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Refugiados em Portugal. Quando o teatro se torna um abrigo

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Refugiados em Portugal. Quando o teatro se torna um abrigo

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15 jan, 2016 - 07:00 • Inês Rocha

Forçados a sair do seu país, encontraram em Portugal um "abrigo", uma "família", um caminho para a integração. Em cima do palco. Conheça o grupo de teatro "Refugiacto".

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Quando o teatro se torna um abrigo

Faltam poucos minutos para as 20h30, hora marcada para o espectáculo começar. O grupo reúne numa sala do Centro de Acolhimento a Refugiados (CAR), na Bobadela, Sacavém. Como é dia de trabalho, há quem chegue quando já são horas de estar em palco. Há uma correria de quem quer cumprir horas, mas está a jogar em casa.

Reúnem-se para "dar uma passagem" ao texto em modo acelerado. À medida que avançam no guião, a confiança cresce. À volta da mesa, há um pequeno mundo, com gente vinda da Bielorrússia, Colômbia, Costa do Marfim, Etiópia, Irão, Kosovo, Palestina, Rússia, Portugal. Todos falam português entre si, ainda que essa não seja a língua materna de quase nenhum deles.

Os membros do Refugiacto são já autênticas estrelas no Centro de Acolhimento da Bobadela. O grupo de teatro nasceu há 11 anos, nas aulas de português que todos frequentam quando chegam a Portugal. Começou por ser uma brincadeira para apresentar numa festa de Natal, mas o sucesso foi tão grande que nunca ninguém quis que acabasse.

Já testaram e comprovaram: o teatro é mesmo uma ajuda enorme à integração. Um autêntico "abrigo" para quem perdeu tudo e tem que recomeçar uma vida.

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Refugiacto. A arte de recomeçar em cima do palco

Desde Janeiro de 2014, o grupo é apoiado pelo PARTIS, um programa da Fundação Calouste Gulbenkian que olha para a arte como motor de inclusão e mudança social.

Com o projecto “Refúgio e Teatro: dormem mil gestos nos meus dedos”, o CPR passou a conseguir promover também sessões de expressão dramática para os recém-chegados.

"Sem o grupo de teatro eu não conseguia"

Se é verdade que o teatro ajuda à aprendizagem da língua, nos primeiros tempos o esforço tem que ser redobrado. Marthe, costa-marfinense, está em Portugal há menos de dois anos e as palavras nem sempre chegam para contar a sua história. Na realidade, não há língua nenhuma com palavras suficientes.

Foi da Costa do Marfim para o vizinho Gana, em 2011, com a família, para fugir à guerra civil. Lá, teve "problemas com rebeldes" e teve que voltar a fugir, desta vez para Portugal. A família continua no Gana, à espera de uma oportunidade para vir também para o porto seguro que encontrou. No Centro de Acolhimento a Refugiados, Marthe encontrou um nova família: o Refugiacto.

Omir, iraniano, comprova-o: está em Portugal há quase nove anos e já não abdica dos encontros na Bobadela, ao domingo. É especialista em Medicina Tradicional Chinesa e garante que o teatro o ajudou muito na sua formação.

Prefere não recordar as razões da sua vinda para Portugal. Recorda apenas o dia em que chegou a um país cuja existência não conhecia. "Se encontrares o Porto no mapa, ganhas um jantar", disseram-lhe. Foi assim, meia hora antes de chegar, que descobriu onde ia passar os anos seguintes - talvez o resto da sua vida.

Depois de dois meses "fechado" num centro de acolhimento no Porto, foi para o CAR na Bobadela. Foi aí que conheceu o Refugiacto. Omir recorda que, nos primeiros tempos, fez um amigo afegão, que estava no grupo, e notava que a evolução dele na aprendizagem da língua era muito maior. Por isso, decidiu pedir para entrar. "Quem chega aqui não tem ninguém e precisa de alguém para falar, nem que seja para praticar a língua, para brincar ou conviver", diz.

Também a jovem Lara, russa com raízes arménias, prefere não falar da sua vida antes de vir para Portugal. Adivinha-se uma história dolorosa, pelo que nos concentramos no lado bom: o teatro.

Recorda que, quando chegou, há oito anos, soube logo que queria fazer teatro. Não porque tivesse o sonho particular de ser actriz, mas porque o grupo transmitia aquilo que lhe faltava: um grupo de amigos.

"Eu vinha para as aulas de português e via os ensaios, as pessoas muito contentes", conta. Recorda que a timidez foi um entrave, mas fez um esforço por pedir para entrar no grupo. "Eu via as pessoas a rirem-se e sentia imensa falta disso, de amigos, de falar, de socializar. De me sentir importante".

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Os ensaios são autênticas "reuniões familiares"

O teatro antes do abrir da cortina

À terça-feira, no Centro de Acolhimento da Bobadela, é dia de sessão de expressão dramática. No auditório, juntam-se pouco mais de dez pessoas, em exercícios que englobam corpo e linguagem. À medida que os jogos avançam, vão-se juntando mais pessoas. Corrigem-se uns aos outros quando falta alguma palavra. Os gestos também ajudam.

O apoio do PARTIS permitiu ao CPR, há um ano e meio, abrir sessões regulares para os recém-chegados, coordenadas pela encenadora Sofia Cabrita. "As sessões de expressão dramática são uma porta aberta", conta. "Não há obrigatoriedade de voltar, mas todos voltam. Só não voltam se não puderem".

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Ensinar a comunicar é integrar

A urgência de responder às perguntas da sociedade

Segundo a Organização Mundial para as migrações, só em 2015 chegaram à Europa mais de um milhão de refugiados e migrantes - é o mais alto fluxo de migração desde a II Guerra Mundial. No âmbito da Agenda Europeia para a Migração, Portugal assumiu a responsabilidade de acolher 4.574 pessoas ao longo de 2 anos.

O primeiro contingente de 24 pessoas chegou a Portugal em Dezembro, mas já antes o Centro de Acolhimento a Refugiados tinha registado um aumento do número de chegadas. Segundo a Renascença apurou junto do CPR, em 2015 pediram protecção a Portugal cerca de 850 pessoas de 45 nacionalidades diferentes, sendo os países de origem mais relevantes a Ucrânia, a China, o Mali e o Paquistão. O número duplicou em relação a 2014.

Para 2016, os desafios são muitos, e não passam só pela logística do acolhimento. Num momento em que as posições se radicalizam, com a questão dos refugiados a ser muitas vezes ligada ao aumento do terrorismo, é necessário dar resposta também às questões da sociedade civil.

Sofia Cabrita e Isabel Galvão não têm dúvidas: o teatro também pode dar essas respostas.

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A urgência de responder às perguntas da sociedade
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  • Joca
    11 fev, 2016 Terra 11:51
    Nem "migrantes", nem "refugiados", mas, na maioria dos casos, "imigrantes" ou até mesmo "invasores".
  • Kaganiço
    18 jan, 2016 montreal.canada 03:57
    Esperem pelo primeiro atentado e depois logo falamos.

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