A+ / A-

Ricardo Salgado foi sempre “o CEO-sombra da PT"

21 out, 2015 - 10:56 • João Carlos Malta

Em 215 páginas, as jornalistas Alexandra Machado e Alda Martins resumem 20 anos da história da Portugal Telecom. Um enredo que mistura política, futebol, negócios e comunicação social. “A Implosão da PT” é um manual para compreender a história recente do capitalismo português.
A+ / A-

Veja também:


A PT foi uma empresa portuguesa que nasceu com a ambição de ser grande. Quis crescer com tronco e membros na lusofonia. Foi cotada em bolsa a 13,9 euros cada acção. Foi a empresa que distribuiu 11,7 mil milhões de euros em dividendos (valor que dava para construir 70 estádios da Luz). Foi um grupo que empregou 23 mil trabalhadores.

A PT foi. Já não é.

Agora, é PT Portugal e Pharol. Uma é detentora da Meo e foi comprada pelos franceses da Altice. A Pharol é um “zombie” no PSI-20. As acções rodam os 50 cêntimos. O número de trabalhadores é 10 mil.

As jornalistas Alexandra Machado ("Jornal de Negócios") e Alda Martins ("Diário Económico") guiam-nos nesta história entre o passado glorioso e um presente mirrado.

Em resumo, a contracapa do livro “A implosão da PT”, que é lançado esta quarta-feira em Lisboa, declara: “Para os governantes a PT era sinónimo de poder. Para os accionistas uma fonte de dividendos. Todos ali foram beber, durante 20 anos, até à última gota”.


Após ler “A implosão da PT”, parece ser difícil encontrar outra empresa no Portugal pós-revolução que represente de forma tão completa a porta-giratória de interesses no país. Uma mistura de política, de futebol, de negócios e de comunicação social. Isso foi uma força ou uma fraqueza?

Alexandra Machado – Foi uma força que depois se tornou numa fraqueza. Foram essas forças que permitiram à PT crescer muito e que, depois, a fizeram implodir. A PT começou como uma empresa pública, nessa altura o Estado tinha força, mandava na empresa. Esse poder manteve-se mesmo depois da privatização.

Para determinados negócios lá fora, essa presença foi uma força. É diferente ir à procura de um mercado sozinho ou os políticos levarem atrás um nome como a Portugal Telecom.

Da mesma forma, o maior accionista privado, o BES, também foi uma força da PT. Ter um banco por trás é bom para qualquer empresa, ainda mais um banco com o poder que o BES tinha em Portugal e que conjugava os poderes que a PT sempre teve: o político, o futebol. Todos esses interesses que estiveram à volta da PT também estiveram no BES. Eram uma extensão do mesmo corpo.

Em resumo, foi uma força que se tornou uma fraqueza com a queda do BES e com saída do Estado do capital.

Alda Martins – O objectivo da privatização e a forma como se agregam todas aquelas empresas é nobre, e foi bem conseguido na fase inicial. Depois, tornou-se numa fraqueza. Mas, ao princípio, queria-se levar a empresa para fora de Portugal e torná-la maior, mesmo com o Estado lá dentro.

Fica também a ideia de que a PT esteve sempre aberta - ou encurralada, conforme a perspectiva -, no meio a todas as tácticas políticas, bancárias e dos negócios que a envolviam. É possível dizer que teve alguma vez estratégia própria?

Alda Martins – Acho que a empresa sempre teve uma estratégia própria, que não pode ser dissociada dos interesses, porque quem monta a estratégia é uma equipa de gestão que, depois, tem a conivência do Conselho de Administração, onde estiveram sempre os representantes do Estado e o grande peso-pesado que é o accionista BES.

O livro relata alguns episódios que revelam que a visão de alguns accionistas esteve virada estritamente para a recolha de dividendos, vindo o desenvolvimento da empresa em segundo lugar….

