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Loures

​Quando a solidariedade mobiliza uma comunidade escolar

28 mai, 2019 - 12:47 • Ana Rodrigues

Kelves, de oito anos, veio de São Tomé para Lisboa para ser operado a um tumor no cérebro. Ficou cego e com mobilidade limitada. Se não fosse a ajuda dos professores, pais e funcionários da EB de Loures, não tinha como permanecer em Portugal com a mãe para continuar a receber tratamentos.
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Oiça a reportagem de Ana Rodrigues sobre a ajuda ao menino Kelves
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Há um provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia para criar uma criança”. Neste caso tem sido uma escola e muitos amigos a tomar conta de Kelves Moreno. Natural de São Tomé e Príncipe, o menino de oito anos chegou a Portugal em agosto de 2018, ao abrigo de um protocolo de saúde que existe com países africanos de língua oficial de portuguesa. A situação em que a família ficou está a gerar uma onda de solidariedade, que começou na Escola Básica de Loures.

Kelves veio para ser operado a um tumor no cérebro. A cirurgia tirou-lhe a visão e a mobilidade, mas não a alegria e a força de viver que já passou os muros da escola.

“É um miúdo que tem uma alegria dentro dele”, conta à Renascença o professor de educação física Nelson Antunes, um dos dinamizadores do apoio que a escola está a prestar ao pequeno Kelves e à mãe. Apoio financeiro e não só. A ajuda dos colegas tem sido fundamental para a recuperação e a música também.

“Ouvir música e comer são os prazeres que ele tem. Para fazer qualquer exercício tem que haver música. Faz todos os exercícios, adaptados, mas faz. Acaba por ser quase uma fisioterapia e os colegas são todos amigos e estão sempre disponíveis para estar lado a lado com ele, para o ajudar”, sublinha o professor, que o considera “um exemplo”.

“É um lutador, e é um exemplo para todos os que o rodeiam. Nós queixamo-nos muito de problemas… ele sim, tem um problema. Ficou invisual e agora até tem a mobilidade do lado esquerdo afetada, mas a alegria e o sorriso com que continua a viver e o que transmite, abafa qualquer problema que a gente possa ter”, acrescenta aquele responsável.

Há falta de coordenação das entidades competentes”

Susana Teixeira, coordenadora da EB de Loures, conta como professores, alunos e pais se mobilizaram. As idas ao hospital Dona Estefânia e IPO não têm conta. Tiveram de procurar casa para a família, emprego para a mãe e tratar dos papéis da legalização, porque a mãe viajou com visto turístico, que só dá para 90 dias. Um mundo de burocracia que tem impedido o menino de viver melhor.

“Sentimos que havia ali uma grande desumanidade e uma grande falta de coordenação das entidades competentes. Percebemos que o Kelves e a mãe estavam completamente sozinhos, sem condições algumas, nem alimentares, nem de saúde, que havia ali uma lacuna e a mãe não era capaz de dar a volta, porque efetivamente tinha um filho naquelas condições e tinha que esperar por esse filho em casa, todos os dias. Porque ter um filho invisual não é mesma coisa que ter um filho que vê normalmente. E esta mãe está sozinha”, sublinha.

Na escola, Kelves diz que “é muito feliz”. Chegou mesmo a dizer, contam os professores, que não queria ir para casa no final do dia, o que gerou desconfiança e os levou a querer conhecer o local onde o menino vivia. A cave minúscula, sem janelas, onde a água escorria pelas paredes, revoltou os professores, que se lançaram na procura de outro lugar para instalar a família.

“A partir do momento em que encontrámos casa percebemos que as exigências eram superiores e era preciso muito mais do que aquilo que contávamos. Efetivamente juntou-se a nós a comunidade educativa, onde pais, funcionários, amigos, amigos de amigos, assistentes sociais, a câmara municipal. Reuniu-se um grupo de boa gente que percebeu esta necessidade e se juntou a nós para conseguirmos dar as condições mínimas àquela família”, explica Susana Teixeira.

Um caso “chocante” que “espelha a realidade” em tantos outros países

Entre os dinamizadores da onda de solidariedade está Isabel de Santiago, embaixadora da boa vontade para causas sociais da Cáritas em São Tomé e Príncipe. A portuguesa, investigadora em saúde, considera “revoltante” que o Estado são tomense não dê apoio às mães com filhos doentes que estão a ser tratados em Portugal.

“São abandonados à sua sorte, mães e filhos. Muitas vezes as embaixadas não cumprem o seu papel, mas quando estas pessoas têm necessidade não pode ser o Estado português em exclusivo a receber e tratar estas pessoas, também é dever do Estado de proveniência, no caso São Tomé e Príncipe, dar uma ajuda”, refere à Renascença.

Como Kelves há muitas outras crianças e adultos que chegam a Portugal para tratamentos médicos, mas que acabam abandonados, e a contar apenas com a solidariedade dos portugueses. Neste caso concreto a ajuda pode ser dada através da conta bancária da associação "Amparo da Criança", gerida por frei Fernando Ventura.

Para o conhecido frade franciscano, que há vários anos desenvolve projetos de apoio a São Tomé - como o do "Banco de Leite" – este é um caso “chocante”, mas é um entre muitos e espelha a realidade que se vive noutros países africanos.

“São Tomé tem as dificuldades que tem, os processos burocráticos nem sempre são fáceis de gerir, mas oxalá fosse só São Tomé. Infelizmente temos tantos outros casos, de tantas outras crianças e pessoas adultas, que chegam dos PALOP a Portugal, e ficam em situações de muito aperto e necessidade”, conta Fernando Ventura.

A corrente de ajuda tem ganho força. Professores, pais e amigos continuam a garantir casa e comida a Kelves e à sua mãe, Alecsandra. O menino, que na semana passada foi submetido a nova cirurgia, continua a lutar pela vida.

Só as despesas com renda e contas correntes rondam os 350 euros mensais. Os donativos podem ser depositados na conta da associação "Amparo da Criança". Quem o fizer deve colocar em referência “Ajuda ao Kelves” e enviar um email comprovativo para geral@bancodeleite.pt e isabeldesantiago@medicina.ulisboa,pt

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