A+ / A-
Pré-Publicação

“João Seabra - à Sua maneira” ou o percurso "do Vasco Pulido Valente do clero”

03 jul, 2019 - 08:00

A Renascença apresenta esta quarta-feira a pré-publicação de um capítulo do livro “João Seabra - à Sua maneira”. Na obra, é traçado o percurso de um homem com 40 anos de sacerdócio que marca a Igreja de Lisboa e que na juventude trocou as voltas ao expectável: entre uma possível carreira política: surpreendeu ao seguir o caminho do sacerdócio.
A+ / A-

O livro “João Seabra - à Sua maneira” é escrito por José Luís Ramos Pinheiro e Raquel Abecasis e nele são abordadas várias dimensões deste padre que se licenciou em Direito antes de ir para o Seminário dos Olivais, onde viveu intensamente os tempos conturbados do 25 de Abril.

Frontal, livre e longe de ser consensual, é-lhe reconhecida a João Seabra uma capacidade inspiradora, bem como o esforço e defesa da unidade da Igreja. No capítulo escolhido pela Renascença para pré-publicação “Pá, lembras-me o meu irmão”, essa crispação fica patente nas memórias bem-humoradas dos seus colegas de seminário. Um deles haveria de ser um dos amigos para a vida - o “Manel”, futuro patriarca de Lisboa.

Ao longo do livro, percebe-se a singularidade do padre João Seabra. Entre os vários testemunhos de quem com ele conviveu e convive, como Inês Dentinho, o padre João Seabra é uma figura “desafiadora” que faz a “diferença” e que Inês Dentinho define como “o Vasco Pulido Valente do clero”

O livro é lançado na quinta-feira, às 19h00 no Liceu Pedro Nunes, onde o padre João Seabra estudou, com a presença do cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. Aura Miguel e João Amaral fazem a apresentação do livro.


Ao longo desse ano fez‑se amigo de amigos que ficaram para sempre. Armando Duarte, Adelino Pais, João Borga, entre outros. E em Outubro de 1973, João Seabra dava mesmo uma profunda reviravolta na sua vida e entrava no seminário. Era uma ruptura grande com o seu estilo pessoal. E também com o seu modo de vida. «Muito grande, muito grande», confirma.

«Quando vai para o seminário», sublinha João Amaral, «faz um corte com a vida anterior, procura alargar o seu mundo, descobre outras pessoas, até com o que isso lhe custava socialmente». «Aquelas não eram os tipos de pessoas com quem ele convivia», diz o amigo que «funcionou um pouco como a tropa, para muita gente que não conhece realidades diferentes das suas – descobre-se outro país».

João Seabra ia ser submetido a muitas provas, mas a sua personalidade constituiria também um desafio para os responsáveis do Seminário dos Olivais e um teste à amizade, ou à paciência, dos novos colegas. «Tu és o novo, eu sou o João Seabra, muito prazer!»

Foi assim que João se apresentou a «Manel». Sem aviso, entrou-lhe pelo quarto dentro. Surpreendeu «o novo», acabadinho de chegar ao seminário, a arrumar pacatamente as suas coisas. «Foi assim que ele entrou na minha vida», conta «Manel», posteriormente um dos amigos mais queridos de João. «De rompante», confirma, entre risos, o patriarca de Lisboa, «Manel» Clemente. «Como aliás era costume dele, entrar em muitas vidas e em muitas situações.»

A partir desse momento cresceu uma amizade para a vida. Começou no seminário e prolongou-se até hoje. «Muito, muito próximos sempre, porque eu também não o dispensava, não é?», explica Manuel Clemente.

Nunca se afastaram. Mas nem sempre andaram à mesma velocidade. Nas palavras do cardeal, «cada um com o seu temperamento, com o seu feitio, e eu às vezes a querer travá-lo e ele sempre a querer adiantar-me, mas foi sempre assim, ao longo da vida».

As novas amizades foram importantes naqueles anos e nos seguintes também. Mas não anulavam a transformação brutal na vida de João.

«Percebi que com a entrada no seminário, ele quis mudar de estatuto social», diz Carmo Seabra. Quando tomou a decisão de ir para padre, «distribuiu a roupa toda pelos manos e começou a vestir uma roupa horrível», exemplifica a irmã, a quem o irmão seminarista deixou, em «herança», o quarto em casa dos pais.

