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Entrevista

Papa Francisco foi alvo de 77 fake news. “São armas de guerra não convencionais”

29 mai, 2019 - 17:30 • Ângela Roque

Autor do livro “Fake Pope”, sobre as notícias falsas acerca do Papa Francisco, diz que o papel dos jornalistas nunca foi tão necessário e importante como hoje. Em entrevista à Renascença, Nello Scavo fala da manipulação informativa, que está a “envenenar a democracia”. E elogia os media portugueses, pelo olhar atento e abrangente que têm da atualidade.
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Repórter internacional e correspondente de guerra, o italiano Nello Scavo tem colaborado com jornais e canais de televisão de referência, como o New York Times, o Le Monde, o El Mundo, a BBC ou a CNN. Em 2013, quando Bergoglio foi eleito Papa, foi a Buenos Aires investigar se tinham razão de ser os rumores sobre a sua colaboração com as ditaduras sul-americanas. Dessa investigação resultou o livro “A lista de Bergoglio” (2014), e ainda ‘”Os inimigos de Francisco” (2015) e “Perseguidos” (2017). Em fevereiro de 2019 recebeu o Prémio Emilio Rossi (proposto pelo Dicastério para a Comunicação do Vaticano, entre outros organismos) pela “informação que respeita a verdade”.

O seu mais recente livro “Fake Pope”, publicado em Portugal pela Paulinas Editora e que reúne 77 notícias falsas publicadas ao longo do pontificado de Francisco, vai ser apresentado esta quinta-feira, em Lisboa, no auditório da Renascença, na sessão com que a Igreja portuguesa assinala o Dia Mundial das Comunicações Sociais, a partir das 17 horas.

A importância do jornalismo e os perigos das falsas notícias foram o mote desta entrevista à Renascença.

Está em Portugal para apresentar o livro “Fake Pope”. Há muitas fake news a envolver o Papa?
Há muitas notícias falsas sobre o Papa, e este livro recorda algumas, que consideramos as principais. E agradeço à Paulinas Editora, porque é um livro que é preciso ter coragem para publicar.

Porquê?
Porque é incómodo, até para alguma hierarquia da Igreja, como vimos quando foi editado em Itália. Mas, penso que é um livro necessário, porque permite compreender melhor os obstáculos que o Papa Francisco está a encontrar, e sobretudo quem quer e porque quer dificultar e atingir Bergoglio.

Faz aqui um resumo de várias notícias que têm circulado, mas também de imagens.
Sim, incluímos algumas fotografias, também para aligeirar o tom geral do livro, que é um livro sério, mas com ironia também. Algumas fotografias fazem-nos sorrir, mas também devem fazer preocupar, porque embora sejam fotos claramente falsas, disso ser evidente, continuam a circular na internet, utilizadas sobretudo por alguns grupos que são contra o Papa Francisco. E demonstramos como algumas fotos falsas podem ser úteis quando se quer fazer passar uma mensagem negativa.

Em português dizemos que uma mentira dita muitas vezes passa a ser verdade.
E é isso que tem acontecido muitas vezes em relação ao Papa Francisco. Recordamos, por exemplo, um dos primeiros episódios, quando se disse que o Papa sofria de um cancro no cérebro, e ao longo de vários anos isso foi utilizado para dizer que algumas das suas decisões eram erradas porque ele tinha um problema na cabeça. Uma mentira repetida muitas vezes, torna-se uma verdade. Falsa, mas uma verdade que serve, neste caso, para atacar o Papa, e sobretudo a sua mensagem.

O livro resume muitas fake news envolvendo Bergoglio, antes e depois de ser Papa. Qual foi o caso mais grave?
Este que referi não foi o caso mais grave, mas foi um dos primeiros casos. Na realidade, a primeira fake news contra Bergolglio tem 40 anos, foi quando foi acusado de ser cúmplice da Junta Militar na Argentina. Fizemos uma investigação jornalística, que em Portugal também foi publicada em livro, pelas Paulinas, que se chamava "A Lista de Bergoglio", em que demonstrámos como essa foi uma mentira construída contra ele, e que teve responsáveis.

Os autores dessas fake news foram muitas vezes grupos políticos internacionais, entidades financeiras, bancos, traficantes de seres humanos e até de armas de guerra. Isto deve fazer-nos preocupar, porque mostra como estes poderes fortes querem moldar a ação do Papa, caluniá-lo. Por outro lado demonstra que provavelmente Bergoglio está na direção certa, porque está a enfrentar interesses que não querem ser tocados.

Mas, o Papa tem sabido reagir a estas fake news?
Não sabemos. Muitas vezes reage sorrindo às notícias falsas que circulam. Creio que ele faz a distinção entre as notícias falsas contra a sua pessoa - em relação a essas creio que tem um total desinteresse -, e as que são postas a circular, muitas vezes por interesses políticos internacionais, para atingir a sua mensagem.

Um Papa que procura dialogar com outras religiões, que procura reunir os cristãos numa casa única, que não tem medo de dizer que vivemos numa sociedade em que os ricos são cada vez mais ricos e fortes, é um Papa incómodo. É portador de uma mensagem que incomoda, mas que põe no centro o Evangelho.

