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Escutar a Cidade: o que crentes e não crentes esperam da Igreja de Lisboa

14 abr, 2016 - 12:49 • Ângela Roque

Ao fim de seis meses de conferências e debates, os organizadores do “Escutar a Cidade” entregaram ao Patriarca de Lisboa um documento com sugestões e opiniões para ajudar a Igreja a chegar a todos.

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O documento com as conclusões da iniciativa “Escutar a Cidade” já foi entregue ao cardeal patriarca de Lisboa e, no sábado, vai ser apresentado na Igreja de São Maximiliano Kolbe, em Chelas. Três convidados, católicos, vão comentar o documento e dizer o que esperam venha a ser a igreja diocesana do pós-sínodo: o padre Francisco Adão, pároco de Loures; Rita Valadas, directora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e Cátia Sofia Tuna, ligada ao Movimento do Apostolado das Crianças.

Entre Janeiro e Junho de 2015 dezenas de movimentos, grupos e comunidades da diocese de Lisboa quiseram “Escutar a Cidade” - ouvir o que tinham a dizer os não crentes, e gente fora da Igreja, como contributo para o Sínodo Diocesano que terá lugar em Novembro. Nas várias sessões realizadas, sobre variados temas, participaram 24 convidados que deixaram preocupações e desafios.

Maria da Conceição Moita, do movimento Metanóia, foi uma das promotoras do “Escutar a Cidade”. Em entrevista à Renascença, faz um balanço da iniciativa, que considera ter superado as expectativas, tanto na participação das pessoas como no conjunto de sugestões recolhidas.


Que balanço faz do “Escutar a Cidade”?

Acho que se pode dizer que a iniciativa superou as nossas expectativas. De facto, um pequeno grupo começou a pensar em dar um contributo para o sínodo, desta maneira, ouvindo não crentes e pessoas que não estão integradas na comunidade eclesial e que podiam responder a estas duas questões: Por um lado, o que é que os preocupa e, por outro lado, que expectativas têm em relação à Igreja.

Todas as pessoas que foram convidadas responderam imediatamente, o que foi também uma grande surpresa, não houve ninguém que se tivesse recusado. E foi muito interessante ver o modo como olham com muitíssimo respeito a Igreja. Foi uma coisa que nos surpreendeu, de algum modo, porque não esperávamos tanto.

A participação das pessoas também correspondeu às expectativas?

Foi muito significativa e acho, até, que superou as expectativas. As sessões do “Escutar a Cidade” realizaram-se no Fórum Lisboa, que é uma sala muito grande, e tivemos sempre presentes entre 250 e 300 pessoas.

Isso também mostra que há alguma sede de reflexão e debate…

Exactamente. Sendo que os que iam sabiam que não iam ter parte activa, digamos... Durante seis meses, tivemos, uma vez por mês, pessoas a falar, e a única coisa que fizemos foi escutar atentamente.

Da leitura deste documento/resumo desses encontros podemos concluir, genericamente, que quem participou no “Escutar a Cidade” apelou a uma Igreja mais atenta e mais próxima da realidade das pessoas, mais interventiva?

Sem dúvida nenhuma. Sobretudo, mais próxima da realidade das pessoas. Tem que se pensar muito o que é que significa o “mais interventiva”. As pessoas acharam, por exemplo, que a Igreja devia estar mais atenta às grandes problemáticas do mundo, e de Portugal, e que deveria ter uma palavra clara de denúncia, ou de aplauso, em relação às coisas que acontecem. No fundo, é copiar um bocadinho aquilo que o nosso Papa Francisco faz: tem palavras de apoio e de proximidade com as pessoas que estão em situações de grande sofrimento.

A Igreja tem denunciado, por exemplo, as situações de pobreza, que se tornou um problema muito grande no nosso país, mas a própria intervenção da Igreja - e as pessoas apontaram muito aí - tem que ter algumas alterações. Dizem que ainda é muito assistencialista e paternalista. A pobreza não é uma inevitabilidade e é exigida à Igreja uma atitude e práticas de solidariedade muito respeitadoras e novas, que correspondam, de facto, às necessidades. Cada instituição de solidariedade social, cada comunidade que exerce a acção socio-caritativa é obrigada a pensar no “como faz” e “para que faz”. É para prolongar esta situação de dependência? Não pode ser.

