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Ensaio Geral

Trinta anos depois, os diários do avô deram um livro que já vendeu 250 mil exemplares

08 fev, 2019 - 14:22 • Maria João Costa

Stefan Hertmans escreveu “Guerra e Terebintina” a partir dos diários do avô, que foi soldado na I Guerra Mundial. Com 250 mil exemplares já vendidos, o livro acaba de chegar a Portugal.
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Antes de morrer, o avô do escritor belga Stefan Hertmans entregou-lhe os seus diários, cadernos de memórias que o autor, finalista do Man Booker Prize em 2017, julgou guardarem as histórias que o seu avô sempre lhe contara.

O autor levou 30 anos até conseguir abrir o tesouro que herdou. Quando começou a ler, Stefan Hertmans descobriu matéria para o seu livro “Guerra e Terebintina”, agora publicado em Portugal.

Em entrevista ao programa "Ensaio Geral" da Renascença, o autor explica a importância destas memórias para o contexto atual da Europa. Agora, tal como no inicio do século XX, há sinais de uma guerra iminente, alerta.

Como foi a experiência de escrita deste livro e de ter pegado nos diários que o seu avô lhe deixou?

O meu avô morreu em 1981, tinha 90 anos e uns meses, e antes de morrer deu-me dois diários seus. Naquela altura eu era um hippie, fumava droga, vestia calças de ganga, por isso ele achava que eu era uma causa perdida para a civilização. Ele era um militar católico conservador, muito gentil e humilde. Deu-me aqueles diários e disse-me "A quem mais os posso dar?" Foi uma espécie de legado, mas na altura não me apercebi. Eu dava aulas na Academia de Belas Artes. Tinha casado, tinha filhos, amigos, andava atarefado. Escrevi alguns livros anos mais tarde, nas horas vagas ao fim-de-semana, nas férias ou à noite. Mas sempre adiei a ideia de olhar para aqueles diários

Porquê?

Achava que sabia o que estavam neles. Ouvia o meu avô a contar as histórias durante toda a minha infância. Já tinha ouvido mil vezes as histórias sobre a guerra e achei que iria ler os diários quando o momento chegasse. Devo contar-lhe que no dia em que o meu avô morreu, a minha mãe telefonou-me, estávamos no Pentecostes e eu fui lá. Prometi-lhe que iria contar a história dele, embora na altura desconhecesse a história dele. Disse a mim próprio: no momento em que deixar de dar aulas, vou começar a escrever este livro. Podia escrever qualquer coisa, todos os meus outros livros, mas tinha receio disto. Deixei de dar aulas em 2010 e uma semana depois comecei a ler as notas do meu avô.

Como foi ler esses diários do seu avô?

Foi muito pesado, como uma bomba a explodir. Eu achava que era só sobre a guerra, mas não era. Era também sobre a sua infância e a extrema pobreza na Flandres, no século XIX. Tinha também a história dos pais que eram emancipados artística e culturalmente, mas que eram pobres. Isto era especial. Eles pouparam dinheiro durante um ano para irem a uma ópera de Verdi. O pai dele era pintor numa igreja e falava-lhe de Tintoretto ou Ticiano. Eu mergulhei numa história que desconhecia. Claro, que sabia algo sobre o que ele contava da guerra, mas eram sempre as histórias fáceis; as de horror e inferno ele não contava e estão nos seus diários, como ver os seus amigos com os intestinos de fora a morrer e a chorarem pelas suas mães.

Mas no livro há também uma história de um grande amor.

Claro, a sua grande paixão. Aprendi muito sobre ele que não sabia. Tive consciência de que lhe devia muito.

O seu avô foi uma espécie de testemunha dos acontecimentos históricos do último século, desde os mais horríveis aos mais bonitos. Era um profundo apreciador de arte. Acha que a dimensão da beleza o ajudou, mesmo quando vivia o horror da I Guerra Mundial?

Acho que tocou num ponto muito importante para mim. Eu fui-me apercebendo que aquelas pessoas pobres tinham cultura. A esperança de libertação que tinham era através da arte. Se olhar para o que dão hoje às pessoas, são coisas populares como o futebol, espetáculos e coisas tontas. Naquela altura, aquelas gerações, estavam ávidas de algo mais elevado. Para eles não era algo burguês ou elitista, era a esperança da beleza. Para mim foi muito importante contar isso. Esta é uma história sobre a Flandres, mas também sobre a Europa, porque foi assim que a Europa mudou. Se pensar hoje na classe mais pobre, trabalhadora, não os vê a falar sobre Verdi ou Ticiano. Isso é outro planeta. Eles só têm a cultura televisiva.

A questão sobre a Europa é central neste livro. Quão importante é para si? Conhecermos bem a história passada para percebermos melhor onde estamos hoje?

Eu acho que um escritor nunca deve ser moralista. A literatura moralista é má literatura. Um escritor e um poeta não são padres. Não somos políticos, mas podemos contar histórias. Contar uma história é muito mais rico do que dar uma mensagem. Uma história tem cinco ou seis mensagens numa só. Se há uma história no meu livro que me tocou profundamente é a de que, se olharmos para a juventude do meu avô e para os primeiros anos do século XX, vemos que ninguém viu a guerra a chegar. Ninguém o viu! Tal como agora, a adrenalina estava a subir; os direitos democráticos estavam sob pressão, tal como agora; os nacionalismos eram muito fortes, como agora. Se pegar em todos esses elementos deste cocktail do que se estava a passar, e perceber que ninguém previu que vinha aí uma guerra, percebemos que a Europa estava a desmoronar-se.

