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Casa de Chá de Coimbra. Uma casa com sabor a inclusão

14 mai, 2019 - 14:01 • Liliana Carona

Gerida pela Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Coimbra, a Casa de Chá é vocacionada para dar trabalho a pessoas com necessidades especiais ou vítimas de exclusão social.
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Reportagem de Liliana Carona sobre Casa de Chá de Coimbra com sabor a inclusão
Reportagem de Liliana Carona sobre Casa de Chá de Coimbra com sabor a inclusão
Clique na imagem acima para ouvir a reportagem na íntegra. Foto: Liliana Carona/RR

“Desfrute da serenidade e descubra os sabores da inclusão” é o mote da Casa de Chá, que existe em Coimbra desde 2008, em pleno coração da cidade, no icónico Jardim da Sereia.

É lá que, entre a vegetação densa e o som dos pássaros, ouvimos a voz doce de Mónica Velho: “Boa tarde, o que deseja? Se quiser temos empadas de pato, legumes e várias tostas”, diz a apontar para o menu, que traz sempre debaixo do braço juntamente com a bandeja reluzente.

Mónica, 33 anos, não pára um momento. O rodopio entre as mesas para atender cada cliente de forma personalizada é constante. Mónica tem síndrome de Down e, há um ano, encontrou o sonho de uma vida: um trabalho.

“Gosto de aqui estar, isto é calmo, e quero continuar a dar-me com toda a gente, sinto-me feliz, impecável, conheci aqui o meu namorado e quero continuar aqui até ao final da minha vida”, diz à Renascença.

Fala como se as palavras não fossem capazes de descrever o que sente. Mónica não foi a única a encontrar trabalho na Casa de Chá. Também Ricardo, que tem autismo, é empregado de mesa (não o pudemos entrevistar, porque estava de folga).

Nesta Casa de Chá, os direitos dos trabalhadores são respeitados, desde as folgas à remuneração justa pelas horas que ali passam. A Casa dá trabalho a pessoas com necessidades especiais e a outras que acabaram excluídas da sociedade, sem conseguirem apontar o motivo para a marginalização.

Delfim Garcia, 40 anos, está ao serviço. “Estou a fazer estágio de mesa e bar na instituição que me acarinhou. É tranquilo aqui, não há stresses." À nota positiva junta um lamento: "Não é fácil arranjar trabalho.”

A energia de Mónica contrasta com a calma de Delfim e com a melancolia da paisagem verdejante que nos rodeia na esplanada desta Casa de Chá, um projeto fundado em 2008 pela APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental).

Aline Santos, 33 anos, socióloga, é o rosto da casa. À Renascença, explica como nasceu o projeto. “Resultou de uma parceria entre a APPACDM e a Câmara, que cede o edifício, que era a antiga casa do guarda do Jardim de Sereia, e nós fazemos a gestão”, explica, acrescentando que o objetivo da empresa é a inclusão social.

“O principal objetivo é ser um projeto de integração profissional, porque dificilmente estas pessoas conseguem emprego noutro sítio. Acaba por ser um sonho, porque não é só dar emprego às três pessoas que aqui trabalham, mas é mudar a perceção dos clientes relativamente às capacidades profissionais das pessoas com deficiência”, enaltece.

E afinal qual é a perceção dos clientes? Ananda Carvalho, 28 anos, aluna de doutoramento no Centro de Estudos Sociais, faz questão de almoçar na Casa de Chá.

“Faz-me sentir que estou num lugar ainda mais especial. Percebo que aqui não tem a correria dos outros lugares, eu gosto da tranquilidade daqui”, refere, salientando que na própria ementa está uma pequena apresentação de cada um dos profissionais que ali trabalham, inteirando o cliente do projeto. Mónica interrompe: “Estava tudo bom? E a empadinha, estava cinco estrelas?”. Ananda confirma o que Mónica anseia ouvir: “Estava tudo gostoso.”

Aqui é feito um atendimento diferente, e o responsável da equipa, João Silva, 23 anos, não olha para o relógio. “As pessoas confundem-se, porque não estão a ser atendidas tão rápido como noutro café. Aqui o atendimento é mais calmo, olhamos mais aos detalhes e não tanto à velocidade, nós queremos entregar tudo nas melhores condições”, garante, assumindo o nervosismo, que considera ser normal.

Para entregar nas melhores condições, Mónica dá tudo de si num trabalho que é remunerado. “Coloco as empadas, scones ou torradas nas bandejas, sirvo às mesas, também faço limpezas, gosto de me dar bem com toda a gente. Espero que a rádio compreenda tudo o que eu digo”, remata.

Para que não restem dúvidas de que entendemos mesmo, pedimos a Mónica que se explique ainda melhor. “Gosto que me respeitem e gosto de respeitar os outros, eu sou impecável, querida, amável, gosto muito de estar aqui e quero continuar aqui até ao fim da minha vida. Uns mil beijos aqui da Mónica Sofia Velho.”

A Casa Branca, outra valência da APPACDM, constitui o centro de formação profissional, onde fazem o curso de mesa e bar, que depois tem ali, na Casa de Chá, a componente de estágio. Além das tostas, empadas, scones ou sumos naturais, a Casa de Chá está disponível para organizar festas de aniversário. A APPACDM é uma Instituição de Solidariedade Social que existe em Coimbra desde 1969 e que agora celebra os 50 anos de vida. A ocasião será assinalada numa gala marcada para o próximo dia 16 de maio.
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