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Cine-turismo. Como o cinema pode atrair turistas para um destino

22 mai, 2019 - 10:00 • Ana Carrilho

Portugal começa “finalmente” a perceber o potencial de investir nas produções cinematográficas.
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Em 2017, 80 milhões de turistas escolheram o seu destino de férias por influência de uma série ou de um filme. Segundo as estatísticas da Organização Mundial de Turismo, este valor representa mais de 6% dos turistas a nível global.

Estes são alguns dos dados apresentados ontem no Fórum de Turismo Interno, “Vê Portugal” que decorre em Castelo Branco, durante o debate sobre o Turismo Cinematográfico.

“As séries estão feitas para vender destinos, mais ainda que os filmes, porque o efeito de repetição, mas alargando sempre mais o conhecimento sobre a região, cria novas ligações emocionais. Quando termina uma série, se teve o propósito de promover um destino, não sai da cabeça do cinéfilo. Se gostou da série, a pessoa quer conhecer o local”, explica Francisco Dias, professor do Instituto Politécnico de Leiria e diretor do Festival Art&Tur, em entrevista à Renascença.

Os motivos até podem não ser positivos. Francisco Dias dá como exemplo as séries e filmes que descrevem a violência nas favelas do Rio de Janeiro. “Aumentaram a curiosidade dos turistas e transformaram-se num destino turístico”, mas também pode ser um “bom clássico”, como a Música no Coração”, estreado em 1965. “Meio século depois, mais de 350 mil pessoas revelaram num inquérito que o filme tinha sido a principal motivação para quererem ir a Salzburgo”. Por cá, a Livraria Lello e o Café Magestic, no Porto “ganharam maior notoriedade turística” pela associação a Harry Potter, como fonte de inspiração da escritora J. K. Rowling para o primeiro livro da série, “Pedra Filosofal”. Embora não baste a referência, “são necessárias outras condições porque alguns – como os referidos – são locais únicos”, refere o cinéfilo Francisco Dias.

O cinema e as séries de televisão geram muito dinheiro

As grandes produções cinematográficas geram muito dinheiro, com benefícios claros para os sítios onde são rodadas. Francisco Dias explica que o dinheiro de uma grande produção é dividido em três partes: um terço para os atores, um terço para o marketing e publicidade e o último terço é para pagar a logística da produção: hotéis, carros, restaurantes, material, mão de obra especializada, como carpinteiros, eletricistas, técnicos. Quem beneficia são as empresas e a economia da região onde decorre a produção cinematográfica.

Por isso considera que é importante que os municípios percebam que esta é uma opção estratégica. “E ainda nem todas percebem. O licenciamento de filmagens tem que ser uniforme de um município para o outro e deve haver uma boa cooperação entre as autarquias e as Film Commissions regionais porque estamos todos a promover o território. E é preciso perceber que são as empresas de produção que escolhem onde vão filmar, não é a Film Commission que escolhe, só promovemos e facilitamos. Francisco Dias sublinha que é preciso agir em rede e não pensar de forma localista, aquilo a que chama “Municipalite”. “Ainda há muito no turismo e vamos ver, também, no cinema”.

Incentivos à produção cinematográfica em Portugal: Finalmente!

Para o diretor do Festival Art&Tur a política de incentivos à captação de produções de cinema e audiovisuais faz todo o sentido. “Finalmente! Só assim é que eles vêm; escolhem o país que lhes dá melhores condições. Espanha também tem muitas horas de sol, globalmente também é segura e tem bons recursos humanos. A Croácia e Grécia há muito tempo que aproveitam melhor que nós os recursos dos seus territórios para o cinema. Portugal só agora é que está a abrir os olhos, faz o que eles fazem”.

Por cada euro gasto em Portugal, os investidores recuperam 30 cêntimos, ao abrigo do Incentivo à Produção e Captação de Filmagens. No Fórum de Turismo “Vê Portugal”, organizado pelo Turismo do Centro, a vice-presidente do ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual – revelou que desde o ano passado houve cerca de quarenta candidaturas. “Neste momento há 36 milhões de euros confirmados de investimento em filmagens em Portugal relativos a 26 filmes, revelou Maria Mineiro”. E segundo a Secretária de Estado do Turismo, há mais 14 em análise.

Em conversa com os jornalistas, Ana Mendes Godinho manifestou-se muito entusiasmada com os resultados da promoção feita a semana passada em Cannes. “Mais de cem produtores e realizadores participaram num evento organizado pelo Turismo de Portugal e o ICA, em que foram apresentados o programa de incentivos e o novo organismo “Portugal Film Commission”. O objetivo é promover Portugal como destino de filmagens e agilizar os processos de autorização de produções estrangeiras em Portugal.

Um dos filmes que beneficiou do incentivo fiscal é “Frankie”, totalmente rodado em Portugal e candidato à Palma de Ouro. “Espetacular” foi a palavra usada pelo produtor Ira Sachs, que se mostrou preparado para vir filmar para Portugal outra vez, revelou Ana Mendes Godinho.

No painel sobre o Turismo Cinematográfico, o responsável pela Centro Portugal Film Commission, Bruno Manique, “levantou a ponta do véu” para dizer que em breve vai começar a ser produzido um filme na Região Centro, mais concretamente nos concelhos de Ferreira do Zêzere, Gouveia, Lousã e Guarda. A obra, a cargo do realizador Mark Lester, implica um investimento superior a um milhão de euros.

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