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D. José Alves. O bispo “itinerante” faz 50 anos de sacerdote

02 jul, 2016 - 11:58 • Rosário Silva

"Aquilo que Francisco nos anuncia é o Evangelho. Não é nada de novo. Nós é que devemos ter esquecido ou deturpado as palavras que estão no Evangelho e que Jesus Cristo pronunciou", diz, em entrevista.

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Nunca esteve no seu horizonte ser bispo. Quando foi nomeado auxiliar para a diocese de Lisboa, em 1998, ficou “surpreso e algo desorientado”, mas aceitou o desafio. Passou, depois, pela diocese de Portalegre-Castelo Branco e pela de Évora, onde, arcebispo, completou 75 anos de idade. Foi em Abril e já fez seguir para o Papa o pedido de renúncia por limite de idade.

D. José Alves Espera “sereno e tranquilo” até à nomeação do seu substituto. Até lá continua, como se nada fosse, a preparar já o próximo Ano Pastoral. Nodomingo, assinala 50 anos de sacerdócio com uma celebração eucarística na Sé de Évora, às 17h00.

Em entrevista ao programa “Ser Igreja” da Rádio Sim, D. José Alves passa em revista um percurso que compara à história do povo de Deus: um povo itinerante tal como tem sido a sua vida.

Com apenas 13 anos, deixou a família e foi para o seminário de Vila Viçosa, numa opção que marcou a sua vida. O que recorda desse longínquo ano de 1954?

Recordo-me de muita coisa. Eu diria que é um rosário de coisas que não acaba, mas recordo, sem dúvida, a decisão de ir para o seminário, que os meus pais aceitaram bem. Deixar a família, vir para o desconhecido criou alguma ansiedade, mas foi amenizado com a vinda de outros quatro colegas. Depois, foi a descoberta do seminário, o acolhimento, foi aprender a viver em conjunto com os outros, uma outra vida. Foram cinco anos em Vila Viçosa, que marcaram a minha vida em vários aspectos: na formação intelectual, espiritual, na aprendizagem em todas as áreas... Foram anos felizes.

Transitou para o Seminário Maior de Évora, de onde saiu com o curso de Teologia, em 1966, com média de 16 valores. Como foi a vida de seminarista?

O tempo no seminário de Évora foi o tempo da juventude. Eu vim com 18 anos, foi o tempo da formação teológica e filosófica, mas também o amadurecimento vocacional. Foram momentos, também, críticos, até chegar a altura de perceber que Deus me chamava para o sacerdócio. Para além da formação teológica e filosófica, recebíamos também uma formação integral, com uma componente cultural. Foi uma formação muito interessante, completa e de convívio com os colegas.

A 3 de Julho desse ano de 1966 recebeu a ordenação sacerdotal de D. David de Sousa...

Foi um dia feliz para mim. Um dia com uma dimensão espiritual muito profunda, com a presença da minha família e amigos e com a presença e o carinho dos professores e colegas. Foi uma ordenação intimista, muito profunda e marcante. Ficou gravada na minha vida e definiu o rumo da minha actividade sacerdotal.

O seu percurso, para além do sempre presente trabalho nos seminários da arquidiocese, conta também com a vivência numa das paróquias, a de Santiago do Escoural. Como foi a experiência de ser pároco?

Grande parte da minha vida foi vivida ao serviço dos seminários e estive, um ano, como pároco no Escoural. Foi uma experiência curta, mas muito gratificante para mim. Encontrei uma situação típica de uma paróquia carenciada, inclusivamente sem a sua própria igreja. No entanto, encontrei uma comunidade muito coesa e muito unida, encontrei pessoas jovens, como eu, na altura, e isso permitiu que estabelecêssemos laços de amizade que ainda hoje permanecem. Foi uma experiência pastoral também ao serviço dos adolescentes e jovens porque também me dediquei ao ensino. Foi, sem dúvida, um ano muito rico para mim.

Nos anos 70, em Roma, obtém a licenciatura em Ciências Pedagógicas e, em 77, o doutoramento, na área da Psicologia. Esta preparação académica foi importante para a sua vida e missão?

Sim, claro. A chegada a Roma é sempre um deslumbramento com toda a sua monumentalidade e, ao mesmo tempo, a proximidade com as raízes da fé e os alicerces da Igreja fundada por Nosso senhor Jesus Cristo. Isso é qualquer coisa que nos toca profundamente. Esse primeiro contacto cria um impacto muito forte. O trabalho, os estudos exigiram de mim uma grande entrega e uma grande dedicação. Fi-lo com muito empenho e sempre com esta ideia: poder servir mais tarde a diocese de Évora e Igreja.

Quando regressa, é convidado a leccionar na Universidade de Évora. Como foi essa experiência de professor?

