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Da capa à contracapa

"Os bombeiros são o elo mais fraco da Proteção Civil"

04 mar, 2019 - 16:05 • José Pedro Frazão

Cinquenta anos depois do maior sismo da Europa desde o grande terramoto de 1755, o sistema de Proteção Civil em Portugal demonstra carências na formação e na organização da primeira intervenção em caso de emergência. Dois especialistas ouvidos pela Renascença deixam críticas e sugerem mudanças nas corporações de bombeiros.
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É preciso melhorar a formação de bombeiros e a organização da primeira intervenção em caso de emergência em Portugal. O apelo é de António Duarte Amaro, autor do livro “ Socorro em Portugal”, sobre a organização do sistema de Protecção Civil no nosso país.

O sociólogo, doutorado em Geografia Humana e vice-presidente da Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança foi um dos convidados do programa da Renascença “Da Capa à Contracapa”, que debateu a Protecção Civil em Portugal, evocando os 50 anos do último grande terramoto em Portugal.

“Os corpos de bombeiros são o braço armado da Protecção Civil. Vêm em primeiro lugar, deviam ser o elo mais forte, mas são o elo mais fraco em muitos aspectos”, afirma António Duarte Amaro, para quem o voluntariado “é um bem para todos os países, a todos os níveis” mas deve ser enquadrado numa outra lógica de resposta a emergências em Portugal.

O especialista defende que Portugal “não pode ter uma matriz voluntária na primeira intervenção”, que deve estar remetida para o “domínio da complementaridade” deixando que a resposta inicial seja desempenhada por “profissionais bem preparados e disponíveis”.

Em defesa de uma Academia de Bombeiros

A qualidade da resposta a emergências é também um fator em equação no sistema de Protecção Civil em Portugal.

“A realidade dos corpos de bombeiros é muito heterogénea. Há corpos de bombeiros a funcionar muito bem e outros menos bem, com bons comandos e com comandos menos bem preparados. O drama começa por aí. Como é que continua a não haver formação superior nos bombeiros? ” pergunta Duarte Amaro na Renascença, num debate que contou ainda com a presença de Manuel Velloso, ex- director de operações do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil.

O também coordenador-chefe da Associação Nacional dos Alistados das Formações Sanitárias concorda com a criação de uma verdadeira academia “como as que têm as Forças Armadas ou as Forças de Segurança”, sublinhando que essa instituição seria essencial “para ter alguém em que os subordinados possam reconhecer competência de comando e técnica”. Já para António Duarte Amaro, a criação de uma Academia não seria “a panaceia para tudo” mas “valorizava os bombeiros” face aos restantes agentes de protecção civil que têm as suas academias e uma formação adequada.

Bombeiros a mais ou mal distribuídos ?

Manuel Velloso, 75 anos, tem um currículo extenso de cargos, missões e operações. Foi inspector de Bombeiros, comandou a protecção Civil em diversos distritos e integrou 22 missões internacionais. Defende a simplificação da quadrícula mais pequena da grelha de resposta a emergências em Portugal.

“Fui comandante distrital de Castelo Branco e Leiria. No distrito de Castelo Branco, cada concelho tinha um corpo de bombeiros. Fui comandante do corpo de bombeiros de Algueirão Mem-Martins, no concelho de Sintra, onde há 11 corpos de bombeiros. Entenda que isto tudo se torna muitíssimo complicado. Todo o tipo de resposta que se vai dar nesta grelha de protecção e socorro é extremamente frágil”, denuncia Velloso para quem a solução pode estar na implementação de um sistema de “secções destacadas” criadas a partir de um corpo de bombeiros.

“O sistema das secções destacadas é muitíssimo complexo. Quando chega a altura de distribuição de verbas, o corpo de bombeiros que tenha por exemplo três secções destacadas recebe o mesmo que o corpo que só tem uma secção destacada. Para que um meio de Idanha-a-Nova chegasse às Termas de Monfortinho demorava entre 45 minutos e uma hora e a "voar baixo". Quando tinha lá um incêndio telefonava aos espanhóis que iam lá dar uma ajudinha. Imagine que é um enfarte e é preciso evacuar para um hospital de referência. Como é que se fazia? A secção destacada resolvia isto. Mas é preciso que o corpo de bombeiros tenha vontade”, sustenta Manuel Velloso, também ex-comandante da Unidade de Socorro de Lisboa da Cruz Vermelha.

Os riscos não justificam tantos corpos de bombeiros, complementa António Duarte Amaro no “Da Capa à Contracapa”, parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

“Alijó tem 13500 habitantes e tinha 6 corpos de bombeiros. A freguesia de Sanfins do Douro com 900 habitantes tinha dois corpos de bombeiros, um deles em Cheires. Porquê? Porque existiam os Tirsenses e os Bombeiros de Santo Tirso? Porque existiam os Espinhenses e os Bombeiros de Espinho? Porque existiam os Bombeiros de Aveiro Novos e os Aveiro Velhos? Isto aconteceu por rivalidade e não por necessidades relacionadas com riscos”, remata António Duarte Amaro.


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