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Entrevista RR/Ecclesia

Abusos.“Nenhuma questão é tão danosa para a relação de confiança entre os jovens e a Igreja”

12 abr, 2019 - 06:28 • Ângela Roque (Renascença), Paulo Rocha (Ecclesia)

Tomás Virtuoso diz que os escândalos sexuais envolvendo membros do clero são um problema “de todos” na Igreja, e não só de “padres, cardeais ou do Papa”, e devem levar os jovens a refletir sobre a cultura de poder que se promove nos meios católicos. Diz que é “uma sorte” ser jovem no momento em que Lisboa se prepara para receber a próxima JMJ.
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Tomás Virtuoso tem 25 anos. Formado em Economia, faz parte do Secretariado Internacional das Equipas de Jovens de Nossa Senhora (EJNS), que tem atualmente sede em Portugal. O ano passado foi o representante mundial deste movimento na reunião com o Papa de preparação do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens e, já este ano, participou como voluntário na Jornada Mundial da Juventude no Panamá.

Em vésperas do Dia Mundial da Juventude (14 abril, Domingo de Ramos) conversou com a Renascença e com a agência Ecclesia a propósito da Exortação Apostólica “Cristo Vive”, recém publicada pelo Papa, na sequência do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens.

Para Tomás Virtuoso, o Papa teve a capacidade de “falar ao coração” dos jovens. “Parece um avô a relembrar-nos das coisas fundamentais” da fé, sublinha. Sobre o apelo de Francisco no documento, para que os jovens não se deixem abater “pelas falhas da Igreja”, considera fundamental que se entenda que a crise dos abusos é um problema de todos, também dos jovens, que devem sentir a Igreja “como sua”.

Este responsável das EJNS não esconde o entusiasmo que sente por Portugal ir receber a próxima Jornada Mundial da Juventude. “Não é um mero evento logístico, ou um festival de verão”, diz. Não tem dúvidas de que irá mostrar a “grande vitalidade” da fé dos jovens católicos portugueses. Mas, mais importante que o evento, lembra, “é a preparação” que vai ser feita até lá.


A Exortação "Cristo Vive", recentemente publicada, corresponde ao que esperava?

Na verdade este documento é escrito pelo Papa, mas vem no seguimento de um caminho que já é longo, de um processo sinodal, como o Papa não se cansa de repetir, aliás no próprio documento. Portanto, o documento não traz uma data de novidades de que nunca tenhamos falado, é um rearranjar, um rearrumar destes temas, a partir da pena do Papa.

É verdadeiramente uma carta aos jovens, num formato muito interessante que o Papa usa e que não estou muito acostumado a ver em documentos da Igreja. O Papa vai fazendo umas considerações teóricas sobre a juventude e, de repente, muda para a segunda pessoa e começa a falar 'tu a tu' com os jovens.

Muda o registo, com uma linguagem muito acessível e muito direta.

Muito acessível, mas sobretudo com uma capacidade de falar ao coração de cada jovem. Quem ler esta Exortação, esta carta, sente aquilo como coisa para a sua vida, não é um conjunto de ideias muito bonitas, muito abertas. Tem efeitos concretos na vida de cada jovem.

O Papa conseguiu incluir a diversidade de temas e propostas que foram lançadas desde a reunião pré-sinodal?

Acho que sim. Vamos também reduzir-nos ao humanamente possível. A quantidade de coisas que foram faladas...

Mesmo assim este documento já é longo...

É longo. O Papa aborda menos temas e mais profundamente e com uma capacidade maior de falar à vida dos jovens, em vez de tocar todos os temas possíveis e depois aquilo ser tipo uma lista de compras dos temas que a Igreja tem que tocar, mas no fim de contas não há substância que possa ser trabalhada.

O Papa também teve a capacidade de valorizar tudo aquilo que foi feito para trás. É uma Exortação com muita citação dos documentos que antes foram publicados. O Papa teria autoridade e legitimidade para isso, mas não quis escrever isto a partir do zero, ‘agora é que eu vou dizer aqui umas coisas’.

O Papa diz que é mais um passo no caminho sinodal.

É mais um passo. A própria decisão do Papa de fazer isto assim é um sinal à Igreja de que este caminho sinodal é um caminho que vale a pena realmente ser uma aposta séria da Igreja do século XXI.

"É uma chamada ao amor à Igreja, que cada um dos jovens sinta a Igreja como coisa sua, e também se sinta responsável pelos caminhos que a Igreja vai tomando."

