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Papa com líderes muçulmanos. “Ou construímos o futuro juntos ou não há futuro”

04 fev, 2019 - 15:45 • Filipe d'Avillez , Aura Miguel

O Papa Francisco aposta na educação e na justiça para se alcançar a paz entre povos e religiões. “A paz morre quando se divorcia da justiça, mas a justiça é falsa se não for universal”.
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Papa Francisco diz que líderes religiosos têm o dever de rejeitar a guerra
Papa Francisco diz que líderes religiosos têm o dever de rejeitar a guerra

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O Papa Francisco disse esta segunda-feira a líderes do mundo islâmico que as religiões têm de se unir para garantir um futuro de paz e liberdade para a humanidade.

Num encontro inter-religioso em que participa nos Emirados Árabes Unidos, Francisco disse aos seus anfitriões que é com união que têm de enfrentar o futuro.

“Não há alternativa: ou construiremos juntos o futuro ou não haverá futuro. De modo particular, as religiões não podem renunciar à tarefa impelente de construir pontes entre os povos e as culturas.”

“Chegou o tempo de as religiões se gastarem mais ativamente, com coragem e ousadia e sem fingimento, por ajudar a família humana a amadurecer a capacidade de reconciliação, a visão de esperança e os itinerários concretos de paz”, disse o Papa.

Para falar da paz Francisco recorreu à imagem da pomba, usada como símbolo para esta viagem, para dizer que esta é sustentada pela educação e pela justiça.

No que diz respeito à educação, deve-se apostar nos jovens, diz. “Cercados frequentemente por mensagens negativas e notícias falsas, os jovens precisam de aprender a não ceder às seduções do materialismo, do ódio e dos preconceitos, a reagir à injustiça e também às experiências dolorosas do passado e a defender os direitos dos outros com o mesmo vigor com que defendem os próprios.”

“Um dia, serão eles a julgar-nos: bem, se lhes tivermos dado bases sólidas para criar novos encontros de civilidade; mal, se lhes tivermos deixado apenas miragens e a desoladora perspetiva de nefastos conflitos de incivilidade”, profetiza Francisco.

Quanto à justiça, a segunda asa da pomba da paz, é essencial ser praticada por quem se diz crente. “Paz e justiça são inseparáveis! Diz o profeta Isaías: ‘A paz será obra da justiça’. A paz morre, quando se divorcia da justiça, mas a justiça revela-se falsa se não for universal. Uma justiça circunscrita apenas aos familiares, aos compatriotas, aos crentes da mesma fé é uma justiça claudicante… uma injustiça disfarçada!”

Liberdade que fez florescer o deserto

Francisco é o primeiro Papa a visitar a Península Arábica, berço do Islão, onde vivem muitos cristãos mas sobretudo imigrantes. Em alguns países vizinhos o culto cristão é proibido, mas isso não acontece nos Emirados Árabes Unidos, o que merece elogios do Papa.

“Aqui, no deserto, abriu-se um caminho de fecundo desenvolvimento que, a partir do trabalho, dá esperança a muitas pessoas de vários povos, culturas e credos. E, entre elas, contam-se também muitos cristãos, cuja presença na região remonta séculos atrás tendo contribuído significativamente para o crescimento e bem-estar do país. Além das próprias capacidades profissionais, trazem-vos a genuinidade da sua fé.”

“O respeito e a tolerância que encontram, bem como os necessários lugares de culto onde rezam, permitem-lhes aquele amadurecimento espiritual que se traduz em benefício para a sociedade inteira. Encorajo-vos a continuar por este caminho, para que quantos vivem aqui ou estão de passagem conservem a imagem não só das grandes obras erguidas no deserto, mas também de uma nação que inclui e abraça a todos”, disse.

O Papa Francisco falou também da necessidade de se combater a violência em nome da religião, dizendo, como já afirmou muitas vezes, que é ilegítima qualquer invocação do nome de Deus para justificar retirar direitos aos outros. Como exemplo, o Papa falou dos atuais conflitos em vários países árabes, incluindo o Iémen e a Síria.

“A fraternidade humana impõe-nos, a nós representantes das religiões, o dever de banir toda a nuance de aprovação da palavra guerra. Restituamo-la à sua miserável crueza. Estão sob os nossos olhos as suas consequências nefastas. Penso em particular no Iémen, na Síria, no Iraque e na Líbia. Juntos, irmãos na única família humana querida por Deus, comprometamo-nos contra a lógica da força armada, contra a monetarização das relações, o armamento das fronteiras, o levantamento de muros, o amordaçamento dos pobres; oponhamos a tudo isto a força suave da oração e o empenho diário no diálogo.”

“Que o nosso estar juntos hoje seja uma mensagem de confiança, um encorajamento a todos os homens de boa vontade para que não se rendam aos dilúvios da violência nem à desertificação do altruísmo. Deus está com o homem que procura a paz. E, do céu, abençoa cada passo que se realiza, neste caminho, sobre a terra”, concluiu o Papa Francisco.

Terminado o discurso do Papa, ele, o grande Imã da Universidade de Al-Azhar, no Egito assinaram um documento sobre a "fraternidade humana". Nele, os dois líderes religiosos declaram que ninguém está autorizado a explorar o nome de Deus para justificar a guerra, o terrorismo ou qualquer outra forma de violência. Afirmam que a vida deve ser sempre salvaguardada, que os direitos das mulheres devem ser plenamente reconhecidos e toda prática discriminatória deve ser rejeitada.

A visita do Papa aos Emirados Árabes Unidos tem como principal objetivo a participação neste encontro inter-religioso. Mas a comunidade católica não será esquecida. Composta inteiramente por imigrantes, sobretudo de países como as Filipinas e Índia, a Igreja local terá um encontro com o Papa Francisco na terça-feira, numa missa celebrada no estádio Zayed Sports City.

[Notícia atualizada às 17h39]


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