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Reportagem

A história de ​Tiago Varanda, o primeiro cego a ser ordenado padre

13 jun, 2019 - 01:44 • Isabel Pacheco

Apesar das limitações o diácono, que conta com a ajuda de uma cadela-guia, prefere ver a deficiência como “uma bênção” em vários sentidos. Um deles é “a maior capacidade recolhimento na hora da oração”, mas, também, “na hora de escutar”.
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Tiago Varanda, o primeiro padre invisual português - Reportagem de Isabel Pacheco
Tiago Varanda, o primeiro padre invisual português - Reportagem de Isabel Pacheco
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Deixou para trás a carreira de professor de História e ingressou no seminário aos 28 anos. Tiago Varanda é o primeiro diácono cego no nosso país e prepara-se para fazer de novo história a 14 de julho, dia em que é ordenado sacerdote na Arquidiocese de Braga.

Encontramos Tiago Varanda junto à sacristia da Igreja do Pópulo, em Braga. Este é um dos espaços do quotidiano do diácono que, em breve, será o primeiro cego a ser ordenado sacerdote em Portugal.

A acompanhar está Ibiza, a cadela-guia que, apesar, de ter nome de “férias”, brinca o futuro sacerdote, não foge ao “trabalho”.

Ela é “os olhos de quatro patas” do futuro sacerdote e a companheira de todas as horas.

“Uma vez durante a eucaristia esqueci-me de a prender na sacristia e quando demos conta ela estava atrás de nós no altar. Também quis rezar”, recorda o diácono.

Mas, na nova fase de vida, Tiago sabe que vai enfrentar obstáculos e dificuldades dos quais nem Ibiza o poderá desviar. A leitura da liturgia durante as celebrações é uma delas, por isso, já começou a tradução para braile. Um trabalho “moroso”, reconhece, mas “que vale a pena”.

“Poderia fazer de uma forma mais simples com recurso à tecnologia que me permitiria ouvir e repetir, mas com o braile a comunicação é muito diferente. É tocar com os dedos e transmitir o que sinto”, descreve.

O trabalho está a ser preparado aos poucos para deixar, também, “o caminho aberto para outros”, adianta o jovem que chegou, mesmo, a pensar na edição do missal em braile.

“O problema é que são livros imensamente grandes e o público é muito reduzido. Não sei se as editoras que publicam livros em braile estariam dispostas a aceitar este desafio”, questiona o futuro sacerdote.

Mas nem tudo são limitações, diz o diácono, que prefere ver a deficiência como “uma bênção” em vários sentidos. Um deles é “a maior capacidade recolhimento na hora da oração”, mas, também, “na hora de escutar”.

“O facto de não ver pode ajudar me muito a escutar e atender as pessoas. Torna-me muito mais sensível para estas dimensões”.


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  • Orlando de Carvalho
    14 jun, 2019 Lisboa 14:53
    Existe o Novo Testamento em Braille em português. Eu já coloquei um cego a ler a Epístola numa Vigília Pascal. Posso indicar onde existe a tradução, caso seja útil.