Mas o público, os consumidores de informação, já sabem distinguir melhor a verdade da mentira? Ou com as redes sociais, como o facebook, aumentaram os riscos e vivemos um período cada vez mais perigoso?
Estamos num período muito perigoso, porque muitas pessoas substituíram o jornalismo, e os jornalistas não se aperceberam a tempo desta revolução. É uma mentalidade que reduziu a credibilidade dos jornalistas.

Hoje há cada vez mais pessoas que se informam sem confirmar se a fonte é verdadeira ou falsa. Tem havido uma grande operação de descrédito dos jornalistas, por parte de quem tem interesse em manipular a opinião pública, sem que haja mediação dos jornalistas. O resultado é o que vemos tantas vezes, até durante campanhas eleitorais. Basta ver o voto recente nas europeias, em países como Itália, para ver como as falsas notícias podem alimentar o consenso a favor de alguns grupos.

Isso está a pôr em risco a democracia, como a conhecemos, na maioria dos países?
Claramente, sim. E é uma luta difícil, porque este é um tema subvalorizado, o das informações falsas. Na guerra dizemos que a primeira vítima é a verdade. Então, se nas nossas democracias a verdade é vítima, como na guerra, podemos dizer que vivemos numa época de conflito sem armas convencionais. As notícias falsas tornaram-se uma arma não convencional de guerra, e as nossas democracias tornaram-se mais frágeis e menos maduras do que pensávamos que fossem.

Nesse sentido, a responsabilidade dos jornalistas é hoje maior que nunca?
Penso que os jornalistas hoje são mais importantes e necessários do que no passado. Houve um altura em que os jornalistas eram os que contavam as notícias, porque viajavam, relacionavam-se com o mundo. Hoje, todos acham que podem dar notícias, e temos excesso de informação. Somos quotidianamente metralhados, minuto a minuto, com grandes quantidades de informação. Mas, de que serve, se não se faz a seleção do que se recebe, se não se verifica nem distingue o verdadeiro do falso? Os jornalistas sabem fazer isso, cruzar dados.

Quando se diz que uma borboleta que abre as asas na China pode provocar um tufão nos Estados Unidos, é um pouco o que acontece com a informação. Há acontecimentos longe de nós, que não percebemos logo que podem ser importantes para nós, e compete aos jornalistas explicar que aquilo que acontece longe da nossa casa nos pode afetar e atingir. O tema dos migrantes, por exemplo, de que o Papa fala sempre, demonstra isso mesmo. Não nos preocuparmos com os conflitos, nem como o modo como os países ocidentais intervêm nas zonas pobres do mundo, não significa que isso não venha bater à nossa porta.

Que conselhos deixa aos jornalistas portugueses, e ao público que consome informação?
Acho que o jornalismo português pode ensinar muito ao jornalismo europeu, porque a imprensa portuguesa, até pela sua tradição e pela sua história, desde o tempo das colónias, está habituada a olhar e a relacionar acontecimentos em vários continentes.

Portugal é um país que está a ser cada vez mais estudado na Europa, pela forma como conseguiu enfrentar a crise económica, que não é só económica, também é social e cultural. Então, o conselho que deixo aos jornalistas portugueses é que estejam cada vez mais atentos ao jornalismo internacional, e vice versa. E que os jornalistas portugueses possam mostrar ao jornalismo europeu que é preciso dar atenção às falsas notícias que podem envenenar a democracia.

Este é um livro que os jornalistas portugueses devem ler?
Penso que sim. Com esta investigação jornalística quisemos dar um passo em frente e oferecer, não só às comunidades cristãs, um instrumento de debate, de informação a todos os que queiram confrontar-se com este tema.

Diz na introdução que “este livro não é uma obra apologética” do Papa. Receia que possa ser entendido assim?
Naturalmente, quem construiu as fake news pode dizer que este livro foi feito para transformar Bergoglio num santo. Mas, penso que é um livro necessário, porque é um instrumento que pode chegar a todos. Não é uma peça jornalística clássica, mas está feito de modo a que todos percebam quais são os riscos, e o que está em jogo neste momento quando se decide atacar o Papa Francisco.

Procurámos não personalizar muito os ataques à figura do Papa, para fazer entender que quando se ataca Bergoglio, o que se quer é atacar o que tem feito. É um pouco como querer atacar a árvore para que não dê fruto. É o que está acontecer com Francisco, que no entanto continua a encontrar solidariedade e encorajamento, dentro e fora da Igreja.

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  • me too
    30 mai, 2019 18:43
    Não há «fakes». Há isto: Reconhecer a verdade é uma questão moral. A verdade é o que é, e vale por si. E, se a verdade julga a minha vida, se me obriga a mudar os meus comportamentos, se diz que eu estou mal e que preciso de passar a estar bem, então tenho que mudar os meus comportamentos, tenho que deixar de estar mal, tenho que passar a estar bem. A verdade vale por si. A verdade não é boa porque me confirma, não é boa porque me convém, não é boa porque me deixa estar aonde eu estou. A verdade é boa porque é verdade, e é bom para mim — e para todos — reconhecer a verdade. Se para reconhecer a verdade preciso de dar uma completa volta na vida, darei uma completa volta na minha vida. Pe. João Maria Felix Seabra. In Directo ao Assunto. 2001