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Entrevista

Patriarca sírio: "A intervenção russa foi uma salvação para os sírios"

05 jul, 2016 - 17:39 • Filipe d'Avillez

O patriarca Inácio José III culpa as potências ocidentais pela instabilidade na Síria e pela crise de refugiados e defende a criação de uma zona segura para os cristãos no Iraque, sob protecção internacional.

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A intervenção da Rússia na guerra civil da Síria foi entendida pelos cristãos e pela maioria dos sírios como uma “salvação”, considera o patriarca de Antioquia e de Todo o Oriente dos Sírios, Inácio José III Younan.

O líder da Igreja Católica Siríaca, uma das mais pequenas igrejas orientais em comunhão com Roma, esteve recentemente em Portuga. Peregrinou a Fátima com um grupo de 33 padres e leigos para rezar pela paz no Médio Oriente e também para informar em primeira mão o bispo de Leiria-Fátima da iminente inauguração no Líbano da primeira igreja dedicada a Nossa Senhora de Fátima naquele país.

A Igreja Siríaca Católica tem sede em Beirute mas tem fiéis no Líbano, Síria e Iraque, para além de uma pequena minoria na Turquia e uma diáspora significativa no ocidente, como na Suécia, por exemplo. A Igreja separou-se da Igreja Siríaca Ortodoxa no século XVIII, mas actualmente tem excelentes relações com esta.

Nesta entrevista, o patriarca, eleito em 2014, fala também da necessidade de uma zona segura para os cristãos e membros de outras minorias étnicas e religiosas no Iraque e sobre a legitimidade de os cristãos pegarem em armas para se defenderem de grupos terroristas como o Estado Islâmico.

Como é que avalia a situação actual na Síria?

Estamos de rastos, sobretudo por causa da agenda hipócrita dos políticos ocidentais. Eles não querem saber de nada se não os seus próprios interesses.

Ficamos tristes por ver que fomos esquecidos. As minorias cristãs vivem nesta região há milénios e foram esquecidas pelas nações ocidentais, supostamente civilizadas, as mesmas que fingem defender a democracia e a carta dos direitos do homem, a igualdade e a liberdade religiosa.

Consegue ir com frequência à Síria?

Vou cerca de uma vez por mês, mas não consigo ir a qualquer lugar. Fico-me por Damasco, Homs e a costa. Não consigo chegar a outras regiões, como Aleppo e Hassakeh.

O patriarca Inácio José III em Fátima


Há dias o patriarca da Igreja Siríaca Ortodoxa escapou ileso a um atentado. Sente-se sempre sob ameaça?

No Médio Oriente vivemos sob ameaça, mas não podemos evitar essas ameaças sem negligenciar as nossas obrigações espirituais e pastorais. Claro que estes atentados entristecem-nos. Eu liguei-lhe, falámos logo a seguir e estamos sempre em contacto, encorajamo-nos um ao outro, fazemos o melhor para tentar cumprir as nossas responsabilidades.

Nesta ocasião, o patriarca foi salvo pela intervenção da Sutoro, uma milícia cristã que actua em conjunto com os curdos. Há lugar para as milícias cristãs na Síria?

Não concordo com essa terminologia. Há grupos cristãos que se organizam para proteger as suas aldeias e vilas, porque sofreram ataques do Estado Islâmico e muitos foram mortos, raptados ou forçados a emigrar.

Nós encorajamos os nossos povos a defenderem-se com as forças de segurança ou com as forças armadas regulares. Não gostamos de falar de milícias, no sentido de grupos que lutam contra outros, contra os seus vizinhos, ou que participam em conflitos fora da sua área de residência.

Mas no Iraque e na Síria, por exemplo, o Governo e as Forças Armadas não conseguem estar em todo o lado, por isso as pessoas têm o dever de se defenderem. Tanto o Patriarca Siríaco Ortodoxo como eu concordamos que os nossos povos têm de estar apostos para defender as suas vidas, famílias, mulheres e crianças de serem chacinadas como ovelhas nestes ataques.

Por isso não temos milícias, nesse sentido que a palavra costuma ter. Temos pessoas que querem defender as suas casas e as suas aldeias.

Alguns cristãos defendem a autonomia de áreas em que vivem a maioria dos cristãos, como na planície de Nínive. Que acha disto?