Há várias mensagens nesta Exortação. O Papa diz, por exemplo, que a Igreja ‘não é um museu', alerta para 'as ideologias que escravizam' e desafia os jovens a 'cuidarem do Senhor como cuidam da ligação à net'. Diz também que 'os jovens são o agora de Deus'. Estes são os desafios mais importantes, na sua opinião?

Sim, sim. Eu acho que o Papa foi muito inteligente na forma como construiu esta Exortação, porque começa por enquadrar teologicamente esta questão da Juventude, indo buscar uma série de exemplos à Bíblia, à juventude Jesus, depois à juventude de Nossa Senhora e até casos concretos de Santos jovens, que foram exemplos de como viver a Santidade na juventude.

E depois o Papa faz uma coisa interessante que é um capítulo, que é relativamente longo, sobre três temas fundamentais, que eu acho que talvez tenham sido os mais falados de todos. A começar a questão do digital: como é que hoje a Igreja é capaz de fazer uma proposta e de ser relevante no mundo digital, mas - e isto para mim parece-me importante - não querer ceder a todas as lógicas do mundo digital, porque há alguma coisa de perene e de estável e de sólido que a Igreja tem, que manifestamente o mundo digital não tem e é bom que também a Igreja não queira ceder em tudo.

Depois a questão das migrações, que se liga com a questão da identidade, da abertura ao outro, da cultura do encontro, que o Papa põe muito em foco nos vários discursos que vai fazendo, e que me parece um tema fundamental para os dias de hoje.

O terceiro tema é o dos abusos sexuais, em que o Papa, depois de referir o horror que isto é e as soluções que foram encontradas, diz aos jovens - e eu fiquei muito comovido com isto – que uma mãe nunca se abandona. Seja a mãe o que seja, faça a mãe o que faça, temos de ter a coragem para apontar o dedo à mãe quando é preciso, mas a mãe não se abandona.

'Não se abandona a mãe quando está ferida', é a expressão usada.

É uma chamada ao amor à Igreja, que cada um dos jovens sinta a Igreja como coisa sua, e também se sinta responsável pelos caminhos que a Igreja vai tomando. Portanto este capítulo é muito forte nesses três temas.

Um capítulo que também é central é o quarto capítulo ‘O grande anúncio para todos os jovens’. De que forma é que o Papa assume o perfil do teólogo a falar sobre temas que têm uma profundidade diferente e podem estar mais distantes dos jovens… 

É um capítulo que eu acho que é surpreendente, aparecer ali no meio.

Parece uma aula de teologia, e não uma carta aos jovens...

É uma coisa interessantíssima. A Exortação Apostólica já vai lançada quando o Papa vem com esse capítulo. O Papa pára e diz assim – ‘meus amigos, mais do que nos preocuparmos como é que anunciamos o que queremos anunciar, ou preocuparmo-nos demasiado com as formas, os métodos ou as estratégias, vale a pena parar para perguntar o que é que nós queremos anunciar? O que é que nós temos de diferente, o que é que nós temos de relevante, que possa falar à vida dos jovens de cada tempo?'

Esse pode ser o problema da Pastoral Juvenil, nunca ter pensado nisso e ter olhado mais para as formas?

Não sei, em parte pode ter sido. Muitas vezes estamos tão preocupados com a forma, que o conteúdo da mensagem que queremos transmitir vai sendo progressivamente deixado de fora. A forma como está escrito parece um avô a relembrar-nos coisas fundamentais, a dizer 'Deus ama-te, Cristo salva-te, Cristo vive, o Espírito Santo acompanha-te no teu caminho’. Até o facto de acabar com uma citação do 'Enamora-te', uma oração do padre jesuíta Pedro Arrupe, é o clímax do capítulo.

É muito interessante que o Papa o queira pôr praticamente no centro da Exortação, porque é o capítulo quarto, e eles são nove. No fundo a questão fundamental é esta - nós precisamos de cuidar aquilo que queremos transmitir a cada um dos jovens, e sobretudo ter uma noção clara de que não temos nada mais a oferecer a cada um dos jovens que não a pessoa de Jesus, e como a pessoa de Jesus realmente lhes pode mudar a vida, e pode ser a resposta fundamental às questões mais profundas que eles têm no seu coração.

No capítulo que é dedicado à pastoral juvenil, o Papa aponta vários caminhos a seguir e lembra que não pode haver pastoral para os jovens sem o seu envolvimento. É importante que isso seja tido em conta e seguido pela Igreja?

