habituada. Também trabalhava na favela, dava catequese, fazíamos visitas domiciliárias, ajudávamos nalgumas limpezas. Há episódios muito engraçados, como eu estar a falar durante muito tempo com as crianças e no final dizer: “olhem se não perceberem digam-me alguma coisa”, e eles “mas tu estavas a falar inglês?”. Sendo a mesma língua e uma cultura semelhante havia muitos obstáculos e muitas dificuldades engraçadas.

Aí esteve quanto tempo?

Estive sete meses, foi o suficiente para dar valor a tudo quanto tinha deixado em casa.

Mais recentemente esteve na Sicília, a trabalhar no apoio aos refugiados. Esteve mesmo a ser gestora de um projecto, não foi?

Fui o ano passado como voluntária num projecto da CVX, a Comunidade de Vida Cristã, ligada aos jesuítas, e depois no verão voltei, já como coordenadora de projecto. É um projecto em que jovens de toda a Europa se põem ao serviço desta população migrante e refugiada. Estávamos a trabalhar com uma fundação italiana que tem centros de acolhimento onde os refugiados e migrantes que acabam de chegar a Itália são distribuídos, e nós estávamos lá a ser úteis, a fazer o que fosse preciso, aulas de italiano, workshops manuais. O objectivo era muito estar com a população.

Por cá também já esteve envolvida nalguns projectos de âmbito social, nomeadamente durante o curso que entretanto fez, de Serviço Social.

É engraçado que agora que se olha para trás tem tudo a ver, e no início foi ao contrário. Inscrevi-me em Serviço Social por exclusão de partes, pouco confiante, e depois a experiência do Brasil mostrou-me que “não, eu quero ajudar, mas para saber ajudar, mais do que a vontade é preciso aqui este saber”. Por isso agora olho para trás e, sim, faz todo o sentido o Serviço Social, mas na altura estava meia duvidosa. Durante o curso fui tendo várias experiências de voluntariado orientadas por um gosto pessoal que eu tinha por esta população mais refugiada e migrante. Estive, em Burgos, Espanha, durante três semanas, a fazer um campo de trabalho com esta população. E pronto, percebi que havia aqui um bichinho…

Foi um caminho que foi fazendo, uma coisa completava a outra e fazia as peças juntarem-se e fazerem sentido na sua vida?

Exactamente, sim. Durante o curso nunca optei por fazer estágios com refugiados porque sabia que ia gostar, sempre optei por outras coisas para tentar descobrir outros caminhos, e o ano passado foi um bocadinho Deus a mostrar-me “Joana, andas há muito tempo a fugir deste tema, vamos enfrentá-lo e enfrentá-lo a sério!”.

Sempre sentiu esta vontade de ajudar os mais pobres e mais fragilizados?

Sim. Sempre senti este desejo muito grande de estar ao serviço, e sempre tive esta consciência de que o mundo é muito mais do que Lisboa, o mundo é muito mais do que a minha vida, e foi sendo muito claro que há aqui um mundo para servir. E eu sinto muito este apelo para ir onde ninguém quer ir.

E tem estado envolvida nestas missões que são também de voluntariado missionário. A fé faz parte deste seu percurso também?

Sim, e isso foi muito claro para mim quando estive no Brasil, que há sacrifícios que nós só fazemos se forem por Deus, se forem por uma causa maior. Ninguém fica sete meses a viver imensos sacrifícios físicos se não for assim.

A sair da sua zona de conforto…

Há coisas que só sacrificamos porque há uma causa maior, e não é por nós mesmos, porque, por nossa opção, muitas vezes escolhemos o quentinho, o seguro.

Há também aqui um processo de busca interior…

Sem dúvida. E eu acho que é, de facto, o mais importante. É porque houve esse processo de discernimento e de procura é que há agora este resultado exterior de missão.

Em todos estes sítios onde já esteve o que é que mais a marcou até hoje?

Eu acho que são as pessoas. As pessoas em geral fascinam-me muito, estas culturas diferentes, a língua diferente, religiões diferentes. E depois perceber que quando se fala de pessoas é muito simples também, é muito este amor, o olhar, a atenção. Fascina-me muito ir percebendo isto, que há muitas coisas que nos diferem e muitas que nos tornam próximos e iguais.