No Iraque temos a planície de Nínive, cuja maioria é árabe sunita e onde as minorias como os cristãos, yazidis, shabaks e curdos têm sido tolerados, mas não são aceites como cidadãos de plenos direitos. Por isso fala-se da possibilidade de uma zona segura, descentralizada, sob protecção das Nações Unidas durante uns 10 anos, por exemplo, até que encontremos uma forma de coexistência verdadeira entre os diferentes grupos étnicos e religiosos.

Não estamos a falar de uma região autónoma, isso seria irrealista, mas sim de uma região que seria dependente ou do Governo central de Bagdade ou do Curdistão, uma vez que ainda não sabemos qual dos dois vai controlar a planície. Mas precisamos de algum tipo de protecção internacional, ou então a região, berço do cristianismo na Mesopotâmia, será esvaziada de cristãos, e não apenas durante um curto período de tempo, mas para sempre, porque os que emigram não regressam. Para a nossa sobrevivência no Médio Oriente, isto é uma grande ameaça.

Precisamos da ajuda da comunidade internacional para dizer aos governos do Iraque e do Curdistão que estas pequenas comunidades, as minorias, têm o direito a viver na sua própria terra, com a dignidade de seres humanos, e que têm de lhes dar as condições para viver em dignidade.

Já na Síria não faz sentido falar disto porque os cristãos estão, ou estavam, espalhados por quase todas as regiões do país.

Com D. António Marto, em Fátima


Como comenta a resposta da Europa à crise de refugiados?

Os países europeus não trataram esta questão da melhor forma, porque não olharam para as raízes desta migração, instigaram a violência na Síria ao longo de cinco anos, ou mais.

Desde o início que dizíamos para não compararem a situação da Síria com o Egipto e a Tunísia. Na Síria a situação é muitos mais complexa, porque temos diversidade étnica, religiosa e confessional, muitas minorias, e temos de encontrar uma forma de parar com os combates. Mas eles têm os seus próprios interesses e agora estamos a colher as tempestades desses ventos que semearam.

Até à morte trágica do pequeno Aylan [criança síria que foi encontrada morta numa praia da Turquia e se tornou símbolo do drama dos refugiados], em Setembro, não queriam saber e tentavam manter os refugiados sírios, cerca de dois milhões, na Turquia. Mas depois disso os média começaram a falar do assunto e os países europeus sentiram-se perdidos, não tinham as políticas certas.

Não queremos migrações forçadas devido a guerras sectárias. Deviam ter feito mais para trazer a paz para a Síria e para encontrar a melhor solução para o Governo e para a oposição. Mas sabemos quais são os seus interesses imediatos e agora que enfrentam estas centenas de milhares de migrantes, não sabem como lidar com isso.

No Ocidente sente-se agora uma grande desconfiança em relação à Rússia e à sua interferência noutros países, nomeadamente na Ucrânia e na Síria. Como é que os cristãos na Síria encaram esta intervenção na guerra civil?

A intervenção da Rússia foi vista como um tipo de salvação, não só para as comunidades cristãs mas para todo o povo da Síria, de todas as religiões e confissões. Durante os primeiros três anos não houve qualquer intervenção da Rússia na guerra civil, tivemos sobretudo intervenções de países ocidentais, através dos países regionais, como a Turquia e os Estados do Golfo, a apoiar, a financiar e a armar a chamada oposição e, por razões maquiavélicas, a chamar o Governo ilegítimo.

Ainda hoje os média ocidentais continuam a martelar a Síria e querem destruir o país, fingindo que a raiz de todos os males é Bashar Al-Assad, o que não é verdade. E por isso os sírios viram na intervenção russa uma espécie de salvação da Síria, porque a Síria já estava meia destruída antes da intervenção militar russa.

Claro que a Rússia tem os seus próprios interesses, mas pelo menos têm sido mais transparentes na ajuda que dão ao Governo e ao povo sírio, porque caso contrário teria sido uma hecatombe. Todo o conflito na Síria tem por base o confessionalismo. É mentira o que se diz no Ocidente, em França, nos EUA ou em Inglaterra, que se tratava de uma revolta contra a ditadura. Claro, sabemos que havia uma ditadura, mas qual era a alternativa? O Estado Islâmico?

