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Entrevista a D. José Ornelas

Abusos na Igreja: “O pior é caminhar sobre um terreno minado, não sabendo onde estão as minas”

17 dez, 2021 - 07:30 • Ângela Roque

Presidente da Conferência Episcopal garante que a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais já estava pensada muito antes do abaixo-assinado que, em novembro, foi enviado aos bispos, numa interpelação que considera “positiva”. D. José Ornelas assegura que o objetivo é “clarificar” tudo e que a Igreja estará sempre “ao lado das vítimas”.

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Abusos na Igreja. “Estaremos sempre ao lado das vítimas”
Abusos na Igreja. “Estaremos sempre ao lado das vítimas”

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“O pior é caminhar sobre um terreno minado, não sabendo onde estão as minas”, afirma o Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) sobre a problemática dos abusos.

Em entrevista à Renascença, D. José Ornelas explica que o objetivo da recém-criada Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais é “clarificar” tudo e que a Igreja estará sempre “ao lado das vítimas”.

A criação da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja em Portugal foi uma decisão bem acolhida? Que reações tem recebido?

De um modo geral tenho tido reações positivas. É evidente que há pessoas que têm as suas ideias de como é que poderia ter sido o processo, que outras pessoas deviam ter sido implicadas.

E que a decisão devia ter sido tomada há mais tempo?

Sim, também. Mas esta decisão vem no seguimento de um processo que se tem de entender à luz dos tempos que vivemos. Já temos as comissões de proteção criadas nas dioceses há mais de um ano, só que com estes altos e baixos da pandemia, mesmo para fazer formação, que precisa de ser presencial, fomos fazendo sessões online, em várias dioceses, mas isto não chega, e muitas coisas ficaram adiadas.

Com o início do trabalho das comissões verificou-se a necessidade de uma coordenação a nível nacional, importante para o bom funcionamento e articulação das comissões. Mas aquilo que se pretende agora, e que vem no seguimento de todo este caminho, é fazer um estudo mais apurado e geral, a nível nacional e com pessoas com competências próprias, para saber não só a dimensão, porque não é uma questão de números simplesmente, mas para se clarificar a situação e ter uma caracterização. Acho que isso faz parte, devia ou deve fazer parte de toda a sociedade, e nós, da nossa parte, por aquilo que nos toca, estamos muito interessados em clarificar isto.

A Igreja tem sublinhado esse interesse em clarificar as coisas.

Isto é muito importante para todos. Tem sido repetido nestes dias, a propósito desta comissão, pelos seus responsáveis, que é preciso ter em conta a sensibilidade da sociedade em geral, e mesmo no mundo ocidental, para a gravidade destes problemas. Para além de ser uma questão ética ou moral, a noção da gravidade de todas estas situações na idade infantil e juvenil, que leva as pessoas a ficar com a vida completamente destruída para toda a existência, isso é conhecido recentemente.

Abusos na Igreja: “O pior é caminhar sobre um terreno minado, não sabendo onde estão as minas”
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E há situações muito graves, como em França, onde um relatório, também de uma comissão independente, foi conhecido em outubro. Isso fez crescer a vontade de em Portugal se avançar com uma decisão semelhante?

Sim, mas antes que saísse isso a decisão e orientação estava feita, da nossa parte.

Não se sentiram pressionados pelo abaixo-assinado que houve antes da Assembleia Plenária da CEP, em novembro, a pedir uma comissão independente?

O abaixo-assinado é significativo e é importante para dizer que isto não é uma questão apenas da Conferência Episcopal, que agora os bispos "lembraram-se de", porque isso faz parte de uma consciência eclesial difusa. É positivo que nos preocupemos todos com esta questão.

Ser-se exigente com a Igreja é positivo?

A Igreja somos nós todos, e aquilo que fazemos e pretendemos é escutar - o processo sinodal em que estamos é precisamente esse, dar voz a toda a gente dentro da Igreja, e isso é salutar para todos. Que as pessoas se possam exprimir de um modo mais assertivo faz parte dos próprios processos de busca de soluções.

Não foi ainda definido um arco temporal para o estudo histórico que vai ser feito. Devia ser?

O doutor Pedro Strecht e a comissão já marcaram e anunciaram um período de um ano.

Isso para os resultados, mas o tempo histórico que vai ser estudado não foi definido.

Não foi. O que temos é o seguinte: este estudo está a ser orientado para ser algo dirigido às pessoas – é preciso ouvir as pessoas, ouvir a voz do silêncio, libertar as pessoas dos pesos que levam consigo e ver se precisam de acompanhamento. Mas isso vai ser explicado, porque a comissão ainda está a trabalhar nisso.

Quanto aos objetivos, estão definidos: não é uma questão de números o mais importante, muito menos deduções aritméticas. Interessa é ligar-se às pessoas.

Houve um apelo para que os casos sejam denunciados, se tiverem existido.

Que sejam denunciados, por isso não faz sentido pôr um limite. O limite é aquele que a memória das pessoas venha a trazer e que é preciso purificar.

