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​Plano Nacional das Artes quer “indisciplinar” o ensino e abrir ateliers de artistas nas escolas

18 jun, 2019 - 16:36 • Maria João Costa

Os ministérios da Educação e Cultura apresentaram em conjunto o Plano Nacional das Artes. A partir do próximo ano letivo os estudantes portugueses vão ter, por exemplo, um ID cultural, um documento de identificação cultural, vão poder conviver com artistas nas escolas ou participar num Festival Bienal.
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“Temos muito trabalho, é uma corrida de obstáculos”, a imagem desportiva foi usada pelo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, para definir o que vem pela frente depois da apresentação do Plano Nacional das Artes (PNA) conhecido, esta terça-feira, em Lisboa.

A iniciativa conjunta dos ministérios da Educação e da Cultura prevê abranger todo o universo escolar português no período 2019-2024 e visa criar maior proximidade entre alunos e o mundo artístico.

A antiga sala de ensaios da Companhia Nacional de Bailado, hoje o espaço dos Estúdios Victor Córdon, encheu-se com cerca de duas centenas de representantes do sector cultural para conhecerem o Plano Nacional das Artes que terá como comissário, Paulo Pires do Vale.

Perante artistas, representantes de museus e instituições ligadas à cultura e educação, o comissário explicou o porquê de levar as artes às escolas com o PNA.

“Acreditamos que a cultura é uma mediação necessária, a arte faz parte da vida”, afirmou Pires do Vale, que sublinha que “as artes têm multilinguagens” que contribuem por exemplo, para uma “inclusão social mais alargada”.

Indisciplinar o ensino

“Imaginem o que é estar um artista como o VHILS dentro de uma escola durante um período a criar e durante esse tempo a transformar a vida daqueles alunos”. O exemplo é dado pela ministra da Cultura, Graça Fonseca, aos jornalistas para explicar as residências artísticas, um dos eixos de atuação previsto no PNA.

Além da possibilidade de levar os artistas ao encontro dos estudantes portugueses nestas residências que terão a duração de um ano, o PNA prevê também o programa “indisciplinar a escola” que, segundo o comissário Paulo Pires do Vale, vai “em cada escola” designar “um coordenador” para a abertura dessa escola ás artes e ao património; também a área de Cidadania e Desenvolvimento vai permitir trabalhar “temas como a saúde, justiça igualdade de género, partindo de obras de arte e usando as expressões artísticas”.

Além deste eixo ligado à educação e ao acesso, o Plano Nacional das Artes, que terá uma página de internet que irá centralizar toda a informação, vai também promover a deslocação das escolas a espaços de cultura, como museus, teatros.

A ideia, explica Pires do Vale, é os alunos “saírem uma vez por trimestre”, de forma a que seja algo “continuado”.

Prevista está também, já em 2020, a realização de um Festival Bienal PNA.

Nas contas do ministro da Educação, “um milhão e meio de portugueses, 15% da população portuguesa, entra todos os dias na escola, ou seja 50% da população tem alguém do seu círculo mais íntimo ligado à escola”.

Estes são os números que o Governo quer agora “alavancar”, diz Tiago Brandão Rodrigues. “O foco são as escolas”, acrescenta a ministra da Cultura, que sublinha que “sabemos que trabalhar com os mais novos transforma a partir daí, a família, e os mais velhos, a comunidade. Esse poder transformador da cultura nos mais novos tem esse efeito de poder alastrar a todos”.

Professores vão ter formação

O PNA prevê mais dois eixos. Segundo o comissário, um desses eixos é o da política cultural que assenta, por exemplo, na ideia de criar um Índice de Impacto Cultural das Organizações; a abertura de uma linha de financiamento público da Direção Geral das Artes e do Instituto do Cinema para apoiar as atividades deste plano que, segundo a ministra da Cultura, contará com uma verba inicial de 500 mil euros.

Haverá também a criação de um ID Cultural. Esta espécie de documento de identificação cultural vai fazer a rota do percurso cultural de cada estudante.

Outro dos eixos do PNA assenta no princípio da “capacitação”, como lhe chamou Pires do Vale. Segundo o comissário, está prevista a criação de uma Academia PNA, com cursos de formação continuada para professores e educadores, mas também destinada a artistas e ouros mediadores interessados em refletir e aplicar essa formação na prática.

Também na ilha de Porto Santo, na Madeira, será reabilitada uma escola abandonada que irá funcionar como uma espécie de “quartel general” do PNA, onde haverá espaço para residências artísticas.

De acordo com o descrito por Pires do Vale, esta escola com o apoio da Secretaria Regional da Educação da Madeira, da Direção Regional da Administração Pública de Porto Santo, a Câmara Municipal de Porto Santo e a Associação Porta33, será um “think thank” para refletir sobre políticas internacionais e nacionais, nas áreas da cultura e da educação.

O PNA vai aproveitar boa parte do trabalho já desenvolvido por outros planos e redes, como o Plano Nacional de Leitura, a Rede de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Cinema, o Programa de Educação Estética e Artística, a Rede Portuguesa de Museus e o Arquivo Nacional do Som.

Na apresentação Paulo Pires do Vale citou as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen que escreveu: "A cultura não existe para enfeitar a vida, mas para a transformar", comentando que "não é um luxo", e concluiu com uma frase emprestada ao realizador francês Jean-Luc Godard, que questiona: "O que é a arte? Nada. O que quer a arte? Tudo. O que pode a arte? Alguma coisa".


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