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Escritor de “As Horas” vai acabar o seu novo livro em Cascais

15 mai, 2019 - 09:57 • Maria João Costa

Michael Cunningham está em Portugal para uma residência literária. Em mãos tem “uma grande confusão de romance”, ao qual espera dar ordem e acaba-lo por cá.
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Acabado de chegar a Portugal, onde irá passar os próximos dois meses numa residência literária, o escritor norte-americano Michael Cunningham diz trazer consigo “uma grande confusão de romance”. Em Cascais onde irá ficar instalado a convite da Fundação D. Luís I, o autor vencedor do Prémio Pulitzer em 1999 com o romance "As Horas", diz à Renascença que espera acabar o seu novo livro.

Com respostas muito diretas, com riso fácil, Cunningham conversou com a Renascença, na Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos, onde participou no Festival LeV – Literatura em Viagem.

O autor que gosta de dar aulas de escrita e que diz sobretudo ensinar os seus alunos a serem bons leitores, mostra-se preocupado com a atual situação política norte-americana. Cunningham fala do papel político de um escritor e afirma que não consegue “imaginar escrever ficção sem ter consciência política”.


Vai estar em Cascais, numa residência literária nos próximos meses. Irá trabalhar no seu próximo livro? que oportunidade representa para si este momento em Portugal?

É uma oportunidade fantástica e obrigada à Fundação D.Luis I e à Booktailors por me trazerem para aqui. Vou aqui estar dois meses, dois meses inteiros! Desejo aproveitar estes dois meses para pegar naquilo que tenho entre mãos que é uma grande confusão de romance e tentar torna-lo menos confuso.

Para um escritor é bom sair da sua zona de conforto, de casa, da sua realidade para poder escrever?

Absolutamente! Não consigo pensar em algo melhor. E esta viagem acontece no momento perfeito. Eu preciso mesmo de estar num lugar novo, onde não conheço muita gente, onde os e-mails e os telefonemas ficam à margem. Com alguma sorte vou aprisionar-me no meu estúdio em Cascais e vou trabalhar...ou vou ficar dois meses no meu estúdio e acabar com nada! (risos) nunca se sabe!!

Quer dizer que tem entre mãos um novo livro e precisa de organizar as ideias?

Sim, não posso falar por todos os escritores, mas para mim, o primeiro rascunho é algo bastante confuso e poucas pessoas o podem ver, porque é terrível! Espero torna-lo menos terrível nos próximos meses.

Há muito tempo que não publica um romance novo, entretanto mudou de editor no Estados Unidos.

Sim, mudei. Este será o meu primeiro livro na Penguin Random House. Obrigado Penguin Random House! Será um livro novo, uma nova relação, será tudo novo!

Aqui em Cascais vai também dar uma aula. Está habituado a dar aulas e gosta disso. O que podemos esperar?

Eu ensino literatura e escrita nos Estados Unidos. Adoro dar aulas. Sinto quando estou a ensinar escrita que estou na realidade a ensinar as pessoas a lerem. Não espero que a maioria dos meus alunos de escrita se transforme em escritores. A maioria deles não precisa de ser escritor. Graças a Deus a todos os que não querem mesmo ser escritores! Eu acho que quando se ensina escrita, espero, se esteja a ensinar algumas nuances da leitura. Se se perceber como funciona o processo, gosto de pensar que eles vão continuar como leitores mais esclarecidos.


"Sinto quando estou a ensinar escrita que estou na realidade a ensinar as pessoas a lerem"

O escritor é antes de mais um bom leitor.

Claro, não consigo imaginar ser um escritor e não ser leitor. Mas consigo imaginar ser leitor e não ser um escritor. (risos). Gosto de pensar e espero que o escritor possa explicar o que contém numa narrativa, como funciona. Gosto de pensar num latus sensus o que o escritor está a fazer.

Outro dos ingredientes de que é feito um escritor é a experiência e a vida. Mistura isso com as leituras?

