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Entrevista ao Cardeal Luis António Tagle

"Fico triste quando oiço os europeus dizerem 'Somos uma velha igreja'"

21 mai, 2019 - 12:50 • Aura Miguel

É um dos cardeais mais jovens e afáveis do colégio cardinalício. Tem uma vasta experiência de Igreja, nas Filipinas e não só. Pertencer a uma minoria não o assusta. Em Manila, ensina teologia aos padres e religiosas de toda a Ásia e, além disso, também presido à Cáritas Internacional. Ingredientes que o colocam no topo da lista dos futuros Papas.
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Cardeal Tagle: “Fico triste quando os europeus dizem ‘somos uma velha igreja’”
Cardeal Tagle: “Fico triste quando os europeus dizem ‘somos uma velha igreja’”

Qual foi a sua experiência em Fátima?

É a quarta vez que venho a Fátima, mas foi a primeira em que participei nas celebrações de 12 e 13 de maio. Devo dizer que, durante a vigília da noite, interroguei-me: “O que estou aqui a fazer? Porque fui convidado para presidir a tão grande encontro? Eu não sou digno de estar aqui…”

A minha primeira experiência foi de humildade, ao olhar para os rostos simples das pessoas simples. De certo modo, isso envergonhou-me, porque pensei “esta gente talvez não saiba falar nem escrever com profundidade académica sobre Nossa Senhora ou Jesus Cristo, mas neles vemos sinceridade, especialmente nos que choram…” Quando a Imagem de Nossa Senhora passou, eu pensei: “Que lágrimas serão estas? Por quem choram? Será por alguém da família que está doente ou a sofrer, ou serão lágrimas de alegria por verem a Mãe?…” Para mim, foi a experiência de que Nossa Senhora garante aos seus filhos: “Eu estou aqui.”

Foi o que nos disse o Papa Francisco quando cá veio no centenário de Fátima, insistindo três vezes que “temos Mãe”.

Sim, é o coração da Mãe!

É pastor de uma igreja minoritária, na Ásia, mas com muitos milhões de católicos. Ou seja, a sua minoria é maior do que nós! (risos). Basta recordar os 5 milhões de católicos em Manila que acolheram João Paulo II e os 6 milhões que acolheram Francisco. Quais são os principais problemas que a Igreja enfrenta no seu pais?

O problema ou a situação mais óbvia é a pobreza da grande maioria das pessoas, na Ásia e nas Filipinas. Para nós, nas Filipinas, não é só uma situação triste, é também um escândalo, porque o país é rico em recursos naturais. Os nossos mares e oceanos podem alimentar as Filipinas e outros países. Temos bonitas florestas e rios e o próprio número dos filipinos: somos 110 milhões, ou seja, somos ricos também em recursos humanos e talentos. Por isso, não há razão para haver gente a quem falta resposta às necessidades básicas. Trata-se de um problema sistémico, mesmo para aqueles que trabalham sem parar, vão à escola, estudam e nunca descansam, parece existir uma barreira invisível que os impede de ir mais longe, enquanto outros podem ter acesso a mais…

E além deste problema estrutural, também vemos os efeitos ecológicos. Temos 20 a 22 tufões por ano!

Quando estivemos em Tacloban com o Papa Francisco, apanhámos uma tempestade e temia-se o pior…

Esse não foi dos tufões mais fortes. Eu disse ao Santo Padre: “Não tenha medo, isto é um tufão normal (risos), terá de voltar para ver um tufão de 250 Km/h…" Eu cresci nas Filipinas e, quando era miúdo, o tufão mais forte era de nível 3; agora chegam a atingir o nível 5. Podemos ver como as tempestades e os tufões são cada vez mais fortes e de alcance sempre mais alargado, o que agrava a pobreza das populações. Imagine um agricultor pronto para a colheita do arroz ou de legumes, vem o tufão e destrói tudo… e quando se vive num sistema estruturalmente deficitário, como é que o sistema pode apoiar pessoas que estão sempre em situação de emergência?

E quanto a sinais de esperança?

Ao mesmo tempo que vemos estes problemas, também vemos que a resposta vem de nós próprios. Estou muito grato pelo caráter dos filipinos. Têm resiliência. Nós comparamo-nos ao bambu: o vento sopra e vergamo-nos até abaixo, mas depois endireitamo-nos…

Não quebra…

Não quebra. Pode descer até muito baixo, mas quando o vento desaparece, volta a erguer-se. E, culturalmente, também somos um povo amável. Gostamos muito de cantar e de celebrar, talvez porque sofremos muito.

E os vizinhos como a China? O seu antecessor, o cardeal Sin, era muito entusiasta de Fátima e, quando cá veio, levou várias Imagens de Nossa Sra. de Fátima para as espalhar pela China. Mantém estes contactos?

Sim, sim. Todos os anos recebemos em Manila quatro grupos de padres e religiosas chineses. Cada grupo permanece dois meses em Manila, para formação permanente. É o resultado de uma relação que mantemos já há uns tempos. E não é só com Manila, mas também com outras grandes cidades, como Cebu ou Davao. Além disso, Manila e as Filipinas estão a tornar-se um centro de formação e educação na Ásia para seminaristas, sacerdotes, religiosas e também líderes leigos.

Quantos países recorrem à formação nas Filipinas?

Praticamente todos os países asiáticos mandam alunos. Neste momento, ensino teologia na universidade jesuíta e tenho alunos da Malásia, da Coreia, de Taiwan, de Myanmar, da Indonésia e até mesmo de África. E costumamos dizer: “Enquanto enviamos missionários para diferentes países da Ásia, eles também mandam outros para nós.” Deste modo, também cumprimos a nossa missão em casa (risos).