O seu país acabou por entrar na guerra.

A Bélgica entrou numa guerra com a qual não tinha nada a ver. Era a questão sérvia. Era Viena contra Belgrado. Nós éramos vítimas. Se pensar nas atrocidades, quantas pessoas morreram nos campos da Flandres... Soube que também houve soldados portugueses nos anos 20. Do Reino Unido vieram centenas de soldados indianos. Os marroquinos também estiveram envolvidos nos combates. Cheguei a ver fotografias de beduínos montados em camelos a caminhar na areia e pensava que eram imagens de Marrocos, mas não, foram tiradas na costa da Bélgica. Portanto, foi uma guerra para a qual todo o mundo foi arrastado. O que é que a Bélgica tinha a ver com isso? Nada! Mas esse foi o destino do meu avô. Ele era um homem inocente.

Em "Guerra e Terebintina" podemos ler essa história do seu avô.

Acho que a literatura é isso. É escrever sobre uma pessoa anónima, e a luz do escritor tem de brilhar através dessa pessoa para criar um arco-íris. Vemos a guerra, a política, a Europa, atrocidades, idealismos, humanismo e nacionalismos. Vemos tudo isso através daquela personagem.

Vemos também uma grande paixão e uma profunda história de amor.

A história de amor é muito importante, porque mostra como era difícil a vida daquelas pessoas naquela altura. O meu avô foi ferido cinco vezes na guerra e quando regressou, em 1918, apaixonou-se por esta rapariga que era como a mãe dele. As mulheres deste livro são muito fortes. Tenho a minha teoria. Acho que na guerra, são os homens que fazem as coisas estúpidas e as mulheres que pagam. As mulheres são sempre as mais fortes. Elas perdem pais, filhos...então, ele apaixona-se por uma mulher que era uma cópia da sua mãe. Ela acaba por morrer com a gripe espanhola. Morreram 10 a 20 mil pessoas na I Guerra Mundial e cerca de 100 mil pessoas morreram com a gripe espanhola. Estes soldados que regressavam da guerra por vezes choravam ao sentir o cheiro do leite a ferver. Eles já não conseguiam sentir alegria. Quando eles se apaixonaram foi mesmo fulminante. Para ele, era algo que ambicionava. O meu avô tinha visto o inferno durante quatro anos e depois esta rapariga morre. Esta foi a maior tragédia da sua vida. Por isso, acho que também é um livro sobre uma história de amor. Ele acabou por casar com a irmã dela, que foi a minha avó. Mas lembro-me sempre que a 1 de novembro, dia de Todos os Santos, eles rezavam por ela. O meu avô nunca ultrapassou aquela grande paixão. O meu avô foi o meu herói de juventude. Este não é um livro sobre os traumas de uma guerra "hollywoodesca". Situa-se na Europa, no meio da imaginação católica, no inicio do século XX. Esta história de amor é também sobre o que aconteceu na Europa.

As melhores histórias para um escritor são aquelas que estão "em casa" , que vêm de dentro, da sua família?

Para um escritor uma história é também uma parábola. Quer dizer que contamos uma história e todos os que a vão ler podem fazer a sua própria versão. Por isso é que as histórias sobre gente simples são universais. Todos podem sentir o que este homem sentiu. O livro já saiu em 26 línguas. Vai sair em japonês e em árabe, não sei o que está a acontecer. Mas há algo neste homem que parece ser a história do século XX e eu apenas conto a história do meu avô.

Este livro esteve entre os finalistas na longlist do Man booker prize de 2017. O que acha que o seu avô diria sobre o que escreveu?

Costumo dizer que ele ficaria furioso. Porque eu traí os seus segredos de amor. De qualquer forma, acho que ele ficaria também orgulhoso. Seriam vários sentimentos misturados. Ele era um homem muito reservado, modesto e ao mesmo tempo orgulhoso. Acho por isso que para ele este livro seria algo ambivalente. Talvez ficasse nervoso e pouco descansado ao ver que o que esta geração quer é esquecer a guerra e que eu trouxe tudo de volta.

Porque acha que o seu avô lhe deixou toda esta herança?

Isso continua a ser um enigma. Não sei porque me deu os seus diários. Na altura estávamos em 1981 e eu ainda não tinha publicado nada. O meu primeiro livro saiu apenas 4 meses depois da sua morte. Mas ele sabia que eu queria ser escritor. Ele era o meu companheiro, o meu melhor amigo. Achamos que ele escreveu estes diários para fazer a sua psicanálise, para enfrentar os seus traumas. Ele começou a escrever estes diários 5 anos depois de a sua grande paixão morrer. Eu sabia quando ele estava a escrever, porque ficava melancólico e a minha mãe pedia-me silêncio porque o avô estava a escrever. Acho que ele escrevia para si próprio. Quando os avós morrem pensamos: não há ali uma história? À medida que envelhecemos pensamos: não perguntei o suficiente. Somos um pouco culpados, porque não nos interessamos o suficiente. Muita gente pergunta-me porque é que esperei 30 anos para escrever este livro. Eu acho que não podia ter escrito antes, porque enquanto era novo não percebia a tragédia do tempo. E este é também um livro sobre a tragédia do tempo.

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