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Publicadas cartas privadas de McCarrick, o ex-cardeal afastado por alegados abusos

28 mai, 2019 - 16:26 • Filipe d'Avillez

O padre Anthony Figueiredo disponibilizou documentação que indica que o então arcebispo de Washington estava a par das restrições impostas pelo Vaticano e que estas foram sendo ignoradas ao longo dos anos.
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O ex-secretário e amigo pessoal de Theodore McCarrick publicou esta terça-feira um relatório com excertos de correspondência privada do agora ex-cardeal que permitem compreender melhor as restrições a que terá sido sujeito por parte do Vaticano.

McCarrick é acusado de abusar sexualmente de adolescentes e de ter mantido uma rede de jovens seminaristas e padres com quem mantinha relações homossexuais. As alegações tornaram-se públicas no verão do ano passado e levaram à queda em desgraça do homem que chegou a ser um dos mais influentes clérigos nos Estados Unidos, enquanto arcebispo de Washington.

Já reformado da arquidiocese de Washington, McCarrick remeteu-se ao silêncio e a uma vida de oração e penitência. Pediu para ser retirado do Colégio Cardinalício e mais tarde foi laicizado pelo Papa Francisco, a mais dura pena canónica a que um sacerdote pode ser sujeito, salvo a própria excomunhão.

No escândalo que se seguiu às revelações sobre McCarrick, uma das questões que se levantou foi sobre quem já sabia do seu comportamento e o tinha encoberto. O Arcebispo de Washington, cardeal Donald Wuerl, apressou-se a dizer que de nada sabia, mas mais tarde resignou como arcebispo da capital americana, alegadamente para facilitar a recuperação da credibilidade da Igreja.

Surgiu também a informação de que McCarrick tinha sido sujeito a uma série de restrições por parte do Vaticano durante o pontificado de Bento XVI, tendo sido alegado que estas tinham sido levantadas pelo Papa Francisco, que tinha reabilitado o clérigo. Esta ideia foi avançada pelo ex-núncio apostólico nos Estados Unidos, o arcebispo Viganò, numa carta aberta em que pediu a demissão do atual Papa.

Restrições existiram

Os documentos publicados agora pelo padre Figueiredo, que a Renascença leu na íntegra, parecem comprovar que as restrições existiram e que eram do conhecimento de Wuerl e da representação diplomática da Santa Sé nos Estados Unidos.

O então cardeal McCarrick diz que as recebeu numa carta do Cardeal Giovanni Battista Re, então prefeito para a Congregação dos Bispos. Numa carta dirigida ao então núncio Pietro Sambi, de 25 de agosto de 2008, McCarrick recorda uma reunião em que este lhe deu a carta do cardeal Re e comenta: “tendo estudado a carta do Cardeal Re e tendo-a partilhado com o meu arcebispo [Wuerl], juro que tentarei sempre ser um bom servo da Igreja, mesmo que não compreenda os seus desejos para a minha vida. Claro que estou disposto a aceitar o desejo do Santo Padre a meu respeito”, diz McCarrick, comprometendo-se a procurar um novo sítio para viver e a não viajar sem a autorização prévia da Santa Sé.

Na semana seguinte McCarrick escreve ao cardeal Tarcisio Bertone para o pôr a par da sua situação e tenta esclarecer algumas das acusações de que era alvo, nomeadamente de que tinha tido relações sexuais com seminaristas. “Reconheço, sim, que numa situação em particular tive uma infeliz falha de juízo. Sempre considerei os meus padres e seminaristas como parte da minha família, e tal como já partilhei uma cama com primos, tios e outros parentes, sem pensar que isso fosse algo de condenável, também o fiz numa ocasião em que a Casa de Verão da diocese estava cheia. Nunca houve menores envolvidos, eram homens na casa dos vinte e trinta anos”, diz, acrescentando mais tarde que “nunca tive relações sexuais com ninguém, homem, mulher ou criança, nem procurei fazê-lo”.

Na verdade, múltiplas testemunhas que surgiram no ano passado comprovam que McCarrick teve, de facto, relações homossexuais com vários homens, a quem encorajava a chamarem-lhe “tio Ted”.

Letra morta

Apesar de as cartas confirmarem que existiam restrições que impediam McCarrick de viajar ou ter compromissos públicos sem a autorização prévia da Santa Sé, a correspondência divulgada por Figueiredo, que ajudava o ex-cardeal quando este estava em Roma, fazendo a ligação com altas figuras da Igreja e traduzindo documentos para italiano, mostram que aos poucos estas restrições passaram a ser letra morta. Ainda durante o pontificado de Bento XVI vemos McCarrick a começar a viajar com cada vez mais frequência, que continua a aumentar durante o pontificado de Francisco.

As viagens multiplicam-se e incluem zonas sensíveis, como a China, onde McCarrick parece apostado em contribuir para uma aproximação entre o regime e a Igreja através de uma diplomacia informal.

Durante este período encontra-se pessoalmente tanto com Bento XVI como com o Papa Francisco e mantém um diálogo aberto com a nunciatura, utilizando a mala diplomática para enviar correspondência para Roma.

O Papa Francisco já disse que, havendo restrições impostas pelo Vaticano, ele nunca foi informado e nada nesta nova documentação permite colocar isso em dúvida.

No seu texto, o padre Anthony Figueiredo – cujo nome tem origem na antiga índia portuguesa – diz-se fiel ao Papa Francisco, como já fora antes a Bento XVI e confessa que foi motivado a revelar o que sabe depois de ler o recente motu próprio do Papa “Vós sois a luz do mundo”, que reforma a resposta jurídica da Igreja perante casos de abusos sexuais.

“Como sacerdote ordenado pelo então arcebispo McCarrick, e tendo-o servido com proximidade, penso muitas vezes sobre a quantidade de danos ao bem-estar físico, psicológico e espiritual de tantos poderiam ter sido evitados caso as restrições tivessem sido tornadas públicas e aplicadas mal foram impostas”, escreve.

O padre, ordenado há precisamente 25 anos por McCarrick, admite ainda que também sofreu os efeitos de ter participado numa cultura de encobrimento, o que no seu caso resultou num vício de álcool. Em 2018 Figueiredo foi apanhado a conduzir sob o efeito do álcool no Reino Unido e desde então tem participado num programa que, diz, “tem-me permitido abraçar uma vida de sobriedade”.

“O meu desejo é de que a minha experiência contribua para uma nova cultura na Igreja – uma cultura em que nenhuma vítima, nova ou velha, nenhum padre ou seminarista, nenhum religioso ou superior, nenhum bispo ou núncio sinta medo de dizer a verdade”, conclui.


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