A+ / A-
​José Pedro Teixeira Fernandes

"Boris Johnson reclama 'o direito natural' de suceder a Theresa May"

06 jun, 2019 - 21:11 • José Bastos

Anfitriã na polémica visita de Trump desta semana, Theresa May será lembrada como a chefe de Governo que não conseguiu aplicar o Brexit.

A+ / A-
José Pedro Teixeira Fernandes entrevistado por José Bastos
José Pedro Teixeira Fernandes entrevistado por José Bastos

Obstinada e resistente, mas sem magnetismo ou criatividade. Theresa May deixa esta sexta-feira de forma oficial a chefia do Governo britânico – continua em funções até à escolha de substituto - e passará à história como a líder do Partido Conservador que não conseguiu concretizar o Brexit.

May foi incapaz de controlar as forças libertadas pelo seu antecessor David Cameron no referendo de 2016. Erros táticos, como as eleições antecipadas de 2017, levaram May à solidão no meio de um debate cada vez mais polarizado entre os defensores de um Brexit sem acordo e os que querem travar o divórcio.

Na última semana formalmente no cargo, Theresa May teve ainda de receber a visita oficial de Donald Trump que antes ainda de aterrar em Londres já arremetia contra boa parte da classe política britânica. Muitos defensores do Brexit sustentam que a saída da UE sem acordo será excelente, porque Trump prometeu um rápido acordo de livre comércio que triplica as vantagens do mercado europeu.

Mas será Trump o Presidente que rompe com todas as convenções, o político que salvará o Reino Unido das consequências do Brexit? Esta é uma das perguntas para José Pedro Teixeira Fernandes, professor universitário nas áreas das Relações Internacionais e Estudos Europeus, especialista em geoestratégia e autor do livro “Europa em crise”, da Quidnovi.

As visitas de Estado são a representação formal de uma boa sintonia entre países a que se chega pela diplomacia, mas Trump indicou ao Governo britânico como agir no Brexit, nomeou sucessores para Theresa May e defendeu Nigel Farage a negociar com Bruxelas. Este quadro era inimaginável com qualquer outro Presidente dos Estados Unidos antes da chegada de Trump à Casa Branca?

Este processo que, no fundo, começa a 'normalizar-se' a converter-se em padrões habituais da atuação de Donald Trump não deixa de ser estranho e está fora dos marcos usuais da atividade diplomática e das visitas diplomáticas. Entre estados próximos - como é o caso do ponto de vista cultural, politicamente e nos valores - o que é usual é procurar centralidade para assuntos de Estado a evitar questões de política doméstica, a questões que dividam politicamente o próprio país anfitrião.

Este é o padrão, esta é a prática usual da democracia, eventualmente com a exceção de um caso ou outro. Até agora a opção havia sido seguida por praticamente todos os presidentes dos Estados Unidos e nesse sentido a visita de Donald Trump cumpriu uma atuação fora dos padrões usuais de uma visita de Estado. Trump aproveita-se muito da debilidade interna existente no Reino Unido com as divisões à volta do Brexit, com todo o processo de sucessão de Theresa May.

E aqui talvez uma nota pela positiva: Trump foi desta vez bastante mais simpático para com Theresa May, ou, pelo menos, não tão embaraçoso com algumas afirmações e atitudes do que em relação a encontros anteriores com May. Claro que também Theresa May está de saída donde esta é a chamada 'cortesia fácil'.

No Reino Unido aumentou a dependência de Trump nos sectores que defendem um “hard” Brexit no sentido em que precisam do Presidente dos Estados Unidos para provar que a saída da UE abre caminhos para melhores acordos comerciais com outros países?