Alexandra Machado – Acho que, até determinada altura, não foi assim. A entrada da PT no Brasil resulta da estratégia própria da empresa, com a escolha da Telesp. Apesar de ser verdade que foi enquadrado na visão do governo de Guterres, que achava que o Brasil devia ser um mercado que as empresas portuguesas deviam ambicionar.

Alda Martins – A política de distribuir dividendos é uma política como outra qualquer. Não estará errada. A partir de determinado momento fica evidente que foi o preço pago na OPA para conseguir que os accionistas não vendessem à Sonae através do pagamento de dividendos. Começa aí uma fase completamente diferente da história da empresa.

pessoalmente.

As duas acompanham “telecoms” há muitos anos. Fizeram mais de 50 entrevistas para escrever este livro. Foram surpreendidas por algum facto?

Alexandra Machado – Muita coisa, pormenores, sobretudo. Alguns jogos de bastidores, como encontros secretos em Marraquexe, durante a venda da Vivo. Um encontro entre a PT e a Telefónica. Porquê Marraquexe? Porque não se queria que se soubesse. Queriam que fosse em terreno neutro.

Alda Martins – Na altura em que a PT entra no Brasil, no leilão de compra da Vivo há um detalhe. Naquele momento, foi um investimento muito grande - 3,5 mil milhões de reais (800 milhões de euros ao câmbio actual). Havia euforia no seio da equipa de gestão liderada por Murteira Nabo. Ele dirige-se efusivamente a um fundo internacional que tinha acções na empresa para lhe dar os parabéns. O representante do fundo responde-lhe: "Só se for para si, que eu vendi as minhas acções ontem". Era sinal de um mercado assustado com a decisão de pagar tanto por uma empresa no Brasil.

Alexandra Machado – Posso referir mais um, que podia ter marcado alguma diferença no futuro da PT: a tentativa que houve de fazer uma megafusão com um operador asiático. Eu e a Alda, que acompanhamos a PT desde o início, nunca tínhamos ouvido falar disso.

Isso poderia ter levado o futuro da PT para caminhos diferentes por dois motivos: os interesses instalados iam mudar um bocadinho; isso significa que a Telefónica teria outro peso, o BES também. Algo que teria mudado na PT. Foi um pormenor que nos caiu no colo.

Qual o estado de espírito e reacções das pessoas quando falavam do passado da empresa e do actual estado?

Alda Martins – "Mixed feelings”. Existe algum descrédito por parte das pessoas em relação à forma como o processo acabou por se revelar.

Alexandra Machado – Houve saudosismo motivado pelo que a PT foi e alguma tristeza de como tudo acabou.

Muitas vezes, diz-se que Portugal é um país de capitalistas sem capital. O sucesso da PT fez com que libertasse muito capital. É justo dizer que foi o banco privilegiado de alguns dos mais proeminentes dos nossos homens de negócios?

Alexandra Machado – Foi-o para o BES.

Só para o BES ou para outros empresários?

Alexandra Machado – Vamos chamar as coisas pelos nomes. Para a Ongoing, também. Sim, ajudou-a a financiar-se. Também ajudou com negócios a Visabeira, que foi um dos principais fornecedores da PT. E a Controlinveste, por causa do futebol. Mas isso decorre do que essas empresas fazem. A PT como maior operadora teria de os comprar. Ou pelo menos comprava-os.

Alda Martins – Mas é excessivo dizer que era um banco…

Alexandra Machado – Embora em muitas ocasiões a PT se comportasse como um banco para os accionistas. Não só no GES em que isso foi patente....

Alda Martins – [Ao longo de 20 anos] Entregou mais de 11,7 mil milhões em dividendos [dava para construir 70 estádios da Luz]. Fê-lo mais a uns do que outros. Talvez banco seja excessivo, mas houve muito dinheiro que foi parar à mão de determinados accionistas da empresa.

Vinte anos de história são muito tempo e envolve muitas pessoas. Mas pode-se dizer que a “débacle” da PT é motivada por quatro pessoas: Sócrates, Salgado, Bava e Granadeiro?


