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Concurso de vídeo levou jovens às cadeias

14 mai, 2019 - 06:52 • Liliana Monteiro

Cinco equipas aceitaram o desafio e participaram na iniciativa “Do outro lado da câmara: vidas e prisões portuguesas”, promovida pela Pastoral Penitenciária em parceria com a escola de formação profissional Restart. Os vencedores são conhecidos esta terça-feira.
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Promover o conhecimento público sobre as prisões em Portugal foi o grande objetivo desta iniciativa conjunta da Pastoral Penitenciária da Igreja católica e do Restart - Instituto de Criatividade, Artes e Novas Tecnologias.

Os estudantes foram desafiados a realizarem vídeos, de quatro minutos cada, em que abordassem um ângulo da realidade prisional. Participaram cinco equipas.

Shinara Rainner foi uma das alunas que concorreu. Realizou, juntamente com Marta Travassos, o vídeo intitulado “Acima de tudo Mãe”. Foi gravado na prisão feminina de Tires, onde descobriu uma realidade que a impressionou: não sabia que era possível mães presas conviverem com filhos menores num estabelecimento prisional.

“Eu desconhecia completamente que existiam crianças dentro das prisões. Como mãe aquilo mexeu um pouco comigo”, conta à Renascença, acrescentando que foi algo “quis mesmo fazer e trazer cá para fora”.

Foram dois dias de trabalho intenso. Dias de realização profissional, mas também pessoal. “Como nos disse uma reclusa, muitas vezes não damos valor às coisas quando as temos, e realmente vemos que por mais que elas tenham condições, estão privadas da liberdade. É uma coisa tão simples, a que às vezes não damos valor”.

Outro dos vídeos apresentado a concurso intitula-se “Desafectos”, e foi realizado pelos alunos Vasco Coimbra, Diogo Claro e Eva Pinho.

Vasco explica que escolheram olhar para a solidão que se vive no Estabelecimento Prisional de Aveiro, onde gravaram. “Acabámos por descobrir que os afetos, e a ligação dos reclusos com a equipa técnica da prisão, é um fator extramente importante para a reabilitação deles”, diz, garantindo que este foi um trabalho muito “enriquecedor”.

“O ar é diferente, é mais carregado. Há sons característicos que não se ouvem noutro sitio, há o caminhar dos guardas prisionais, que têm botas muito pesadas e fazem um eco incrível pelos corredores. As próprias chaves que eles carregam, o tilintar das chaves, ou o bater das grades, as portas sempre a abrir e a fechar, de metal. Os próprios reclusos, a forma como eles falam, muitas vezes tons mais elevados e que depois ecoam por todas as paredes. Quando temos o silêncio, o silêncio acaba ser um pouco ensurdecedor”, explica.

Pôr as pessoas a “falar de prisões”

Para os organizadores do concurso, o balanço não podia ser mais positivo. O coordenador nacional da Pastoral Penitenciária, diz que a missão deste projeto foi cumprida.

“Foram de um entusiasmo, nas perguntas que fizeram, e de uma curiosidade de quem quer saber com profundidade as coisas. Foi interessantíssimo. Vi logo que havia ali garra!”, diz à Renascença o padre João Gonçalves, lembrando que “não é fácil entrar numa cadeia e gravar com reclusos.

“Só o poder falar-se disto” já é importante, e “estes jovens falaram certamente com os colegas, com os amigos, com os pais, com vizinhos. Quer dizer, há através disto certamente dezenas ou centenas de pessoas que a propósito deste assunto, deste concurso, falaram de prisões”, sublinha aquele reponsável, garantindo que os reclusos “gostam de se envolver nestes projetos” e “saber que há sempre alguém que se interessa por eles”, sublinha ainda.

Para Vasco Lima, gestor de formação da escola Restart, os concorrentes mostraram ter “uma competência muito interessante enquanto alunos, e isso será visto nos documentários, Mas, já com um profissionalismo muito grande naquilo que apresentaram, a forma e a delicadeza como trataram o assunto”.

Esta foi a primeira edição deste concurso vídeo e todas as obras em competição foram submetidas à avaliação de um júri.

Os vencedores são conhecidos esta terça-feira. O prémio - uma viagem a Barcelona - será atribuído, em cerimónia pública, pelas 18h00, na Restart.

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