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Europeias 2019

Batidos, a nova arma política contra a extrema-direita?

22 mai, 2019 - 20:49 • Joana Gonçalves

Há um movimento em curso no Reino Unido. Desde o início do mês, foram registados quatro incidentes que envolveram políticos e candidatos ao Parlamento Europeu associados a movimentos nacionalistas de extrema-direita.
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Esta quarta-feira, Nigel Farage viu-se obrigado a refugiar-se num autocarro de campanha para evitar um ataque com batidos. O incidente decorreu durante uma visita em campanha para as eleições europeias, no condado de Kent, dois dias depois de ter sido atingido por um batido, em Newcastle.

O fundador e cabeça-de-lista do partido do Brexit respondeu ao incidente através da rede social Twitter, onde acusou alguns manifestante anti-Brexit de “radicalismo” e garantiu “ser impossível realizar uma campanha de forma normal”.

Também Tommy Robinson foi atingido duas vezes, em dois dias, por um batidos como forma de protesto. No dia 1 de maio, o fundador da Liga de Defesa Inglesa (The English Defence League [EDL]), um movimento de extrema-direita sediado no Reino Unido, estava em campanha para as eleições europeias na cidade de Warrington, quando foi alvo do primeiro ataque.

O episódio repetiu-se no dia seguinte, de forma mais explícita em Bury, uma cidade no norte de Manchester.

Carl Benjamin, candidato do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), foi também alvo da mesma forma de manifestação por duas vezes no espaço de uma semana.

No passado domingo, durante uma visita em campanha à cidade de Salisbury, o comentador político e youtuber foi atingido por um batido. A imagem do incidente, que tinha já acontecido no início do mês em Cornualha, soma mais de 10 mil gostos e duas mil partilhas.

Porquê um batido?

Paul Crowther, de 32 anos, foi o autor do protesto contra Farage, o mais célebre rosto da campanha a favor da saída do Reino Unido da União Europeia.

Questionado sobre o motivo que o levou a atirar um batido de banana e caramelo a Nigel Farage, Crowther respondeu com sarcasmo. “O fel e o racismo que ele [Farage] espalha por este país são mais prejudiciais do que um pouco de batido", afirmou em declarações às televisões locais.

Crowther garante não estar arrependido e diz ainda “que já esperava este momento”. “Não sabia que ele [Nigel Farage] ia visitar a cidade, pensei que esta seria a minha única oportunidade. Protestar contra pessoas como ele é um direito”, acrescentou.

Apesar de não ser um protesto violento, o objetivo destes ataques é humilhar o alvo. A partilha das imagens do incidente nas redes socias e vasto alcance que rapidamente atingem podem estar na origem da reincidência dos ataques. Paul Crowther foi entretanto detido e acusado de agressão.

Quem não procurou o mesmo tipo de atenção foi Danyaal Mahmud, o autor do primeiro ataque que rapidamente viralizou na internet, com mais de 18 mil partilhas, 70 mil gostos e 5 milhões de visualizações.

Em entrevista ao jornal britânico The Observer, o jovem de 23 anos garante que o incidente não foi premeditado, mas antes uma resposta à provocação do candidato nacionalista Tommy Robinson.

“A primeira vez que ele se aproximou de mim, perguntou-me se eu achava que ele era racista e eu disse: ‘sim’. Então ele [Tommy Robinson] respondeu: 'Sabias que 80% dos gangues são muçulmanos?' Ao que respondi: 'Essa é uma falsa estatística. Então e os pedófilos brancos?'”

Mahmud adiantou ainda que não tinha intenção de participar no protesto que decorria conta o fundador da Liga de Defesa Inglesa (The English Defence League [EDL]), mas foi antes convidado por um grupo de manifestantes presentes no local. O jovem afirmou, também, ter sido empurrado várias vezes antes de ter respondido com o arremesso da bebida que trazia na mão, um batido.

O vídeo que se tornou viral nas horas seguintes mostra, ainda, Tommy Robinson a agredir o jovem, que acabaria por passar quatro horas no hospital.

Apesar de ter iniciado um movimento em curso no Reino Unido e ao contráiro de Paul Crowther, Danyaal Mahmud não tinha intenção de despejar um batido sobre Robinson e garante ter recebido várias ameaças de morte, depois do incidente.

Um movimento em curso nas redes sociais

Esta segunda-feira e depois do último ataque, a Nigel Farage, a #Milkshake (#batido) ocupava o primeiro lugar nas tendências do Twitter, no Reino Unido.

Na mesma rede social já foi, também, criada uma hashtag para este novo movimento de protesto políticio: #splashthefash (salpicar o fascista).

No passado sábado, dia 18, a polícia pediu que não fossem vendidos batidos num McDonald's perto do local onde discursava Nigel Farage, em Edimburgo, na Escócia.

Em resposta à polémica, a cadeia de fast food Burger King publicou um tweet onde informava todos os clientes que a venda de batidos se mantinha por toda a semana. “Divirtam-se”, rematou a marca.

Comentários
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  • me too
    22 mai, 2019 19:44
    É obra! Ainda não há uma arma política contra a extrema esquerda.