Foi dada mais visibilidade a esta questão, desde que a Comissão foi criada. Tem indicação de que tenha havido denúncias neste espaço de tempo?

Isso é uma coisa que só a Comissão é que há de dizer, porque esta Comissão tem a sua independência, não só pelas pessoas, e isso está muito claro da nossa parte. Quem escolheu a equipa foi o doutor Pedro Strecht, e os objetivos, as metodologias. É evidente que implica também colaboração da parte da Igreja, mas a orientação é deles, e essas perguntas devem ser dirigidas a eles.

E dia 10 de janeiro será apresentada a metodologia de trabalho, como é que vai decorrer o processo.

Eles próprios, a experiência que têm, têm de pô-la ao serviço desta realidade específica que é a Igreja. Portanto, o tipo de ligações e tudo o resto, terão de ser eles a dizer.

Nós dissemos muito claramente que, até pela competência e experiência que têm, deviam ser eles a marcar o ritmo e o estilo do seu próprio trabalho, e é isso que está a se feito.

A Igreja está disposta a enfrentar todas as consequências deste processo, incluindo indemnizações às eventuais vítimas?

Estaremos sempre ao lado das vítimas e daremos a ajuda que seja necessária, sobretudo para se reencontrarem e reencontrarem a sua vida, dos danos que lhes tenham sido causados. O resto são tudo questões a pôr-se a seguir por pessoas concretas.

As pessoas que sofreram com questões destas dizem "eu não quero ser um número". Cada pessoa tem uma história para contar, e uma história às vezes muito pouco agradável de se ouvir, mas é bom ver as pessoas falarem e libertarem-se disto.

Nesse sentido, abriu-se uma porta importante na Igreja em Portugal?

Essas portas não é de agora que estão abertas. Fomos fazendo um caminho para encontrar as metodologias certas, para que as pessoas tenham confiança e liberdade para se exprimir. E é isso que queremos, que as pessoas se exprimam, para encontrar a verdade das coisas. O pior é caminhar sobre um terreno minado, não sabendo onde estão as minas, é melhor conhecê-las.

Foi indicado esta semana, pelo porta-voz da CEP, que o grupo coordenador das comissões diocesanas irá ser criado no início do próximo ano. Porquê a demora?

Tivemos de dar prioridade à Comissão Independente, também para não misturar coisas. São dois processos diferentes: esta é um processo normal, que estava previsto desde o início, mas dizíamos "primeiro vamos formar as comissões diocesanas", e a partir delas ver qual é a coordenação necessária e oportuna para que possam realizar a sua missão, que é uma missão sobretudo de prevenção e de formação.

É preciso alertar as pessoas na sociedade e na Igreja, nas suas instituições, para que estejam despertos para saber detetar sinais de perigo, e educar as pessoas e as próprias crianças a saberem distinguir o afeto normal, sem entrarmos em paranoias, mas defender aquilo que é o afeto normal. Mal seria se perdêssemos o caráter afetivo que temos na nossa sociedade por causa dos perigos, mas é preciso saber detetá-los. Isso tem a ver, antes de mais, com a família, mas é também de todos aqueles que são intervenientes na educação, precisam de ser alertados e defender, criar ambientes seguros e de confiança para as nossas crianças e os nossos jovens.

E essa formação já começou nas várias dioceses?

Está-se a começar. Bem, ao nível da Conferência Episcopal Portuguesa já temos instruções desde 2012 e, que eu saiba, todas as dioceses fizeram alguma formação sobre isto, para os seus líderes, de juventude, etc. Muitas instituições e movimentos da Igreja têm também os seus programas próprios, as escolas, e mesmo as nossas IPSS, têm os seus protocolos. Aliás, quando há alguma suspeita, o pessoal profissional que as nossas instituições têm tem reagido muito bem, na maior parte dos casos, porque tem formação específica para isto.

Já pode adiantar quem é que vai liderar a comissão coordenadora das comissões diocesanas?

Não, as próprias comissões é que o farão.

E esta Comissão vai colaborar com a Comissão Independente?

Esse tipo de articulação é necessária, mas deixemos que estas comissões se desenvolvam e encontrem elas próprias o seu caminho para dizê-lo.

A questão dos abusos deve implicar mudanças ao nível da formação nos seminários e pré-seminários? Isso está pensado?

Este tema deve ser um tema para toda a gente que trabalhe com educação, na Igreja e não só. Nesse sentido, não creio que estejamos a partir do zero, agora os próprios passos que a sociedade vem dando sobre isto, o próprio conhecimento das ciências psicológicas e psiquiátricas, é muito importante integrá-lo no nosso conhecimento.

No meu percurso, estive na Congregação dos Dehonianos, e quando isto começou a ser um tema na sociedade em geral, nós tivemos formação específica e fizemo-la dentro da congregação. Quando comecei como Superior Geral, em 2003, em Roma, e antes disso como Provincial, já tínhamos tido formação, para dar instruções também às nossas instituições. Portanto, este é um trabalho que não começou agora.

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