Deixe-me por as coisas assim, havia uma escritora americana chamada Eudora Welty que disse que "não temos de escrever a partir da nossa experiência, mas não imagino escrever com verdade sobre uma emoção que nunca senti". Se estás a escrever algo biográfico, quer dizer que estás a escrever sobre a tua biografia emocional.

E qual é o seu gatilho para um livro? Cria as personagens primeiro ou a história?

Começo sempre com as personagens. É uma das coisas que dou nas minhas aulas. Muitos alunos dizem que têm problemas com a história. É o que mais ouço. Eu costumo dizer que isso quer antes dizer que tem problemas com as personagens, porque percebemos que personagens com desejos e segredos vão sempre criar a história.

A questão da família, e de todas as suas diferentes formas, é sempre um tema central nos seus livros.

É engraçado. Uma das coisas boas de já ter vivido algum tempo e de já ter escrito vários livros é verificar que há temas que estão presentes, mas não os iniciaste de forma consciente. Quando olho para trás para os livros, reconheço. Ali está, mas é inconsciente. Acho que uma pessoa que escreve um certo número de livros percebe um certo padrão que não viste quando começaste. As famílias são mais do que amizade. As famílias persistem onde muitas vezes a amizade falha.

O seu novo livro que poderá vir a acabar aqui em Cascais poderá vir a ser traduzido para português. Que relação tem com os seus leitores portugueses?

Claro, para os meus leitores portugueses. Eu quando escrevo tenho muita consciência deles e não posso ficar mais radiante dos meus livros serem traduzidos para português. Uma das coisas boas de viajar e vir a Portugal, onde já tive antes, é verificarmos que tenho leitores e que, não quero parecer vaidoso, mas que falo para pessoas a nível internacional.

Recordo-me numa entrevista que deu à Renascença há cerca de 5 anos falamos sobre a situação política nos Estados Unidos. Na altura estava muito preocupado. E agora? Há mais intolerância?

Estou muito mais preocupado do que há cinco anos. As coisas estão muito piores. A maioria de nós está muito preocupado. As coisas não estão mesmo no bom caminho. É um tempo terrível na América. É um tempo terrível em vários países. A extrema direita está a aumentar. Olhando para há 5 anos atrás, eu estou 10 vezes mais preocupado agora, tenho de ser franco.


"Não consigo imaginar escrever ficção sem ter consciência política, mesmo que o livro não seja diretamente sobre política"

A questão da intolerância é debatida?

Sempre, sempre! ultimamente não falamos de outra coisa, porque estamos muito preocupados por exemplo com o que está a acontecer com o ambiente com esta administração, sobre as crianças mexicanas em prisões na fronteira, falamos constantemente sobre isso e sobre como pode mudar.

Acha que irá mudar.

Espero. Mas uma das coisas que aprendemos nas eleições de 2016 é que não podemos contar com nada. Uma das coisas sobre as quais falo muito com os meus amigos é quem será o candidato democrata nas próximas eleições e quem é que pode tirar estas pessoas da administração.

Acha que um escritor pode e deve ter uma voz política?

Claro que sim! Ás vezes vejo escritores americanos a escreverem como se o sistema político não fizesse parte da sua vida e faz muito parte das suas vidas! Eu não consigo imaginar escrever ficção sem ter consciência política, mesmo que o livro não seja diretamente sobre política. Se se passa no nosso tempo, é inevitável que seja sobre a forma como a política e a economia está a moldar a vida das pessoas.

Os livros devem ser uma espécie de declaração de intenções. o seu próximo livro terá esse lado político?

Acho que sim, é parte do que irei fazer nos próximos dois meses é tentar integrar a parte política na narrativa.

Continua a ser um grande fã da Virgínia Wolf?

Sim, claro. Eu vivo apaixonado pela Virgínia Wolf toda a minha vida! Sou fiel a poucas pessoas, mas sou muito fiel à Virgínia!

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