E com toda essa experiência, como olha para nós, velhos católicos da Europa, secularizados e mimados…?

Primeiro que tudo, queremos agradecer à “velha Europa”, porque muitas zonas da Ásia conheceram a fé e Jesus através de vocês.

Portugal também foi até lá…

Sim. E aquele que comandou a expedição espanhola até às Filipinas foi um português, Fernão de Magalhães! Embora tenha lá chegado com bandeira espanhola, era português…

Há quem diga que ele era um espião de Portugal…!

(risos) Não quero ir por aí, mas quero dizer o seguinte: os europeus, os cristãos da Europa, deviam agradecer sempre a Deus, porque vocês foram uma bênção para tantas zonas do mundo. Fico triste quando oiço os europeus dizerem “Somos uma velha igreja, estamos muito cansados, já não temos energia…” Mas vocês têm muitas memórias e contributos, lembrem-se disso.

Em segundo lugar, a vida muda: houve um tempo em que a Europa florescia em certos aspetos da vida e vocês partilharam isso em várias zonas do mundo. Agora, nessas mesmas zonas do mundo, é o contrário, por isso, nada se perde. Agora, venho à Europa e vejo imensos padres e religiosos, homens e mulheres da Ásia e da África, há uma troca de dons. Finalmente, a propósito de haver europeus mimados, parece-me que vocês se habituaram a serem cristãos, a serem maioria e até a presumir que todos seriam cristãos, mas as coisas mudaram.

Já não é mais assim…

Não é mais assim, mas na Ásia estamos habituados a ser minoria.

Imagino que os desafios sejam maiores, porque não se pode dar por adquirido o ser cristão…

Sim, é muito desafiante para os cristãos. Em muitas zonas da Ásia, os números não são a coisa mais importante. Aceitas o facto de seres uma pequena minoria, mas dás-te totalmente, mesmo que se trate de uma pequena comunidade ou pequeno grupo. Não tens tempo para estares deprimido por serem poucos. Se é a realidade, então dás o teu melhor.

É esse o conselho que também nos dá a nós?

Sim, sim.

Portanto, velhos católicos, mas ficar deprimidos…

Sim. E fiquem atentos às oportunidades que surgem, porque se ficamos deprimidos, podemos não reparar nas novas oportunidades e nas portas que se abrem.

Não lhe parece que toda esta sua experiência sobre fé e vida, vivida “fora do centro” e do Ocidente, é a razão pela qual o Papa Francisco o chama continuamente para falar nos grandes eventos que organiza no mundo? Encontramo-lo sempre lá a falar…

Não sei…não posso responder.

Na minha perspetiva, o Papa precisa que esta sua visão seja conhecida no mundo.

Provavelmente, ele quer que pessoas como eu e de outras partes do mundo, longe do “centro”, partilhem o que acontece, porque há muitas coisas a acontecer, para assim encorajar o centro. E também para reconhecer que talvez seja melhor mudar a linguagem, em vez de centro e periferias, pois onde quer que estejas, esse é o teu centro e, nesse centro, tens algo a partilhar com os outros. Pode ser pouca coisa, comparado com outros grandes eventos de fé, mas vale sempre a pena partilhar.

É também isso que faz…?

Na tarde do dia 13, fomos visitar a casa dos três pastorinhos e houve um português que ia a passar, que me reconheceu e me disse: “A luz de Fátima estará sempre consigo, acompanhá-lo-á sempre.” Quando ouvi aquilo senti-me consolado, pois quando me interroguei sobre o que estava ali a fazer, foi para que aquele homem desconhecido, um simples peregrino, me desse o sentido para estar ali e ouvir de alguém “Não te preocupes, Nossa Senhora não te abandona, Ela toma conta de ti. E não faças planos, Ela vem ao teu encontro.”

Já é cardeal há uns sete anos, porque foi feito cardeal, em 2012, pelo Papa Bento XVI. Li, algures, que o Papa Francisco costuma chamar-lhe “rapazinho”, por ter chegado a cardeal muito novo…

Ele chama-me sempre assim. Ainda antes de eu ser arcebispo de Manila e depois cardeal, tínhamos trabalhado juntos, o cardeal Bergoglio e eu, no sínodo dos bispos. Entre 2003 e 2008 encontrámo-nos regularmente, então, ele gracejava sempre e chamava-me “questo ragazzo”, 'este miúdo'. Depois, eu tornei-me cardeal e ele tornou-se Papa, mas manteve a mesma linguagem (risos)

Com toda esta experiência -- que é muita -- e sendo tão novo e amigável, como se pode confirmar nesta entrevista, está no top dos “papabile”...

Oh não!

Toda a gente diz…

Bem, isto é o que dizem: a pessoa que entra como Papa no conclave sai de lá cardeal. (risos)

Última pergunta: enquanto máximo responsável da Cáritas Internacional e com a sua experiência do que viu aqui na Cáritas em Portugal, que conselho dá aos portugueses?

Sabe, a Cáritas não é apenas uma atividade, é uma expressão da nossa identidade de cristãos e de igreja, é uma comunidade de trabalho. Sem a Cáritas, enquanto amor e comunidade, atenta às necessidades dos nossos pobres irmãos e irmãs que sofrem, a nossa identidade e missão como Igreja fraqueja, não está completa. Ou seja, não é só um trabalho a cumprir, é uma expressão da nossa fé. Por isso, vivamos a Cáritas, tal como escutamos a Palavra de Deus e celebramos a eucaristia.

Muito obrigada, Cardeal Tagle. E, tal como o peregrino que encontrou, também lhe desejo que a luz de Fátima o acompanhe sempre na sua vida.

Obrigado. E agradeço também o seu serviço à Igreja. Desejo-lhe mais viagens, para chegar às duzentas viagens papais!

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