Claro, sobretudo tendo em ideia até uma coisa que o Papa diz no documento, quando fala das escolas católicas, que é a importância de integrar os saberes da cabeça, do coração e das mãos. Também é isso que eu acho que tem de se pedir aos jovens de hoje, esta capacidade de, estando dentro da Igreja, possam eles mesmo cuidar não só do seu coração, e portanto da sua intimidade com Jesus.

Que a Igreja possa dar-lhes uma experiência de oração e de vida íntima com Jesus profunda, mas que também lhes possa dar a capacidade de não só fazer coisas, pôr em prática os planos da pastoral juvenil, como também de pensá-los raiz. Isto muda a forma como os jovens estão na Igreja, não serem espetadores passivos, como o Papa repete muitas vezes, ‘na varanda da sua história’ e ‘na varanda da vida da Igreja’, ou então numa relação quase de supermercado, em que vão, servem-se do que querem, e vão embora, não se vinculam nem se comprometem.

Quem se sente responsável sente-se comprometido, quem se sente responsável sente-se mais parte da vida da Igreja. Como dizia há pouco - ter a Igreja como coisa sua parece-me absolutamente fundamental.

Que conceito é este da 'pastoral juvenil popular', que o Papa introduz neste documento?

É interessante. É um conceito que o Papa aborda em duas áreas distintas. Numa primeira fase deixa uma nota para que se tenha cuidado com certas elitismos nas propostas de pastoral juvenil que se fazem, e que o facto de Jesus ser universal, ser para todos, tem de ter consequências práticas na forma como a Igreja vai estruturando a sua proposta de pastoral juvenil. Portanto, a capacidade de chegar a todos e que, independentemente das circunstâncias e dos percursos de vida, saibamos ser resposta para todos os jovens.

Outra questão é que os próprios jovens sejam o coração da Pastoral Juvenil, e não sejam só são mais um satélite. Quer dizer, não chegar aos jovens com produtos acabados, que eles depois aproveitam como querem, mas que, em última análise, até podem ter uma relação de cultura de descarte - 'eu aproveitei, eu tirei o que queria, e agora deito fora'. Não, a ‘pastoral popular juvenil’ é uma pastoral enraizada na própria realidade de cada um dos jovens, que parte das aspirações que eles têm, e que tem nos jovens o seu principal meio de concretização.

Pela experiência que tem, em Portugal já se está a fazer mais esse caminho ao nível da pastoral juvenil?

Nas Equipas de Jovens de Nossa Senhora (EJNS), que é um movimento de que muito me orgulho de pertencer, a quem devo muitíssimo na minha vida de fé, neste ensinar-me a estar em Igreja, e em amar uma Igreja verdadeiramente universal, agora também com esta experiência no Secretariado Internacional... Sim, realmente o que eu vou vendo é este espaço que se dá aos jovens, de não serem só as mãos, mas também serem o coração e a cabeça. E a capacidade que os jovens têm de ler alguns sinais dos tempos. É um facto que também precisamos da experiência de vida, precisamos dos mais velhos, mas os jovens estão nos sítios onde a juventude hoje acontece.

Portanto, esta confiança de que os jovens de hoje podem saber ler os sinais dos tempos, eu tenho visto isso nas Equipas, e é muito bonito ver como quando se põe uma medida alta ao jovem, ele tem esse desejo de cumprimento, e vai lá. Não se pode infantilizar os jovens, achando-se que não têm capacidade de se levar a sério, só querem brincadeira e vida fácil. Isso às vezes pode ser verdade, mas no fundo, no fundo, no coração de cada jovem há este desejo de se sentir realizado, e de saber que é feito para coisas grandes. É isso que tenho experienciado nas Equipas.

Retomando a questão dos abusos, e o pedido do Papa aos jovens para que não se deixem abater pelas ‘falhas da Igreja’. Corre-se o risco de se perder a confiança dos jovens por causa destes escândalos?

Eu acho que sim, e é importante olharmos para a questão sem rodeios. Arrisco mesmo a dizer que nenhuma outra é tão danosa para a relação de confiança entre os jovens e a Igreja como esta. E ainda bem que é, porque aqui os jovens não estão enganados quando dizem ‘quero que alguém que acompanhe o meu coração e o meu crescimento de vida, não esteja envolvido em suspeitas por causa dos abusos sexuais, de consciência ou de poder’. É importante não focar só os abusos sexuais, que são o problema mais dramático e mais visível, mas os outros também são relevantes.