A humanidade é muito semelhante, sejam as pessoas de onde forem.

Exactamente. E o amar é igual independentemente da língua, da cor. E é isso que me tem fascinado também, ir conhecendo pessoas novas, um mundo novo e perceber que há muitas coisas que afinal são comuns.

Este drama dos refugiados, que tem chamado a atenção nos últimos anos, também a tem preocupado particularmente?

Sim.

E tem esperança de que as coisas possam mudar?

Não. Tenho cada vez menos esperança, porque nestes centros em Itália onde estive é um bocadinho “fingir” que estamos a acolher. Não estamos a fazer nada, estamos a dar umas condições mínimas, mas o acolhimento, na verdadeira palavra, não estamos a fazê-lo, porque não é dada a atenção individual a cada uma destas pessoas, não é explicado o processo, não é ajudada na integração. Quando saí de lá a primeira vez senti muito esta vontade de voltar, esta consciência de que ainda não foi feito tudo o que podia ter sido feito por estas pessoas.

Há uma sensação de impotência?

Sim, muito grande. Sobretudo quando se toma a consciência de que é um problema muito maior do que nós. Posso fazer a minha parte, e é isso que eu quero fazer, estou muito comprometida nisso, mas com esta consciência de que é uma “gota” no oceano e que para, de facto, se mudar as coisas era preciso ir à causa, porque é aí que tem de se fazer alguma coisa também. Ou seja, há esta situação de emergência, é preciso ajudar, mas se queremos resolver o problema temos de ir à raiz.

Agora o Chade vai ocupar as suas atenções. Vai por quanto tempo?

O contrato é por um ano, com possibilidade de, ao final de um ano, poder ficar mais tempo, mudar de missão. Mas, apontemos as forças para um ano, e já vai ser necessária muita força…

É, portanto, uma missão de longa duração. Como é que a família reage a esta sua disponibilidade para os outros?

Muito mal, ao início muito mal! Eu acho que a minha família sabe que eu sou um bocadinho especial neste sentido, de gostar de estar fora, ao serviço, mas ficam sempre assustados quando eu venho com uma nova surpresa na cartola, e esta foi um bocadinho pior porque… Talvez para nós o Chade seja muito longe, como não conhecemos é assustador, é até mesmo perigoso. E por isso a reacção foi muito correspondente a esta, ficaram assustados, não conformados com a minha decisão, pouco confiantes de que este era o melhor caminho. Também por causa do contexto. Eu estava a trabalhar numa escola, com um contrato efectivo, com tudo aquilo que a nossa sociedade nos diz que é o certo, e deixei tudo para optar por esta nova missão. Por isso também acho que muitas vezes temos dificuldade em conseguir considerar que há outras formas de felicidade e de caminho que não são aquelas a que todos nós estamos habituados.

E a felicidade que a Joana procura passa por aí, por ajudar os outros?

Sim, passa sobretudo por aí. Mais do que estar confortável na minha vida, com as minhas certezas e as minhas garantias, tenho aprendido que estou muito mais “eu” e mais feliz no incerto, na pobreza, no encontro com o outro, e que isso não passa necessariamente por ter esta vida calminha e garantida a que estava habituada.

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  • Isabel Pinto
    04 mar, 2017 Vila Nova de Gaia 12:46
    Olá, Pouco tenho a dizer que Joana Gomes é uma pessoa com a Consciência de que o mundo vai mal em relação aos mais fracos, desfavorecidos, e a única forma de contribuir mesmo sendo uma gota no oceano FFaz Toda a Diferença! Se houvessem muitas mais Joanas o mundo não estaria a passar pela situação preocupante e miserável em que se encontra! Os grandes senhores do poder mundial em vez de gastarem milhões e milhões de dinheiro, em guerras , armamento , corrupção... o fizem em prol de quem mais precisa seja aqui na Europa, em África, na Siria ou em outras partes do mundo, teriamos pessoas com uma vida digna e com o necessitam para viver ! Joana Gomes, tenho e sei que muitas pessoas se juntarao a ela! Isabel Pinto

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