Ao entrar nos Olivais, João abdicou também da vida social. Rejeitava convites para festas e jantares. Era mais um corte. Continuou a dar-se com os mais íntimos, caso de João Amaral. Mas nada de saídas ao fim‑de-semana. De resto, não ia a casa todas as semanas. Mas sempre que possível «ia ver a minha gente». Por poucos dias ou horas, reencontrava então a casa de família. Uma casa em tudo diferente do «enorme casarão, quase abandonado», nas palavras de D. Manuel Clemente, em que o Seminário dos Olivais se havia transformado, no início da década de 1970.

Cerca de uma dúzia de seminaristas ocupavam apenas metade de um corredor, de um único andar. O resto, vazio, como memória ainda tão próxima de um tempo tão doloroso.

A ruptura de pessoas e de espaços não esmoreceu o entusiasmo transbordante com que João Seabra abordou a entrada no seminário.

Armando (Duarte) e Manuel (Clemente) manteriam com João uma «certa cumplicidade social» aos olhos de um seminarista da época. Outros nem tanto. De facto, nem todos se entusiasmaram com o novo seminarista.

A ordenação do padre João Seabra, pelo cardeal Ribeiro

Mais de 45 anos volvidos, João Seabra bem sabe que muitos dos seus colegas não se empolgaram facilmente com ele. Tinham queixas. E por vezes, razões de queixa.

«Eu imagino que fosse bastante insuportável e opinativo, metendo-me em tudo e falando em todas as reuniões», admite. «Presunção, petulância e auto-convencimento de que eu é que sabia», são algumas das expressões que o próprio aplica a seu respeito.

Sendo o mais velho de nove irmãos, João Seabra era «uma autoridade» em sua casa. E no grupo de amigos ocupara sempre lugar de destaque. De genética irradiante e fogosa foi-lhe doloroso perceber que ao entrar no seminário devia ocupar o lugar que lhe competia. Só esse e não mais do que esse.

«Pá, lembras-me o meu irmão. Que chatice pá!», disse-lhe, certa vez, o amigo «Manel».

De facto, Manuel Clemente era o mais novo dos seus irmãos e os apetites de liderança e autoridade de João, recordavam-lhe com frequência o seu irmão mais velho. Ele «achava que eu estava no seminário com essa posição e achava isso irritante», conta o próprio João Seabra.

Retrospectivamente, João Seabra admite que «Manel» (Clemente) tinha razões para se irritar. «Eu era o irmão mais velho, era o mais velho de nove irmãos, estava habituado a mandar, em minha casa era uma autoridade, não é?… No meu grupo de amigos sempre tinha sido um protagonista, portanto, entrar numa comunidade e ocupar o lugar que me competia, e não mais, foi uma coisa que me custou a aprender!»

Daí que João Seabra repita com frequência: «Devo ter sido incómodo para os meus colegas, algumas vezes.» E acrescenta: «Eu devo ter desse tempo uma memória muito diferente da dos meus colegas, imagino que eu fosse bastante insuportável, é bom perguntar aos meus colegas de seminário, como é que eles acham que eu era…»

Para alguns, sim, sem sombra de dúvida: João Seabra era muito, muito «snobe». Era assim que o viam ou receavam. Pelo menos, nessa altura. Para outros, apenas vagamente «snobe». O humor e a franqueza com que encarava tudo e todos sobrepunham-se ao resto.

Poderia parecer snobe, reconhece D. Manuel Clemente, «mas ao primeiro contacto, desvanecia-se logo, e à segunda ou terceira frase, já estávamos em casa». Alguém pode ter ficado «com essa impressão», admite o cardeal-patriarca, «mas não foi impressão minha». E sublinha que nas discussões políticas sobressaíam a «sensibilidade à pobreza» e a «generosidade» que ele manifestava.

O padre João Seabra cumprimenta o Papa João Paulo II

Inevitavelmente, coexistiam no seminário mundos diferentes e diferentes visões do mundo. Nessa medida, eram também inevitáveis os choques culturais. O modo como cada seminarista encarava João Seabra dependia, em certa medida, da história e do respectivo enquadramento social.

Se acrescentarmos a esse embate «a cultura, a argúcia argumentativa e o pendor conservador do João, estava preparado um cocktail de elementos diferenciadores potencialmente explosivo», defende o padre Peter Stilwell que conhecera

Seabra, no Verão de 1965, num almoço de férias.

Stilwell, actual reitor da Universidade de São José, em Macau, acabara de concluir o seu primeiro ano de seminário e as «férias missionárias» foram organizadas em Valada do Ribatejo, «onde os pais do João tinham uma casa». Os pais Seabra e os pais Stilwell eram amigos. Ao vê-lo em Valada, a família Seabra convidou Peter para almoçar. Conheceram-se aí. «Lembro-me bem da casa e do almoço, o ambiente era descontraído.» João (já na altura…) «animou a conversa». Só «nos voltámos a encontrar quando o João entrou no seminário».