Acho fundamental termos a capacidade de não olhar este problema dos abusos como sendo de padres, cardeais e do Papa. Também é uma questão nossa porque levanta desafios importantes à nossa vida: como é que eu como jovem, e nós como jovens católicos, e nos meios católicos, que cultura de poder é que temos? É poder como serviço, ou como dominação do outro? Como fomentamos, nos meios católicos, a transparência e a unidade de vida?

Pessoas que são uma coisa em todas as vertentes da sua vida. Ter a capacidade de recusar as vidas duplas. Porque, a meu ver, o tema dos abusos sexuais está relacionado com estes temas. Depois, infelizmente levantam-se outros temas, como o celibato, que são laterais e desfocam do tema fundamental aqui, que é um problema de poder, de capacidade de viver a vida com transparência, com simplicidade, sem duplicidade de discurso, ‘eu sou aqui uma coisa, e sou ali outra’.

Portanto esta questão dos abusos sexuais, parece-me, pode ser muito útil para nós jovens crescermos saudavelmente, porque há um perigo nesta vontade de dar mais poder aos jovens e pô-los protagonistas, que é, se em vez de estarmos a formar gente ao serviço dos outros, estamos a formar monstros com egos intermináveis, de jovens que se não estão no centro… e sobretudo neste tempo de responsabilidade, e de JMJ em Portugal, é muito importante formar os jovens na consciência de que o servir é humilde e desinteressado, e não um permanente procurar que o meu ego cresça.

O tema dos abusos sexuais não é um cometa, um satélite muito afastado! Não! Está no centro do que queremos propor aos jovens, em cada tempo.

”É importante olharmos para a questão [dos abusos sexuais] sem rodeios. Arrisco mesmo a dizer que nenhuma outra é tão danosa para a relação de confiança entre os jovens e a Igreja como esta."

A Jornada Mundial da Juventude pode ter esse perigo, se não existirem parcerias entre as diferentes lideranças na Igreja Católica, de Movimentos Juvenis, pode ser um afirmar de identidade e de partes, de segmentos da Igreja?

Eu tenho pena de entrarmos neste tema das Jornadas com uma coisa tão negativa. Porque acho mesmo que é uma graça, um dom! Tenho dado por mim a agradecer todos os dias a sorte que estou a ter, como a série de amigos meus, de sermos jovens católicos, comprometidos com a Igreja e apaixonados pela Igreja, neste tempo da sua história em que vem uma coisas destas para Portugal.

Tudo o que é bom também pode ter coisas más. Nas jornadas, e os senhores bispos com responsabilidades, o senhor D. Américo e o Senhor D. Joaquim, também o dizem, vamos ser todos precisos, e toda a gente vai ter de se envolver. É evidente que, como em tudo na vida, pode ser uma ocasião para descentrar corações, para procurar ter mais um ‘quinhão de poder’, ter mais notoriedade ou ter este cargo, e não ser uma ocasião de cada um perguntar simplesmente isto: ‘como é que eu posso crescer interiormente com estas jornadas e, a partir deste crescimento interior, servir mais a Igreja?’.

A sua experiência nas JMJ no Panamá mostra que o trabalho em conjunto é o que acaba por acontecer sempre?

Não tenho dúvidas nenhumas disso! O caminho pode ser acidentado, há coisas que não vão correr tão bem, pode haver uma ou outra divisão, e isso é normal, na medida certa.

Eu tive a grande sorte de ter estado no Panamá um mês a trabalhar no comité de organização, na direção de relações internacionais. Foi uma experiência intensíssima e muito interessante, em que trabalhei muito e também aprendi muito, e vi uma coisa que me marcou (e espero que no Panamá ninguém me ouça)... Realmente em termos de organização, eles não são muito organizados! Foi um tanto ou quanto caótico, para alguém que está habituado, em Portugal, a alguma organização. Mas, o que mais me marcou é que, mesmo que tudo falhasse na organização, o coração daquela gente estava centrado no essencial. A capacidade que tinham de, mesmo que tudo estivesse a cair, não deixarem de rezar. Quando as reuniões começavam a ficar muito tensas, rezavam ao Espírito Santo para que os iluminasse ou pegavam em pandeiretas e começavam a cantar com uma alegria profundíssima. Isto tem uma parte cultural que é difícil transportar para cá, mas ao mesmo tempo dá-nos uma boa lição, a esta Europa encarquilhada e velha, demasiado focada nas questões da eficiência, da competência e da produtividade, que às vezes nos descentram do fundamental.