Alexandra Machado – Nós não julgamos ninguém. Isso cabe aos tribunais, dizer quem fez o quê.

Alda Martins – Essa não é a nossa função. Mas há algumas decisões que não foram as melhores....

Alexandra Machado – Mas o Ricardo Salgado tem de ser um deles. Se a PT empresta quase 900 milhões e não é pago, enfim... Esse facto, pelo menos, fala por si...

Um pouco mais à frente, o processo de fusão da Oi dá-se em resultado de uma mistura de interesses políticos da dupla Sócrates/Lula e da vontade do BES em continuar a receber dividendos. Mas há um pormenor que impressiona: como é que uma empresa parte para um passo tão decisivo sem uma auditoria séria e rigorosa? Torna-se difícil de acreditar em desleixo….

Alexandra Machado – Não foi na fusão. Foi na aliança industrial. Também nos surpreendeu esse facto. Há dois momentos na história com a Oi. Em 2010, com a venda da participação na Vivo, a PT faz uma aliança estratégica com a Oi. Aí, compromete-se a comprar uma percentagem de capital e a Oi entraria no capital da PT, seria uma aliança estratégica industrial.

Em 2013, anuncia-se o acordo da fusão. Aí, passaria a ser só uma empresa, a CorpCo, com os activos da Oi e da PT.

Nessa altura, a urgência de se chegar a um acordo para a PT conseguir vender a Vivo era enorme. Essa foi uma condição imposta pelo primeiro-ministro José Sócrates para aceitar a venda da Vivo. A PT tinha de se manter no Brasil. A urgência fez com que o acordo se tivesse feito sem nenhuma “due diligence” [auditoria].

Alda Martins – A Telefónica estava a pressionar imenso.

Alexandra Machado – Eles queriam vender...

Alda Martins – Não houve ninguém a refrear a pressão.

Alexandra Machado – Mas é verdade que não é normal. Nestas coisas, há sempre auditorias. Esta foi feita 'a posteriori', já com um pré-acordo feito. Por isso, o acordo final foi feito quase passado um ano, na altura da fusão. Há a história da Morgan Stanley: a PT tinha assessores financeiros, mas Henrique Granadeiro (CEO à época) e Luís Pacheco Melo (administrador-financeiro) consideravam que os bancos de investimento estavam muito alinhados com Zeinal Bava, que na altura já presidia à Oi. Fazem-no à revelia de Zeinal. A Morgan Stanley não se pronuncia contra a fusão, eles recebem pelos negócios feitos, mas disse que aquela não era a melhor altura. A Oi estava a perder valor.

A PT Portugal é hoje da Altice e a SGPS uma "zombie" na bolsa com o nome de Pharol. O que vai ser que vai ser a PT nas mãos da Altice?

Alda Martins – Ainda está tudo em aberto, admito que o negócio da PT Portugal que é o Meo, eventualmente, continuará o seu percurso. A Pharol que está cotada em bolsa, não tem expressão nenhuma face ao que já foram as acções da PT. Não se percebe muito que é a Pharol. Mas o negócio da PT continuará, se os concorrentes lhe vão fazer uma concorrência tal que o negócio será mais curto, não sei. Ainda é prematuro.

Nunca mais será a PT do passado?

Alda Martins – Isso não. Isso é claro. O grupo PT não existe. Já não existe de todo.

Alexandra Machado – Exactamente. Precisamente o que ela vai ser, não sei, mas o que ela é que já não é nada do que foi.

Zeinal Bava é, talvez, a personificação da PT enquanto empresa: um gigante com pés de barro. Ele era mesmo tão bom como a imagem que nos foram construindo dele enquanto gestor ou é tão mau como agora o pintam depois do desmoronar da empresa?