O Papa esteve agora na Arménia, onde voltou a descrever os massacres de há 100 anos como genocídio. Mas não foram só arménios a sofrer…

Sentimo-nos muito próximos dos nossos irmãos arménios e da Igreja, porque tal como eles, fomos perseguidos, assassinados e expostos ao genocídio, há 100 anos e muitas vezes antes disso. A actual Turquia tinha uma boa presença cristã. Gregos, arménios, siríacos e assírios… E agora já não se pode falar de uma presença cristã, só há uma pequena minoria. Por isso sentimos o mesmo que os nossos irmãos arménios, porque não fomos apenas dizimados, fomos expostos ao genocídio. É este o nosso destino, aliás, a nossa vocação: sermos verdadeiros mártires, isto é, testemunhas do Evangelho e prontos a derramar o nosso sangue por Jesus. Por isso, estamos muito agradecidos ao Papa Francisco, por ter feito esta visita e estar próximo destas pessoas.

No Médio Oriente os cristãos estão muito divididos entre diferentes igrejas católicas, ortodoxas e até algumas protestantes. É uma riqueza a valorizar ou uma fraqueza?

Enfraquece? Claro que sim. Porque infelizmente nos países de maioria muçulmana os números são muito importantes. Os direitos das minorias não são iguais aos dos países civilizados. Independentemente do que dizem, o máximo que conseguem fazer é tolerar a existência de minorias não-muçulmanas. Por isso, quando nos vêem divididos em mais que uma igreja, não o vêem como riqueza.

O facto de sermos várias igrejas seria uma riqueza, por causa das tradições e do património que remonta ao cristianismo primitivo e que enriquece a humanidade, se vivêssemos num tempo em que cada ser humano fosse respeitado, independentemente dos números ou da sua religião. Mas sendo os tempos que são, em que a maioria se quer impor, é uma fraqueza.

Papa. "Não existe solução militar para a Síria, só política"
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Comentários
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  • Jorge
    06 jul, 2016 Lisboa 09:37
    Infelizmente, as palavras deste Patriarca são uma realidade. Desde que o presidente Bush, assassino em bom rigor e criminoso de guerra, decidiu fazer o que fez que o mundo nunca mais viveu em paz. Com a agravante de que a ocidente se vive na mais completa indiferença, que pode conduzir a um caos ainda maior.
  • Tapados
    06 jul, 2016 Aveiro 02:46
    Ora, mais palavras para quê, provando a criminosa hipocrisia dos países ocidentais, comandados pelo Império dos Cowboys (USA e abusa).
  • António Costa
    06 jul, 2016 Cacém 00:49
    O grande problema é que no Ocidente vive-se em Democracia. A esmagadora maioria das pessoas não distingue a Síria da Patagónia. Vivem nas suas rotinas diárias e quando chegam a casa ou é futebol ou telenovelas. O conhecimento profundo do mundo, da realidade, base da Democracia é incipiente. Limita-se no melhor dos casos a repetição de slogans de "direita" ou de "esquerda" consoante as "cores" politicas.
  • manueldosreisdejesus
    05 jul, 2016 madeira 20:53
    ... bem verdade o que fala o patriarca !!! ... ... infelizmente os " américas " e os " burgueses europeus " apenas mentem e confundem a opinião das gentes, só pela ganância !!! ,, ... ... vão para casa, bando de salteadores e criminosos ... e, deixem-se de mentiras !!! ... ...
  • José Sousa
    05 jul, 2016 Porto 18:41
    Faço minhas as palavras do Patriarca Inácio José III.Mais acrescento; Tudo o que se passa incluindo a fuga dos ingleses da UE, se deve ao aventureirismo dos quatro do apocalipse!!! J. Buch (o alcoólico),Tony Blair (o papagaio), Aznar (a marionete), e Durão Barroso (o mordomo). Sim foram estes criminosos sem castigo, que, com argumentos falsos invadiram e destruíram uma nação sendo culpados por centenas de milhar de mortos, posteriormente com o apoio do ex-presidente da França, N. Sarkozi, há que fazer o mesmo na Líbia! bem tentaram na Síria só que aí as coisas ficaram mais complicadas porque, digamos apareceu-lhes pela frente o Grande Urso (Russia) e como cobardes que são tiveram que aceitar os factos. Haveria muito mais para dizer, mas dá-me nojo só de pensar nestes políticos ocidentais.
  • antonio
    05 jul, 2016 lisboa 18:41
    Foi pena a Europa e os EUA não terem tido visão larga e terem acreditado num grupelho de falsos democratas e assassinos que iniciaram esta revolução em Alepo. Morreram milhares de pessoas...A Turquia, também dava apoio a estes criminosos . Foi preciso os Russos atuarem para acabar com esta vergonha...E agora Europa , oque fazer com os refugiados????

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