Há interesses convergentes dos dois lados. É já clara a longa lista de candidatos à sucessão de Theresa May que se estão a posicionar. Os candidatos mais óbvios são Boris Johnson, Michael Gove ou Jeremy Hunt e, de alguma forma, todos prometem atitudes mais firmes nas negociações com a União Europeia. Boris Johnson faz abertamente declarações indicando que se o acordo com Bruxelas não for possível o Reino Unido, com ele a primeiro-ministro, sairá de uma forma ou de outra mesmo sem acordo até finais de outubro.

É um ponto que recoloca a questão das relações internacionais do Reino Unido - país de enormes interesses comerciais na Europa e Mundo - e o caminho a seguir num eventual cenário de "hard" Brexit. O papel dos Estados Unidos é nesse quadro muito importante, porque se o Reino Unido sai em rutura da União Europeia coloca-se a questão de como vai ser a relação económica e comercial com os 28 e Londres precisa de uma rápida alternativa para evitar um sério problema económico.

Mas à medida a que Trump pressiona para um Brexit sem acordo há avaliações a antecipar que a economia britânica pode perder 8% a 9% em 15 anos e para suavizar o quadro há quem acene para os eleitores com este quadro: 330 milhões de americanos vão substituir 450 milhões de europeus como parceiros comerciais. Mas há quem sugira que um acordo de livre comércio rápido com os Estados Unidos é impossível, o tempo médio para concluir um tratado é, no mínimo de 42 a 45 meses, e mesmo que Trump acelere as negociações o acordo seria travado no Congresso, em especial num ano eleitoral. Há aqui elementos ainda muito difusos?

Sem dúvida. Uma coisa é fazer promessas de um grande acordo comercial que triplicaria os volumes atuais de comércio e outra coisa é negociar e, sobretudo, concretizar. Temos uma amostra no que foi o processo de negociações do TTIP - Acordo de Parceria Transatlântica de Parceria e Investimento - que está completamente parado com a chegada de Donald Trump, mas que esteve vários anos em negociações.

É verdade que o TTIP não era apenas uma negociação entre Estados Unidos e Reino Unido, era uma negociação mais abrangente com o todo europeu o que tornava o processo mais complexo, mas percebeu-se logo que havia uma quantidade de sectores que levantariam questões delicadas.

Não apenas questões de barreiras aduaneiras e de eliminação de taxas, mas nestes acordos de comércio de pontos que dizem respeito ao investimento ou, por exemplo, questões como uma polémica que se levantou nos últimos dias a propósito de uma afirmação de Trump envolvendo o acesso ao SNS britânico e ao investimento desse sector, uma área do sector público no Reino Unido.

Em causa também o alinhamento de regras técnicas para a produção de bens industriais dos dois lados. São negociações abrangentes e altamente complexas e que tocam em importantes interesses sectoriais e da sociedade e, portanto, só estão concluídos no final de longos processos.

Trump na questão alfandegária não costuma ser muito generoso com os seus aliados. Sabemos o que fez recentemente quanto ao aço e alumínio britânicos e as taxas de 10% e 25%. Não se imagina que Trump abrace os britânicos num cenário em que o Reino Unido esteja numa posição negocial ainda mais débil com o “hard” Brexit.

Estou de acordo. Isto passa por uma aproximação política de conveniência que permite a Donald Trump dizer que está a estreitar novamente a relação com o Reino Unido onde há políticos a confirmar a sua própria visão do mundo e a sua orientação ao mesmo tempo que a políticos britânicos como Boris Johnson, Michael Gove ou Nigel Farage (neste caso é menos evidente) lhes permite visibilidade internacional.

Mas, na prática, não significa que seja fácil chegar a esse tipo de acordos de livre comércio e Trump mostra muita dureza nesse tipo de negociações e até um gosto muito particular por direitos aduaneiros e não por abrir os mercados, em particular o dos Estados Unidos.

Também a proximidade do ciclo eleitoral dos Estados Unidos não facilita nada a promessa de Trump deixada no Reino Unido de um acordo que triplique o comércio entre os dois países. A promessa pode ter o seu impacto na política britânica, vamos seguir o que acontece na disputa do lugar de Theresa May, mas temos de descontar muitos exageros de Trump.