Quando se reencontram nos Olivais, já Seabra dividia as águas. Alguns embirravam com ele, outros estimavam-no, mas não lhe apreciavam o estilo. Havia de tudo. Álvaro Bizarro, por exemplo, «tinha dificuldades comigo, coitado e o Eduardo Coelho, talvez», aponta o cónego Seabra.

O também agora cónego Álvaro Bizarro chegou aos Olivais no mesmo ano de João Seabra, mas vindo do Seminário de Almada. Do seu ponto de vista, «mais do que questões de natureza sociocultural ou choques de temperamento, de personalidades, confrontavam-se, às vezes de modo aceso, modelos de ser Igreja, de itinerários de vocação e de perspectivas de exercício do sacerdócio». Eram, nas palavras de Álvaro Bizarro, «modelos vincados, com mais acento individual ou no colectivo, de viver a fé e o serviço na Igreja que marcaram não só o tempo do seminário, como o modo como se foi exercendo o ministério».

Álvaro Bizarro garante que eram claras «as marcas da origem dos seminaristas provenientes do seminário vocacional e dos que chegavam por si», mas «nem sequer era relevante a origem sociocultural e económica dos estudantes». E acrescenta que «não se conheciam situações de pobreza nos seminaristas».

Ainda assim, por motivos pessoais ou pastorais, havia quem olhasse João Seabra com uma certa alergia. «Só a minha presença os irritava», confessa Seabra. A roupa que usava, a maneira como falava, as coisas que fazia, «tudo os irritava».

O padre João Seabra a ser condecorado pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa

Um desses colegas era pródigo em correcções. Alertado para as virtudes da correcção fraterna, João Seabra procurava emendar a mão e adaptar-se às observações constantes e às permanentes chamadas de atenção daquele contemporâneo. Mas tantas foram e tão insistentes eram que Seabra não se conteve. Confrontou o colega. E acabou por perceber. «Ele explicou-me que me corrigia, não para que eu me emendasse, mas para que eu desistisse e me fosse embora.»

Mas porquê? Porque o dito colega achava, em consciência, que a Igreja não precisava de «padres burgueses como eu, mas sim de padres como ele, filhos de gente que vinha do mundo do trabalho, do sacrifício, ou mesmo da fome e do sofrimento». Um padre como João Seabra seria um risco. Era contraproducente para a Igreja.

João Seabra ficou ‑lhe grato. «Eh, pá, fico ‑te agradecidíssimo, porque assim deixo de te ligar.» Sempre que era corrigido por esse colega, João sentia-se na obrigação de ouvir. Acreditava na bondade e até na vantagem das reprimendas. Mas «se é para me ir embora, não vale a pena, podes dizer o que quiseres, que eu não te ligo». E não ligou mais. Ainda hoje recusa revelar a identidade do colega que partia do princípio de que a origem social era condição fatal para selecionar os padres de Lisboa. Afastando, obviamente, o «risco dos padres da burguesia».

Por estas e por outras, Álvaro Bizarro garante que «aquela figura “protótipo” do seminarista, insípido, inodoro, moldável, nunca se encontrou no João, nem nos colegas com origem diferente». E descreve Seabra como o resultado brilhante de dois mundos, entre a raça do Ribatejo e a traça de Lisboa: «De aspecto gingão, polemista, ao mesmo tempo da elite urbana e da fidalguia ribatejana, estruturado na velha tradição católica.»

Acresce que Seabra não fugia a uma boa discussão. Polémicas, eram com ele. «Não lhe era difícil dominar um contendor directo, nem esgrimir argumentos para vencer um pensamento distinto», sublinha o cónego Bizarro. «Arguto, de espírito brilhante, caldeado na argumentária jurídica», assim era João Seabra. «De um texto lido ao viés, de duas palavras com sentido, construía uma tese, que defendia com audácia e lógica», recorda o ecónomo da diocese de Lisboa.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Ana Maria Seabra de Almeida Lavradio
    03 jul, 2019 Lisboa 20:10
    Renascença, eu sou sobrinha do Padre João Seabra
  • Cristina Carvalho
    03 jul, 2019 16:13
    Muitos lhe devemos muito e não era preciso ser uma fotocópia nem seguir exactamente pelo mesmo caminho. Com amizade.