A erradicação da pobreza é uma das prioridades de reflexão e acção, apontadas neste documento, que sublinha várias outras questões, como a justiça e a participação dos cristãos na vida pública.

Isso é muitíssimo importante, porque a participação e a justiça, como nós dizemos, são os novos modos de democracia. A democracia exige a participação de todos e dos cristãos, nomeadamente. Temos que ousar sair das nossas comunidades e do conforto das nossas paróquias para estarmos presentes na vida pública, na vida política, na vida associativa, na vida onde se muda a vida, e pensar como isso é importante.

A nossa participação e presença onde é preciso mudar os mecanismos da injustiça, do empobrecimento, de todo o que faz uma sociedade injusta. Da corrupção, que agora está aí na ordem do dia. Por isso os cristãos são chamados a dizer “sim, quero com os outros homens mudar o mundo”.

Estamos em Abril e vamos, daqui a uns dias, relembrar os 42 anos da revolução de 74. Acha que, passados estes anos, os cristãos continuam envergonhados nesta matéria?

De algum modo, sim. Há cristãos filiados em partidos e outros que fazem acção política fora dos partidos, como cidadãos, em associações. Mas acho que ainda falta um grande empenhamento dos cristãos. E é importante perceber que nós, na comunidade cristã, somos muito diversos. Para simplificar o vocabulário, uns são mais à direita, outros mais à esquerda. Penso que a Igreja assumir isto é uma coisa bonita. Há pluralidade na sociedade civil e no interior da Igreja.

Mas há algum pudor, até da parte de alguns políticos, em assumir que são católicos, que são cristãos?

Então não há? E os católicos têm de ser muito consequentes e coerentes na participação. É uma grande exigência e uma grande responsabilidade que tem de ser assumida, porque ou assumimos a situação do mundo e do nosso país, e queremos intervir para a mudança, ou, então, as pessoas não percebem bem qual é o nosso papel no mundo.

Há uma parte do documento a que damos também muita importância que é tentar “dar uma nova face à Igreja”, uma nova maneira de estar.

Isso implica a questão da linguagem, da imagem…

A questão da presença e da participação. Do envolvimento dos cristãos na vida pública. Da assunção da diversidade mesmo no interior da própria Igreja. E outra também é o pedir perdão. A Igreja tem sido muito excludente, há muita gente que sai da Igreja, muito magoada, e nós temos tido pouca atenção a isso.

Estamos no Ano da Misericórdia. É um tema importante para reflectir?

Muito importante. Também meditámos muito na questão da Igreja acolher quem vier bater à porta, mas também a importância de sermos acolhidos por aí, pelas pessoas, onde as pessoas estão. Por isso temos de sair das sacristias, dos nossos meios habituais, e ter a ousadia de ir onde estão as pessoas, onde palpita a vida, onde estão os problemas profundos, temos que aparecer por lá.

Este documento já foi apresentado ao cardeal patriarca. Tiveram alguma reacção?

Entregámos em mãos, numa conversa muito breve, porque o senhor patriarca tinha uma reunião a seguir. Mas quisemos fazê-lo sem ser numa reunião muito formal. De resto, D. Manuel Clemente esteve persente em várias sessões do “Escutar a Cidade”. Da primeira vez que foi, ainda conseguimos levá-lo para a primeira fila, mas, das outras vezes, conseguiu chegar ligeiramente atrasado e pôr-se na sala, lá no fundo, como um escutante qualquer.

Entregámos-lhe o documento, que não é um relatório nem uma síntese do que aconteceu nestes meses em que escutámos aquelas pessoas. É um documento em que cruzamos o que ouvimos com a nossa própria reflexão, de cristãos e gente inserida na Igreja, que quer que o sínodo seja um momento importante de renovação da vida da Igreja. E gostaríamos muito que o sínodo reflectisse sobre, senão todos os pontos, pelo menos alguns.

“O sonho missionário de chegar a todos” é o tema do sínodo que vai decorrer em Novembro. Sentiram que entre os cristãos há uma grande expectativa em relação ao que que o sínodo pode implicar em termos de mudança para a Igreja de Lisboa?

Pelo menos preocupação, uma grande preocupação de que o Sínodo seja um momento especial, um momento forte de aprofundar as convicções, de rever a vida, de mudar o modo de estar e de ser da Igreja.

Esta entrevista a Conceição Moita foi transmitida no programa “Princípio e Fim” de 10 de Abril.

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