Trump não manteve a discrição obrigatória nestas visitas de não interferir na política doméstica, mas como é que olha para o facto do Presidente dos Estados Unidos ter manifestado preferências diretas por Boris Johnson ou Farage, ter reunido com Gove, ter dito que Jeremy Corbyn é 'força negativa' e ter insinuado que se o trabalhista for primeiro-ministro os Estados Unidos iriam rever partilha de segredos de segurança? Este é um território quase nunca mapeado na geografia diplomática entre Washington e Londres.

São afirmações não usuais de um Presidente em exercício. Logo a seguir à eleição de Trump em 2016 - ano do referendo - houve lugar a um acolhimento caloroso na altura na Trump Tower a Nigel Farage e essa preferência de Trump nunca foi escondida. Apesar de tudo Trump não estava em funções na Casa Branca, mas naquele período após as eleições até à tomada de posse.

Neste momento Trump já é o Presidente dos Estados Unidos e realmente vai ao Reino Unido imiscuir-se na política interna britânica apoiando abertamente um dos lados e mostrando preferência explícitas ou implícitas por candidatos e afastando notoriamente Jeremy Corbyn, o líder do Partido Trabalhista, ou Sadiq Khan, Mayor de Londres.

Corbyn e Khan que também se envolveram erradamente aqui numa troca de polémicas com Trump que obviamente procura estes casos, porque a sua estratégia é a de gerar tensão política com assuntos que dividem polarizando reações entre a 'sua claque' e opositores. É a forma normal de atuação de Trump.

Trump a não deixar, em várias ocasiões, de criticar a estratégia de combate anti-terrorista de Londres ou o diferente tratamento com a China no caso do gigante Huawei.

O caso Huawei é outro ponto nas relações entre Londres e Washington a seguir para perceber a total amplitude de consequências e implicações, porque os Estados Unidos estão abertamente num braço de ferro com a China. O comércio e a tecnologia são as faces mais visíveis desse braça de ferro porque são ângulos chave para uma supremacia comercial, mas também político-militar. A China está também envolvida em tecnologia de ponta no esforço de domínio de indústrias cimeiras, aquelas que dão verdadeira vantagem económica e estratégica e a Huawei acaba por estar no centro do processo. Os países europeus pelo seu grau de envolvimento e relações comerciais e tecnológicas com a China também têm aqui uma posição delicada como vemos no caso britânico.

Neste caso o pano de fundo é composto pelo quadro das relações e tensões entre os Estados Unidos e a China sempre em evolução, numa dinâmica de novas medidas e retaliações de ambos os lados. Este é um ponto a seguir nos próximos tempos e que cairá nas mãos do próximo primeiro-ministro britânico seja ele quem for.

A visita de Trump terminou em Portsmouth nos 75 anos do desembarque aliado quando personalidades da dimensão de Eisenhower e Churchill lideravam. Agora os responsáveis por manter 'a relação especial' foram May e Trump. Até do ponto de vista simbólico há aqui uma mensagem poderosa?

Quando nos lembramos dessas lideranças e de todo o seu prestígio, obviamente em circunstâncias excecionais da Europa e do Mundo nessa época, temos aqui um contraste muito flagrante. Ao mesmo tempo podemos dizer que apesar de tudo este é o tipo de acontecimentos em que Donald Trump estará provavelmente mais dentro dos padrões. Trump gosta muito de cerimónias militares e de assinalar o que foi a presença norte-americana no mundo e o seu papel na segunda grande guerra e, por outro lado, este tipo de comemorações encaixa bem num certo perfil de Trump, um perfil que o aproxima mais do perfil de estadista convencional nesse aspeto particular.