Aceitei essa missão como aceitei outras, com naturalidade. Na altura, apenas existia o instituto universitário e eu aceitei nessa perspectiva de poder dar o meu contributo para a criação da nova universidade. Considero esse tempo como um tempo pioneiro e cabouqueiro da nova universidade eborense, particularmente na área em que eu trabalhava, a área da pedagogia e educação e, sobretudo, na psicologia, porque não havia ainda em Portugal pessoas licenciadas nessa área. Percebi que o meu trabalho e contributo podiam ser importantes, sem que isso me levasse a diminuir as minhas actividades pastorais.

Esteve ligado à educação cristã, como responsável do departamento da catequese, professor do Instituto Superior de Teologia de Évora (ISTE), voltou a ser reitor no seminário, foi Vigário geral, presidente do Cabido da Sé, tudo isto no final dos anos 80, princípio dos anos 90. Foram muitas responsabilidades e muito trabalho?

Sim, muitas responsabilidades e isso também é um sintoma das carências da diocese de Évora. Quando é necessário as pessoas tem de encher-se de coragem, generosidade, abrir o coração e avançar para aquilo que lhe pedem embora pudessem à primeira vista pensar: porque não outro? Nunca tive essa atitude. Aceitei sempre muito do que me foi pedido. Relativamente ao ISTE, posso dizer que também fui pioneiro pois ele tinha sido fundado quando eu vim de Roma e com os outros colegas, pusemo-lo pé e conseguimos que viesse até aos dias de hoje, sempre a prestar um bom serviço à Igreja. Para mim é uma grande satisfação. De todas as missões que desempenhei fi-lo com generosidade e só tenho, eventualmente, de me recriminar por não ter feito ainda melhor.

Em 1998 é nomeado bispo auxiliar de Lisboa. Alguma vez tinha pensado em ser bispo?

Não estava no meu horizonte ser bispo. Considero que essa foi a maior surpresa que Deus me reservou. Recebi com grande surpresa notícia da boca do senhor D. Maurílio Quintal de Gouveia, então arcebispo de Évora. Fiquei, até, um pouco desorientado, porque não esperava mesmo nada que acontecesse. Levou-me a fazer uma grande e longa meditação, mas conclui que, se era a vontade de Deus, a única coisa que deveria dizer era “sim” e disse-o sem qualquer reserva.

Acabou por ficar seis anos na diocese de Lisboa. Foi vivência muito diferente daquela a que estava habituado?

Sim, foi a descoberta de um grande dinamismo pastoral na maior diocese de Portugal, sobretudo na periferia de Lisboa, onde eu intervinha mais frequentemente. Uma zona que é muito povoada, com gente de várias partes do mundo. Uma zona muito heterogénea e onde as comunidades não estão feitas. Mas, ao mesmo tempo, é uma zona aliciante, porque exige muito de quem por ali anda. São muitas as solicitações e isso abriu-me um horizonte diferente daquele a que estava acostumado numa diocese do interior. Foi também um tempo de grande aprendizagem do episcopado com os meus colegas bispos, nomeadamente com o patriarca José Policarpo, um grande amigo que eu sempre recordo com saudade e com quem também aprendi.

Em 2004 nova missão: foi nomeado bispo residencial de Portalegre-Castelo Branco. Pensou que seria ali que iria exercer o seu ministério até à renúncia?

Pensei. Sabe, às vezes, penso também na história do povo de Deus, que era um povo itinerante, e a minha vida também tem sido assim, andando de um lado para o outro, sem criar grandes raízes por onde vou passando, de missão em missão. Cheguei a Portalegre, uma diocese que, por sinal, tem duas componentes que já me eram familiares: a componente alentejana e a componente da Beira, de onde sou proveniente. Apesar desta familiaridade, foi necessário fazer alguma adaptação e, ao fim de quatro anos, sentia que tinha adquirido conhecimento da diocese para poder continuar o meu trabalho pastoral com alguma iniciativa e autonomia…

Até que, em 2008, a 8 de Janeiro é conhecida a sua nomeação para Arcebispo de Évora. Com que sentimento regressou?

Foi com o sentimento de uma outra missão para cumprir e com o desejo de ser fiel e cumprir o melhor que fosse capaz. Tinha a vantagem de vir para terreno conhecido. Conhecia as paróquias quase todas e os colegas padres. Era uma facilidade, mas, por outro lado, tinha colegas que foram meus professores e eram mais velhos e, agora, era arcebispo, o que constituía uma situação especial. Mas não trouxe problemas de maior, sempre nos demos bem e eu procurei fazer o que sou capaz de fazer, não consigo tudo. Tenho preocupações, olho para a diocese e vejo que o clero vai envelhecendo e a própria população também envelhece e vai diminuindo. As congregações religiosas não têm novas vocações e algumas comunidades vão fechando e tudo isso são preocupações de carácter pastoral. Mas, por outro lado, tivemos também algumas iniciativas, algumas prendas que Deus nos concedeu nestes oito anos.

