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Porque é que esta época gripal está a ser mais intensa que a anterior?

08 mar, 2019 - 06:30 • Joana Gonçalves

Desde o início da época morreram, pelo menos, 29 pessoas em Unidades de Cuidados Intensivos. Na semana de maior intensidade de atividade gripal, a mortalidade apresentou valores acima do esperado.
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Desde o início da época gripal foram internadas 174 pessoas com gripe em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI), em Portugal. Deste total de casos reportados, 29 acabaram por morrer, mais 13 óbitos que em 2017, um valor que representa um aumento de 7%, se considerarmos a variação no número de casos registados.

Em 2018 não foram reportados óbitos, por ausência de envio de informação, como adiantou a Directora-Geral de Saúde, Graça Freitas, à Renascença.

Apesar da intensidade moderada da gripe, na semana de pico de actividade gripal a mortalidade apresentou valores acima do esperado. Desde o início de outubro, morreram pelo menos mais mil pessoas do que seria normal, devido à gripe e ao frio. Um valor superior à média dos últimos cinco anos.

“Relativamente aos vírus que estão a circular em Portugal e na Europa, o que verificamos é que são predominantemente do tipo A e em Portugal circularam em grande parte os vírus do subtipo A(H3), que são vírus que nos últimos invernos em que têm circulado têm estado a mostrar uma grande variabilidade genética e antigénica”, explica a Dra. Raquel Guiomar.

Em entrevista à Renascença, a responsável pelo Laboratório Nacional de Referência para o Vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Instituto Ricardo Jorge, adianta que esta variabilidade pode ter consequências na eficácia da vacina, apesar de “não serem alarmantes”.


“O que nós sabemos é que os vírus Influenza do tipo A (H1) estão estáveis, são semelhantes à vacina. Relativamente aos vírus A (H3) tem-se verificado uma evolução destes vírus e uma grande variabilidade dos vírus que estão em circulação”, esclarece.

Um vírus que “escapa à imunidade”

Também a taxa de incidência na semana de pico da gripe, calculada com base no número de novos casos notificados pela Rede de Médicos Sentinela, registou um aumento face a 2018.

Este ano o pico da gripe ocorreu na quarta semana, de 21 a 27 de janeiro, com uma taxa de incidência de 89,3 por 100.000 habitantes. Já na época anterior o pico registou-se mais cedo, na semana de 25 a 31 de dezembro de 2017, com uma taxa de incidência de 69,6 por 100.000 habitantes.

De acordo com a Dra. Raquel Guiomar, este aumento significativo no número de novos casos na semana de maior intensidade de atividade gripal deve-se à circulação predominante dos vírus da gripe do tipo A, sobretudo do subtipo H3.

O mesmo vírus, A(H3), foi dominante no inverno de 2016, ano em que a gripe provocou um excesso de mortalidade de 27%, em Portugal.

“Conseguimos ver que as taxas de incidência são mais elevadas em épocas em que o predomínio é do vírus Influenza tipo A, nomeadamente do subtipo A(H3), por ser realmente um subtipo do vírus da gripe que tem evoluído mais rapidamente, o que lhe permite escapar mais facilmente à imunidade que a população vai adquirindo ao longo do tempo”, esclarece.


A época passada registou um predomínio do vírus Influenza tipo B, o que caracteriza “exatamente as épocas com intensidade de atividade gripal um pouco mais baixa”.

O método mais eficaz? Vacinação.

De acordo com o Boletim de Vigilância Epidemiológica da Gripe, disponibilizado pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, dos 141 casos com recomendação para a vacinação contra a gripe sazonal, registados desde o início da época, o estado vacinal é conhecido em 69. Destes apenas 20, isto é 29%, estavam, de facto, vacinados.

Ora, a vacina é o método mais eficaz de prevenção de uma infeção pelo vírus da gripe, alerta a virologista.

“As vacinas incluem pelo menos os três vírus que infectam o homem e que são a causa da epidemia da gripe em cada inverno. A vacina inclui o vírus Influeza A(H1), A(H3) e B exatamente para garantir que quem se vacina tem a imunidade quer para os dois subtipos do vírus Influenza A, quer para o vírus Influenza do tipo B”, esclarece.

O vírus do tipo A(H3), dominante neste inverno, tem uma especial capacidade de evolução. A aquisição de mutações no genoma permite ao vírus adquirir características novas e voltar a infectar no inverno seguinte, as mesmas pessoas que tiveram gripe no inverno anterior.

As vacinas não são eficazes a longo prazo e, por isso, são reformuladas todos os anos, de forma a garantir que "os vírus que são contemplados na vacina sejam o mais próximo e o mais parecido possível com aqueles que se pensa que vão circular no ano seguinte”.

A actividade gripal em Portugal mantém um registo de baixa intensidade e encontra-se em tendência decrescente em todas as regiões do país, de acordo com o Boletim de Vigilância Epidemiológica da Gripe, divulgado esta quinta-feira e correspondente à semana passada.

Em Portugal, a vigilância epidemiológica da gripe é coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), enquanto laboratório de referência da OMS para a gripe no país, e pela Direção-Geral da Saúde.

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