A estatura dos vultos que estavam no poder na altura da II Guerra Mundial, se confrontada com a dos políticos actualmente no poder, aponta realmente para a existência de diferenças significativas. É evidente são tempos diferentes. Felizmente estamos agora em paz e não temos questões dramáticas e das tragédias humanas desse período, mas não deixa de ser um contraste curioso e flagrante em alguns aspetos.

Theresa May diz adeus esta sexta-feira e abre-se um período complexo até outubro. May tinha mesmo ultrapassado o ponto de não-retorno?

Theresa May não tinha outra saída face ao ponto a que a situação chegou. Há um momento, difícil de precisar com exatidão, mas talvez em Fevereiro naquelas votações sobre o acordo negociado com a União Europeia em que May esteve muito perto da possibilidade de ver o acordo passar. Nesse momento surgiam sinais políticos de que May poderia ter sucesso, adequando a pressão sobre diversas forças que a apoiam e o receio das outras de uma saída sem acordo, mas, como sabemos, isso não ocorreu. A partir do momento que se chegou ao primeiro alargamento do prazo por não se concretizar a data de 29 de março, Theresa May perdeu o controlo do processo.

Essa perda de controlo tornou-se visível no último mês e acabou por lhe retirar margem de manobra por toda aquela estratégia de pressão: 'ou o meu acordo ou a saída sem acordo'. Theresa May acabou por comprometer o seu grande trunfo e com toda o desgaste que vinha sofrendo a demissão acabou por ser uma consequência inevitável. Agora quem lhe suceder na liderança no Partido Conservador - e sem nenhuma excecionalidade não totalmente imprevisível - chegar também a primeiro-ministro do Reino Unido vai ter de enfrentar os mesmos problemas. Isso não pode deixar de ser assinalado.

Mesmos problemas, mas maiores riscos de “hard” Brexit se o vencedor tender a deslocar o Partido Conservador mais para a direita, até em função dos resultados das eleições europeias?

Provavelmente, a tendência será de virar à direita até porque o Partido Conservador para além do Brexit tem um problema sério: o de como estancar a sangria do seu eleitorado? Como voltar a atrair o eleitorado que é fundamentalmente conservador a regressar ao universo do Partido Conservador?

No imediato só o conseguirá com um candidato mais próximo desse particular universo eleitoral o que, naturalmente, leva a uma tendência de endurecimento de posições nas negociações com a União Europeia. Se isso vai resultar ao ponto de conseguir pressionar a União Europeia ao ponto de se obter um entendimento passível de passar politicamente no Reino Unido ou uma saída sem acordo é a grande questão a que vamos ter de estar atentos nos próximos tempos.

Dos candidatos quem merece maior favoritismo?

Nesta altura, Boris Johnson parece ter algum favoritismo. Johnson tem uma ambição clara de ser primeiro-ministro e grande parte do problema e da guerra interna no Partido Conservador contra May teve a ver com essa ambição. Não apenas de Boris Johnson, mas de forma notória no caso do ex-Mayor de Londres. Ao ponto de Johnson reclamar um quase um 'direito natural' de ser candidato por ter feito campanha pelo Brexit, mas não será de todo surpresa o surgimento de uma espécie de 'terceira via'. Mas lembro o que se passou quando David Cameron se demitiu e depois apareceu Theresa May, quando não era uma das hipóteses mais óbvias de sucessão de Cameron.

Pode voltar a acontecer um processo em que os candidatos mais evidentes - Johnson ou Gove - se anularem num jogo de alianças e contra-alianças e aparecer um terceiro. Não sei se será esse o cenário, mas talvez o facto destas eleições estarem muito próximas no calendário possa ser um, fator a beneficiar Boris Johnson por não deixar muito tempo a que outras alternativas se preparem e ganhem consistência.

Mas insisto: há aqui uma dose razoável de imprevisibilidade em todo este processo como se tem visto desde 2016. Desde a demissão de David Cameron que temos visto uma série de situações - quer no Partido Conservador ou na política britânica em geral - que jamais teríamos antecipado.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.