As Jornadas têm de ser, mais do que tudo o resto, uma ocasião de cada um dos jovens poder fazer um encontro profundo na sua vida com Jesus, e não ser um mero evento logístico, igual a qualquer festival de verão, onde as únicas coisas que interessam são resultados, indicadores e índices de produtividade ou de competência. Saibamos cuidar ao longo destes três anos e meio, do coração das jornadas.

O que espera que possa mudar na Igreja com estas jornadas? Será um momento de mostrar a vitalidade da fé que existe em Portugal, entre os jovens católicos?

Sem dúvida. Concordo muito com uma coisa que o senhor D. Manuel Clemente tem dito: as jornadas vêm para Portugal num momento notável. Eu vou ouvindo, pelos meus pais e gente mais velha, como era a Igreja em Portugal nos tempos deles. Hoje em dia olho à volta e vejo uma quantidade de gente a fazer coisas inacreditáveis!

Mas, às vezes não é essa a perceção que quem não é crente ou católico tem…

Certo. Realmente temos uma Igreja viva e cheia de vitalidade, mas isso não nos pode colocar numa posição de ‘já fizemos o que tínhamos a fazer, já chegamos onde tínhamos de chegar, não temos mais nada a propor’. Não. Nestes três anos e meio – gosto de pôr isto assim, porque é o mais importante, não são aquelas duas semanas das JMJ que vão mudar alguma coisa - tem de haver um processo claro de conversão dos corações, das cabeças e das mãos, da capacidade de fazer coisas diferentes. Objetivamente, algumas coisas em Portugal terão de mudar, outras terão de se manter, porque já fazemos tanta coisa bem!

Estes três anos e meio, mais do que tudo o resto, tem de ser uma ocasião de cada um, a partir de si mesmo e passando pelos seus movimentos, paróquias, dioceses, pela Igreja em Portugal, e tem de perguntar: onde ainda não estamos? Onde queremos chegar? Onde é que Jesus ainda não é conhecido? Quando fazemos estas perguntas a sério, percebemos que há uma série de áreas onde ainda não estamos.

Já fazemos coisas muito bonitas, mas ainda não conseguimos comunicar bem nas mais variadas áreas, seja na cultura, na comunicação social, no ensino básico e secundário, na política. Há tantas áreas onde a Igreja pode trabalhar e crescer. As jornadas têm de ser uma ocasião de nos apaixonarmos mais pela Igreja e trabalharmos mais para alargarmos o coração da Igreja.

Tudo isso está a acontecer a uma escala internacional, em cada um dos movimentos. Falemos especificamente das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. Integra o Secretariado Internacional e está a fazer uma ponte com a Síria...

Sim. As EJNS estão espalhadas pelo mundo todo. Neste momento, estou responsável por acompanhar os países da Europa e da Síria.

O que é que a Síria traz de novo às dinâmicas das Equipas?

Está a ser uma experiência incrível. Falo recorrentemente com o responsável do Movimento na Síria, onde as Equipas estão presentes há muitos anos, mas reduziram-se muito por causa da guerra, e agora estão a voltar a crescer.

Quantas Equipas existem na Síria?

Entre 10 a 20. É uma realidade muito pequena, comparada com Portugal…

Em Portugal há 3.000 equipistas...

É verdade, e cheios de vitalidade. Mas, há uma semana recebi um email do responsável nacional das Equipas na Síria a dizer que depois de muito tempo de reflexão e oração, decidiram voltar a Homs, uma das cidades que foi totalmente destruída e dominada pelo Estado Islâmico. Ele pedia a nossa a ajuda, logística, financeira e com orações, porque, agora que a cidade já estava limpa de terroristas, tinham decidido voltar a essa cidade, depois de um padre que foi para lá ter feito uma proposta espiritual aos jovens cristãos na Síria para renascerem das cinzas. E decidiram voltar para Homs.

As Equipas são isto, e a Igreja é isto: levar esperança à vida das pessoas e saber dizer a cada uma, nas suas circunstâncias concretas de vida, que há um tesouro que temos, que encontrámos nas nossas vidas e que queremos levar às vidas delas. É isto que tenho aprendido nas Equipas e é isto que a Igreja me tem dado. E é também por isto que eu acho que o grande desafio, independentemente das jornadas ou dos sínodos, é que cada jovem católico, a partir de uma paixão e de uma alegria de viver, de uma esperança e de uma verdadeira autenticidade, seja capaz de mostrar como Jesus continua a ser a resposta às perguntas mais profundas que os jovens de cada tempo, e seguramente no tempo de hoje, têm no seu coração.

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