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Extremismos na Europa aquecem debate entre partidos na Renascença

04 mai, 2019 - 20:53 • Susana Madureira Martins

Candidatos do PSD e CDS às eleições europeias recusam-se a falar de extrema-direita sem se falar também de extrema-esquerda. PS desafia centristas a demarcarem-se do partido espanhol VOX.
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A extrema-direita existe na Europa, mas e a extrema-esquerda? Também, responderam em uníssono os candidatos do PSD e do CDS num debate promovido este sábado pela Fundação Fé e Cooperação, que decorreu no auditório da Renascença, em Lisboa.

Pedro Mota Soares, candidato dos centristas às eleições europeias de 26 de maio, evita mesmo responder a Pedro Silva Pereira, do PS, se o partido espanhol Vox cabe ou não no Partido Popular Europeu (PPE), família política do CDS.

"O CDS em Espanha tem um partido aliado, tem uma relação histórica com esse partido, chama-se Partido Popular (PP)", resumiu o candidato centrista.

Interpelado pelo eurodeputado do PS e candidato ao Parlamento Europeu, Pedro Silva Pereira, que confrontou o centrista com a posição de Nuno Melo, cabeça de lista do CDS às europeias, precisamente sobre o VOX, Mota Soares respondeu que "o que Nuno Melo disse é que é possivel que o VOX peça ao PPE", mas que "não é porque os partidos pedem que entram".

Pedro Mota Soares foi muito crítico do facto de se falar tanto em nacionalismos e de extrema-direita na Europa, sem se falar de extrema-esquerda. E deu exemplo de França: "se ouvir um discurso da senhora Le Pen e um discurso do senhor Mélanchon, um à extrema-direita, outro à extrema-esquerda, em grande parte das matérias o discurso é mesmo muito semelhante ou mimético".

Na mesma linha Ana Miguel Santos, candidata ao parlamento europeu pelo PSD, considera que não se pode criticar apenas a extrema-direita sem criticar também a extrema-esquerda, mas recusa a ideia de que o Vox possa ter lugar no PPE.

"Isto são manifestações que vão contra o ideário europeu, não há grandes dúvidas e rejeitamos, liminarmente", defendeu-se a candidata social-democrata, ressalvando que quer "ser imparcial e olhar para todos os lados, não podemos hostilizar de maneira a que somos nós os donos da razão e só há problemas de um lado". "Também há problemas de outros lados", afirmou.

Justo comércio justo

As relações comerciais e o comércio justo foram outras questões lançadas no debate moderado pela diretora de informação da Renascença, Graça Franco.

Os partidos às esquerda do PS torcem o nariz à bondade dos acordos comerciais na União Europeia. Comércio justo, sim ou não? Depende, responderam, na prática, os candidatos da CDU e do Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu.

Para o candidato da CDU, João Pimenta Lopes, o comércio justo também tem as suas desvantagens. "O comércio justo pode ser um excelente instrumento, se não for adulterado em práticas que alimentem a dependência dos Estados", diz o comunista, fazendo o paralelo com o "biológico" e questionando mesmo "quão biológico é um produto que vem numa caixa de plástico que atravessou o Atlântico e que é vendido cá como biológico?"

Também José Gusmão, candidato do Bloco de Esquerda, considera que "a ideia do comércio justo é a de que precisamos de relações comerciais, mas que essas relações comerciais devem fortalecer, em vez de debilitar, padrões de direitos humanos nos países produtores" onde esta questão "se coloca mais".

Famílias políticas e disciplina de voto

Outras das conclusões deste debate é a de que os partidos podem ser mais do que as próprias famílias políticas no Parlamento Europeu. Questionada se vai ou não cumprir disciplina de voto do PPE em matérias como armamento, Ana Miguel Santos, candidata do PSD, admite que não se apresenta a eleições pelo PPE, "mas pelo PSD". Ora, quando achar que votar alinhado com a família política "compromete o que considera essencial" a resposta é clara: "claro que não".

Ana Miguel Santos virou depois o debate para o eurodeputado do PS e candidato a um segundo mandato Pedro Silva Pereira, questionando se "votou sempre com a sua família política no PS?", ao que o socialista e ex-ministro respondeu que "com certeza pode acontecer haver uma divergência de voto" com o grupo dos Socialistas Europeus.

Silva Pereira critica, contudo, uma divergência maior, referindo "o nível de divergência entre o manifesto eleitoral do PSD e o manifesto do PPE é enormissímo". Deu como exemplo que no manifesto do PPE, família política de que o PSD faz parte, não consta a redução de cortes na coesão, o que está, segundo diz, previsto no dos social-democratas.

Este debate sobre uma "Europa mais justa" foi por várias vezes lançado para a própria plateia, que entrou em diálogo com os cinco candidatos, nenhum deles cabeça de lista, ao Parlamento Europeu.

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  • Augusto
    04 mai, 2019 Lisboa 21:29
    Se foi só isto o debate teve pouco interesse. Estranho que na questão do perigo do avanço dos partidos racistas e xenófobos na Europa, os candidatos do BE e do PCP tenham estado calados. Ou então a jornalista Susana Madureira esteve desatenta.