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​“A Lista do Padre Carreira”. A história de um português que salvou dezenas dos nazis

04 jun, 2016 - 11:56 • Ângela Roque

Novo livro de António Marujo revela a “história desconhecida” do sacerdote português que escondeu e salvou vários refugiados durante a ocupação nazi de Roma. O jornalista descobriu um segundo sobrevivente que confirma ter sido salvo pelo padre Carreira, e tem provas de que ele também ajudou a esconder várias mulheres e crianças fora do Pontifício Colégio Português.

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Foi a curiosidade de jornalista que conduziu António Marujo nesta investigação que começou há 10 anos e que o levou a descobrir quem foi e o que fez o padre Joaquim Carreira.

Quando em 2006, num congresso, uma freira italiana, historiadora, revelou que durante a II Guerra Mundial pelo menos 4.300 judeus foram acolhidos em 133 casas religiosas femininas, Marujo pensou: “Será que no Colégio Pontifício Português de Roma também foram acolhidos refugiados?”. Os passos que deu para encontrar a resposta são contados no capítulo “Chegar à lista procurando uma pista”, com que abre o livro que agora publica.

“O primeiro documento que me vem parar às mãos é um relatório do ano escolar de 43/44, que nunca ninguém tinha reparado nele”, conta António Marujo, em entrevista à Renascença. Nesse ano lectivo, que coincide no tempo com o período da ocupação nazi de Roma, o padre Carreira acolheu no colégio meia centena de refugiados. “O relatório faz referência ao número e aos nomes, e eu fiz questão de traduzir todo o texto do relatório, porque é um documento importante e que dá origem a esta história”, sublinha.

A história só foi publicada pela primeira vez pelo jornal “Público” há três anos, depois de António Marujo ter conseguido falar com um dos refugiados ainda vivo. Foi, aliás, com base nesse testemunho que o ano passado o padre Joaquim Carreira foi considerado “Justo entre as Nações”, um título atribuído a quem salvou judeus durante o Holocausto.

Mas, havia ainda mais para investigar. “Houve um pormenor que me ficou atravessado, e eu quis voltar a ele”, conta o jornalista. “É que um dos nomes da lista, um tal Luigi Priolo, era identificado como estudante, e na documentação do Colégio havia cartas do seu pai, que era um destacado dirigente do partido socialista italiano, foi presidente da câmara de Reggio Calabria, no sul de Itália, depois da libertação pelos Aliados, e chegou a fazer parte de alguns governos. E portanto, eu achei sempre que seria relativamente fácil descobrir o paradeiro de um filho de um destacado dirigente político”.

No ano passado, quando a medalha de “Justo entre as Nações” foi entregue à família do padre Carreira, na Sinagoga de Lisboa, António Marujo resolveu retomar a investigação, e através de um sacerdote da diocese de Reggio Calabbria soube que “Luigi Priolo está vivo, vive em Roma, e o telefone é este”.

“Em Outubro tive ocasião de o entrevistar, estive uma tarde inteira com ele e com a esposa”, conta, garantindo que se lembrava bem do que aconteceu em 43/44: “Uma das coisas que me disse foi: ‘Eu devo a minha vida ao padre Carreira, fui salvo por ele’, e estava contentíssimo por eu ter descoberto a pista dele. De tal maneira que já foi duas vezes ao Colégio Português contar a história aos alunos, uma delas há poucos dias”.

Com esta entrevista, que considera “o pormenor importante que faltava”, pensa em editar o livro. E consegue outro testemunho importante, o de Maria da Conceição Primitivo, que vive entre Leiria e Fátima, e que nos últimos meses de vida do padre Carreira se correspondeu com ele: “Ela escrevia no jornal da diocese, o padre Carreira recebia o jornal em Roma e um dia escreveu-lhe a dizer que gostava muito dos artigos dela. Numa das conversas conta-lhe que, além dos refugiados do Colégio, tinha também ajudado a esconder um grupo de mulheres e crianças em número superior aos do colégio. Portanto, fazendo as contas por baixo, ele terá salvo perto de 200 pessoas”, conclui.

António Marujo diz que, em relação à história que publicou há três anos, estas são as grandes novidades do livro que agora publica: “Haver um segundo refugiado que está vivo e que testemunha o que viveu, e o facto do padre Carreira ter salvo não só 40 e tal, 50 homens no Colégio Português, mas ter também ajudado a esconder cento e tal mulheres e crianças em três casas religiosas”.

“A Lista do Padre Carreira” foi o título que escolheu para este livro por, de facto, haver uma lista: “Ele faz o relatório no final de Julho de 1944, já os aliados tinham libertado Roma dos nazis, por isso é que escreve os nomes das pessoas que se lembrava. Se fosse antes não podia fazê-lo. Cita 39 nomes. Por isso achei que este era o título óbvio”, afirma.

Fazendo o paralelo com “A lista de Schindler”, não daria a história deste português um bom filme? António Marujo não duvida que sim, até porque descobriu “pormenores engraçadíssimos na sua vida. Ele foi o primeiro padre português a tirar a licença de piloto aviador. Há um artigo do ‘Século Ilustrado’ em que a repórter, que era uma senhora - provavelmente uma das primeiras mulheres portuguesas jornalistas - intitula o artigo ‘O padre aviador’. De tal maneira que o aeroclube de Leiria faz questão de ter hoje no site o nome dele como tendo integrado o primeiro curso de pilotagem do aeroclube”.

O livro, publicado pela Editora Vogais, tem cinco partes. As três primeiras contam a história do que se passou, mas António Marujo quis também “contextualizar a história com um capítulo sobre a acção do Papa Pio XII e da Igreja Católica durante a II Guerra Mundial, e outro dedicado à evolução das relações entre cristãos e judeus”. O lançamento está marcado para sábado, 4 de Junho, às 18 horas, no Auditório da Feira do Livro de Lisboa.

A entrevista ao jornalista António Marujo será o destaque do programa “Princípio e Fim” do próximo domingo, 5 de Junho, a partir das 23h30 na Renascença.

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  • Madalena Dos Santos
    05 jun, 2016 Luxembourg 11:37
    Mais um heroi Portugues à salvar pessoas das garras dos nazis, o padre Joaquim Carreira. Um grande bravo a este padre corajoso por ter salvo a vida a todas est as pessoas. Tivemos muitos herois que salvar a vida de muita gente. Estou muito orgulhosa termos gente tao corajosa messe tempo, hoje nao existe gente dessa.
  • Lolita
    04 jun, 2016 Tavira 16:02
    E quando poderemos falar dos nazis e suas famílias que o Vaticano protegeu e encaminhou para porto seguro, poupando-os aos incómodos da justiça do final da guerra?!...

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