Alda Martins – Nem uma, nem outra. A opção que tomamos de dar mais expressão a Zeinal deve-se a ele estar em todos os momentos da empresa. Aparece no início da privatização associado a uma consultora financeira [era director-executivo de Relações para Portugal do Merrill Lynch International] e esteve até ao final, com a saída do Brasil. Não pretendemos destruir o percurso de gestão dele, nem o tornar glorioso. Mas é a figura que acompanha os 20 anos da empresa.

Mas aquele foi considerado o "Messi das telecomunicações" está acabado ou ainda vamos ouvir falar muito dele?

Alexandra Machado – Vamos ouvir falar dele, se calhar, não em Portugal. Nos mercados internacionais, penso que ainda lhe reconhecem capacidade de gestão. Imaginaria Zeinal Bava numa empresa internacional. Se calhar, em Portugal está um pouco queimado, porque se endeusa uma pessoa e, quando ela cai, cai com estrondo. Acho que ele não gosta da forma como saiu.

Sente-se injustiçado?

Alexandra Machado – Se calhar. Não faço ideia.

Alda Martins – Para quem foi o "Messi das comunicações" sair como saiu…. Apesar da indemnização [5 milhões de euros]... Não foi para outra empresa nem acabou a carreira. Saiu pelas condicionantes que nós sabemos. Admito que não esteja satisfeito.

Ricardo Salgado sempre foi o CEO-sombra da PT?

Alda Martins – Foi.

Alexandra Machado – Foi.

Alda Martins – Não era possível tomar grandes decisões passando por cima do principal accionista da empresa.

São as duas jornalistas de economia e pedia-vos um exercício de auto-avaliação, que se estenda a toda a comunicação social. Há críticas sobre a forma como figuras como Granadeiro, Salgado e Zeinal foram endeusados na imprensa para terminarem como terminaram. Acham que foram tratados com complacência? Isto diz alguma coisa sobre o jornalismo em Portugal?

Alexandra Machado – Se respondesse a isso, estava a falar mal do meu trabalho ao longo de 20 anos. Não me revejo nessa complacência de que se fala. Talvez ela exista mais ao nível da opinião do que do jornalismo. São duas coisas diferentes e que as pessoas não distinguem. Os textos que escrevi não contribui para endeusar ninguém....

Mas abrindo essa análise aos média em geral?

Alda Martins – Faço minhas as palavras da Alexandra. Em todo o lado há bons e maus profissionais. Nunca me senti manietada nem tolhida nas minhas decisões face a figuras proeminentes.

Sempre se pensou que a PT seria demasiado grande para cair?

Alda Martins – Acho que havia. (risos)

Alexandra Machado – Acho que não (risos).

Alda Martins – Se me dissessem, enquanto escrevia os meus textos, que a PT, um dia, não seria a PT, mas era Pharol e PT Portugal, eu rir-me-ia. Mas também não me passaria pela cabeça que o BES acabasse como acabou. Havia muitas empresas que se pensava serem “too big to fail”.

Alexandra Machado – Eu sempre achei que a PT teria um futuro ibérico e que, mais cedo ou mais tarde, seria comprada por uma Telefónica ou por uma Deutsche Telekom.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Jorge
    21 out, 2015 Lisboa 20:47
    A mim não me faz confusão nenhuma a riqueza do salgado ainda bem que ele pagou os 3 milhões porque o pais precisa da contribuição dos mais ricos e pode contribuir ainda muito mais...
  • Salgadeira
    21 out, 2015 Salgados 14:36
    Ele era isso tudo e muito mais, era sem dúvida um dos donos disto tudo (dos principais)!
  • Paulo
    21 out, 2015 vfxira 12:06
    AH!......se a justiça funcionasse .......
  • Ernesto
    21 out, 2015 Lisboa 11:58
    Depois de ler esta noticia acho que o Ricardo Salgado devia pedir ao Zeinal Bava os prémios e condecorações que recebeu pelo trabalho feito pelo Salgado que era o verdadeiro CEO da PTSGPS