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Papa no Congresso dos EUA. A favor dos migrantes, contra a pena de morte e a venda de armas

24 set, 2015 - 15:53 • Aura Miguel , nos EUA, e Filipe d’Avillez

Na primeira vez que um Papa discursa perante o Congresso em Washington, Francisco apresentou quatro americanos como modelos a seguir em busca da liberdade, da não-exclusão, da justiça social e do diálogo.

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O que disse o Papa ao Congresso dos Estados Unidos?
O que disse o Papa ao Congresso dos Estados Unidos?

O Papa Francisco discursou esta quinta-feira diante do Congresso, em Washington, e deixou alguns recados aos políticos lá reunidos, recordando-os dos pontos centrais da sua missão, nomeadamente a responsabilidade para com os pobres e desfavorecidos e não dos lóbis ou interesses económicos e financeiros.

“Vós sois o rosto deste povo, os seus representantes. Sois chamados a salvaguardar e garantir a dignidade dos vossos concidadãos na busca incansável e exigente do bem comum, que é o fim de toda a política”, disse Francisco.

Interessantemente, como modelo a seguir a este respeito, o Papa recorre à figura de Moisés, reconhecida e respeitada tanto por cristãos como por judeus e muçulmanos. “Moisés oferece-nos uma boa síntese do vosso trabalho: a vós, pede-se para proteger, com os instrumentos da lei, a imagem e semelhança moldadas por Deus em cada rosto humano.”

Quatro exemplos

Para melhor ilustrar as suas preocupações e o que considera serem as prioridades de acção do mundo político americano, Francisco recorreu a quatro figuras conhecidas da história americana, apenas dois dos quais eram católicas.

Em primeiro lugar, o Papa falou de Abraham Lincoln, ex-Presidente e figura de proa do movimento para acabar com a escravatura nos EUA, um movimento no qual contou com o apoio de muitos grupos religiosos. “É importante que hoje, como no passado, a voz da fé continue a ser ouvida”, disse Francisco.

“Esta cooperação é um poderoso recurso na luta por eliminar as novas formas globais de escravidão, nascidas de graves injustiças que só podem ser superadas com novas políticas e novas formas de consenso social.”

De seguida, para enfatizar a importância da não exclusão, Francisco utilizou a figura de Martin Luther King, fazendo a ligação ao problema moderno das migrações, tanto a onda de refugiados que assola a Europa como da imigração ilegal de pessoas da América Latina, que tem gerado controvérsia e aceso debate nos EUA.

Tal como tinha dito na quarta-feira, no seu discurso aos bispos, Francisco voltou a utilizar a sua própria história de filho de imigrantes, que contou na entrevista que deu à Renascença, para sublinhar a importância desta questão.

“Nos últimos séculos, milhões de pessoas chegaram a esta terra perseguindo o sonho de construírem um futuro em liberdade. Nós, pessoas deste continente, não temos medo dos estrangeiros, porque outrora muitos de nós éramos estrangeiros. Digo-vos isto como filho de imigrantes, sabendo que também muitos de vós sois descendentes de imigrantes.”

O Papa aproveitou esse tema para estender uma mão às comunidades indígenas, “que estavam aqui, muito antes de nós” mas “nem sempre foram respeitados. Por aqueles povos e as suas nações, desejo, a partir do coração da democracia americana, reafirmar a minha mais alta estima e consideração”.

Justiça social e diálogo

Em terceiro lugar, Francisco falou da beata Dorothy Day, uma activista pelos direitos dos trabalhadores que se converteu ao catolicismo e dedicou a sua vida à promoção da justiça social. Neste ponto, o Papa recuperou a importância do cuidado pelos pobres, sem deixar de elogiar o muito que se tem feito para combater a pobreza extrema nas últimas décadas, e associou-o também à preocupação ambiental, citando largos trechos da sua encíclica “Laudato Si”.

Curiosamente, mesmo antes de introduzir Dorothy Day no seu discurso, Francisco falou da importância de se “proteger e defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento”, falando explicitamente da pena de morte, mas também numa clara alusão ao tema do aborto, que divide muito a sociedade americana.

Dorothy Day fez um aborto, antes de se converter, e tendo em conta que Francisco anunciou que vai autorizar, durante o ano da misericórdia, os padres a perdoar o pecado do aborto, a beata poderá servir de modelo a todas as pessoas que já estiveram envolvidas nesta questão, mostrando-lhes que é sempre possível começar de novo.

Por fim, o Papa recorreu ao monge e místico Thomas Merton, que ajudou a relançar no mundo ocidental a antiga tradição da meditação cristã e se dedicou também ao diálogo inter-religioso, procurando colocar a religião ao serviço da paz.

Esta foi ocasião para recuperar a questão do recomeço das relações diplomáticas e comerciais entre os Estados Unidos e Cuba, como exemplo a seguir, mas também de criticar fortemente o comércio de armas, uma indústria de grande peso nos Estados Unidos. “Por que motivo se vendem armas letais àqueles que têm em mente infligir sofrimentos inexprimíveis a indivíduos e sociedade? Infelizmente a resposta, como todos sabemos, é apenas esta: por dinheiro; dinheiro que está impregnado de sangue, e muitas vezes sangue inocente. Perante este silêncio vergonhoso e culpável, é nosso dever enfrentar o problema e deter o comércio de armas.”

Terminando o seu discurso, Francisco voltou a apresentar estas quatro figuras como modelo para um país grande. “Uma nação pode ser considerada grande, quando defende a liberdade, como fez Lincoln; quando promove uma cultura que permita às pessoas ‘sonhar’ com plenos direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King; quando luta pela justiça e pela causa dos oprimidos, como fez Dorothy Day com o seu trabalho incansável, fruto duma fé que se torna diálogo e semeia paz no estilo contemplativo de Thomas Merton.”

Ameaças à família e polarização política

O discurso de Francisco terminou com um renovado apelo à protecção da família e do casamento, isto numa altura em que nos EUA se vivem grandes tensões devido à legalização em todo o país, por via judicial, do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O Papa recordou que esta é precisamente a sua razão de visitar a América nestes dias, pelo que tencionava voltar ao tema recorrentemente, e lamentou especificamente o facto de a cultura impelir os jovens a não formar uma família “porque lhes faltam possibilidades para o futuro. Mas esta mesma cultura apresenta a outros tantas opções que também eles são dissuadidos de formar uma família.”

Na casa-mãe de um sistema político dominado por apenas dois partidos, o Papa fez ainda um apelo ao diálogo e à concórdia, repudiando a polarização. “Mas há outra tentação de que devemos acautelar-nos: o reducionismo simplista que só vê bem ou mal, ou, se quiserdes, justos e pecadores. O mundo contemporâneo, com as suas feridas abertas que tocam muitos dos nossos irmãos e irmãs, exige que enfrentemos toda a forma de polarização que o possa dividir entre estes dois campos.”

Esta quinta-feira à tarde o Papa visita ainda um centro de apoio aos sem-abrigo antes de viajar para Nova Iorque onde, já ao fim do dia, celebra as vésperas com clero e religiosos na catedral de Saint Patrick.

O discurso do Papa na íntegra
O discurso do Papa na íntegra
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  • Albertino Costa
    24 set, 2015 Vila Nova de Gaia 19:33
    Neste mundo em que o deus dinheiro vai ditando leis, somente o Papa consegue ver qual o mal para tanta migração. Deixem de vender armas a quem não as sabe utilizar e talvez possamos ter um mundo diferente. Esperemos que a estrutura cristã consiga acompanhar a dinâmica deste papa.

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