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Holandesa de 17 anos não foi eutanasiada, mas morreu depois de recusar alimentação

05 jun, 2019 - 11:26 • Redação com Ecclesia

Noa Pothoven disse que queria morrer porque não aguentava o sofrimento causado por abusos sexuais que começaram aos 11 anos e uma violação aos 14. As notícias iniciais indicavam, erradamente, que tinha sido eutanasiada.
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A holandesa Noa Pothoven, de 17 anos, não foi eutanasiada, mas morreu depois de vários dias a recusar alimentação, hidratação e assistência médica.

A jovem, que sofria de graves problemas psicológicos depois de ter sido vítima de vários casos de abusos sexuais, tinha tomado a decisão de morrer, mas o seu pedido de eutanásia foi recusado.

Confrontada com a recusa, Noa, que já tinha sido hospitalizada dezenas de vezes, chegando a ser colocada em coma induzido para ser alimentada à força, via sonda, voltou a deixar de comer e de beber.

Desta vez a família e os médicos decidiram não a internar e respeitaram o seu desejo de não ser alimentada à força. Recebeu cuidados paliativos e acabou por morrer na terça-feira, em casa.

Uma primeira vaga de notícias deu a indicação de que Noa tinha sido eutanasiada, o que afinal não se verificou. A recusa de tratamento médico não constitui eutanásia. Embora seja debatido entre especialistas se a hidratação e a alimentação devem ser considerados tratamentos médicos, neste caso foi a própria que os recusou. Assim, o debate ético em torno deste caso situa-se em saber se a jovem deveria ter sido internada forçadamente para ser alimentada, ou não.

O Vaticano reagiu à morte através de uma nota da Academia Pontifícia para a Vida, mas esta terá sido escrita com base nas notícias que falavam de eutanásia. “A morte de Noa é uma grande perda para qualquer sociedade civil e para a humanidade. Devemos sempre afirmar as razões positivas da vida”, refere a nota.

"Senti dor todos os dias"

Noa tinha sido abusada aos 11 anos, numa festa de um colega de escola. Aos 12, noutra festa de adolescentes, voltou a ser abusada. Aos 14 anos, foi violada por dois homens no bairro de Elderveld, em Arnhem, onde vivia.

Na sua autobiografia explica o que sentiu durante todos estes anos. "Senti medo, senti dor todos os dias. Sempre assustada, sempre alerta. Até hoje, sinto o meu corpo sujo. O meu corpo foi invadido e isso nunca poderá ser revertido."

Fez tratamentos psiquiátricos, consultou vários médicos e esteve internada em diversas clínicas e hospitais. Era vítima de uma depressão profunda, provocada por stress pós-traumático, e deixou de se alimentar e o seu corpo quase entrou em falência. Foi colocada em coma induzido e alimentada artificialmente.

Tentou várias vezes o suicídio e de várias maneiras.


Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre este tipo de problemas, não deixe de contactar um médico especialista ou um dos vários serviços e linhas de apoio (gratuitas), como a Saúde 24 (808 24 24 24), o SOS Voz Amiga (800 209 899), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o S.O.S. Adolescente (800 202 484).


[Notícia corrigida às 13h06, retirando referências à eutanásia]


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  • Vida
    06 jun, 2019 10:30
    Forçar alguém a viver, ignorando o seu sofrimento físico e psicológico, não é compaixão nem amor ao próximo: é egoísmo puro. O egoísmo de achar que as vidas dos outros têm de caber nas nossas ideias. Quem não concorda com a eutanásia pode simplesmente não a praticar, mas não pode decidir sobre a vida de terceiros. A eutanásia é um direito individual, de cada um. Ninguém gosta mais da sua vida do que o próprio. A natureza e o instinto de sobrevivência assim o determinam. Se o grande zelador da sua própria vida decide terminá-la, não pode haver ninguém (médico ou legislador), com autoridade falsamente imputada, que o possa decidir.