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Moçambique

Bispo de Chimoio, um mês depois do ciclone Idai. "A vida não termina na cruz"

15 abr, 2019 - 16:18 • Pedro Mesquita

Entrevista a D. João Carlos, bispo de uma das regiões moçambicanas mais afetadas pelo ciclone e pelas cheias.
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Numa altura em que se cumpre um mês da passagem do ciclone Idai por Moçambique, importa perceber o que está a ser feito para a reconstrução física das regiões mais afetadas mas, sobretudo, para a reconstrução interior de quem tudo perdeu, inclusivamente os familiares mais próximos.

Em entrevista à Renascença, e em plena Semana Santa, o bispo de Chimoio, D. João Carlos, diz que a reconstrução da paixão de Cristo começou a ser antecipada no país e lembra que a vida não termina na cruz.

"É preciso dar esperança às pessoas, força interior", defende. Também sublinha que a visita do Papa, marcada para setembro, será um estímulo.

Um mês depois da passagem do ciclone Idai, com um balanço já superior a 600 mortos, como é que se tenta recuperar as zonas mais atingidas e, em particular, como é que se reconstrói a vida das pessoas afetadas? Que mensagem dirige a essas pessoas nesta Semana Santa?

Nós, antecipadamente, começámos a celebrar a paixão... sofrimento. Aqui há muita gente que foi forçada mesmo a viver essa paixão e nós vamos iluminando a realidade da vida, procurando dar esperança às pessoas, mostrando que a vida não termina na cruz. A cruz é uma passagem. O sofrimento, o incidente, esse trágico incidente pelo qual passaram, é uma passagem, mas pode também ajudar a fortificarmos mais. É importante olharmos para cima.

Parece-lhe que a população já está a olhar para cima?

Aos poucos. Quer dizer, é um processo. É precisa alguma luz, alguma... algo que lhes dá motivo de... que vale a pena. E também, é nosso papel como Igreja e é o papel de todos aqueles que têm um coração grande, que são capazes de dar a mão e ajudar a reerguer. Há, de facto, pelo menos na diocese de Chimoio, na qual sou Bispo, regiões que praticamente perderam tudo. E não é só a questão das coisas. É que também há feridas interiores. Perder familiares, ver o filho a morrer, ficar dois dias na árvore, alimentando-se só da água da chuva que cai...

Então, dar significado à vida dizendo "Olha, perdeu o entre querido". Sim, perdeu isso. Mas o facto de Deus ter-lhe dado a graça de continuar a viver... é importante ter essa força interior para dizer que vale a pena. Não é o fim da vida.

No fim da Via Sacra é a Ressurreição de Cristo. Não termina de facto a vida na cruz.

Fala da reconstrução interior das pessoas. A presença do Papa poderá ser determinante?

Naturalmente que a presença do Santo Padre vai ser um estímulo. Não só para esta situação concreta do ciclone que sofremos, que nos abateu, mas também para a situação do norte, do conflito lá de Cabo Delgado... aquele incidente. E também para todo o processo de paz que já se iniciou e nunca termina. Penso que vai ser determinante para nós ajudar e animar o povo moçambicano a trilhar esse caminho que já iniciou da paz, como digo, da reconstrução de que precisamos.

O FMI decide esta semana um empréstimo de 120 milhões de dólares a Moçambique. É uma ajuda essencial?

Primordial nesta fase em que pensamos na reconstrução, etc.. Beira sei que tem igrejas, infraestruturas, escolas, que estão completamente sem poder ser usadas. Infraestruturas que não valem a pena usar. Igrejas que nem existem, só existe ferro, sinal de que ali houve uma igreja.

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