Por exemplo?

Olhe, o seminário Redemptoris Mater, apoiado e fundado pelo caminho Neocatecumenal, e duas novas congregações, uma delas contemplativa, um grupo de candidatos ao diaconado, que completou já o segundo ano e que devem ser ordenados no próximo ano, tendo em conta que o número de sacerdotes vai escasseando. Se perseverarem até ao fim, se Deus quiser, teremos 18 diáconos lá para o ano que vem.

São 50 anos de vida sacerdotal. Teve momentos muito bons, mas outros difíceis. O que é mais difícil para um pastor?

O mais difícil, sem dúvida, é confiar mais em si do que em Deus, porque, quando se confia em Deus, as dificuldades que nos batem à porta não deixam de ser dificuldades, mas, pelo menos, ficam suavizadas pela serenidade, pela lucidez, pela paz que Deus nos concede para as enfrentar. Não tenho tido graves problemas na diocese, tenho tido problemas, claro, mas nenhum deles me tirou o sono porque Deus me concedeu esse dom e ajuda-me a encontrar solução para eles.

Olhando além-fronteiras, o Santo Padre veio como que “desinstalar” a Igreja semeando algumas inquietações que no fundo já deviam ser prática de um cristão. Tem sido difícil seguir o ritmo deste Papa?

Aquilo que o Papa Francisco nos anuncia é o Evangelho. Não é nada de novo. Nós é que devemos ter esquecido ou deturpado as palavras que estão no Evangelho e que Jesus Cristo pronunciou. Aquela ideia que o Papa transmite diariamente, de que é preciso desinstalar-se, sair para ir ao encontro das pessoas, isso é mesmo o fundamento dos fundamentos do Evangelho, porque foi o que Jesus disse aos discípulos antes de subir ao Céu: “Ide por todo o mundo e ensinai a cumprir tudo o que vos mandei." Nós é que nos fomos instalando e, nessa medida, vamos acomodando a mensagem ao nosso jeito e é preciso desinstalarmo-nos. É preciso meditar, de novo, sobre a pureza da mensagem para procurarmos responder-lhe integralmente.

A Igreja cumpre a sua missão junto das pessoas e a área social é um bom exemplo, como é reconhecido até por instituições fora da Igreja. Mas essa proximidade não acontece na mesma proporção na afluência aos templos. Porque estão as igrejas mais vazias? O que é preciso mudar?

Mais importante que os templos estarem cheios de pessoas é que o coração das pessoas esteja pleno e repleto de Deus. Essa é, a meu ver, a grande questão. Lá se os templos estão cheios ou se estão só meios, ou até vazios, não quer dizer que não tenha importância nenhuma, mas não é o fundamental. O fundamental é que Deus toque os corações das pessoas e, naturalmente, que se as pessoas não vão aos templos é porque não sentem que Deus lhes toca o coração. Porque se Deus lhes tocar no coração vão perceber que participando nos sacramentos, na Igreja, na Eucaristia, particularmente, aí a presença de Deus é mais forte, mais procurada e mais apreciada.

Já disse publicamente que apresentou renúncia ao Santo Padre, ao ter atingido os 75 anos de idade, e que vive o momento presente com serenidade. Já está a preparar o próximo Ano Pastoral na arquidiocese de Évora?

Estou, sim. Ainda recentemente houve uma reunião do Conselho Presbiteral e, nessa reunião, estivemos a conversar sobre o próximo plano pastoral. Porque é que eu não haveria de preparar? Enquanto estiver à frente da diocese assumirei todas as minhas responsabilidades sem qualquer reserva e com a mesma serenidade e tranquilidade. No dia em que o novo arcebispo vier, nesse mesmo dia, entrego-lhe tudo para que ele possa continuar e dispor, segundo aquilo que lhe parecer melhor. É este o meu ponto de vista. E enquanto eu for arcebispo, consagro as forças da minha vida ao serviço da diocese até ao momento em que se faça a transmissão.

Que mensagem gostaria de deixar aos diocesanos neste que é um momento festivo?

Apenas quero dizer da minha alegria e que me senti feliz ao longo da minha vida apesar das minhas limitações, falhas e pecados. Tudo foi suplantado pela graça de Deus e sinto-me feliz na hora de completar os 50 anos de sacerdócio. A mensagem que quero que esteja sempre presente nos diocesanos é que o único que promete e não falha é Jesus cristo. Só Ele vale a pena servir, só Ele é plenitude e graça, felicidade e paz, e nada nos deve afastar desta fonte maravilhosa que é Jesus Cristo.

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