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A luz não chega às portas de Lisboa

02 fev, 2019 - 12:59 • Marina Pimentel

A câmara diz que fez o que pôde, mas nem todos estão convencidos. As soluções para o realojamento dos habitantes também não convencem os moradores.
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Desde maio que a lei diz que nenhum bairro pode estar sem energia elétrica, por mais ilegal que seja. Mas em Loures, há um bairro de barracas que está há dois anos sem ligação à rede.

Na Torre, vive mais de uma centena de pessoas, sem direito a guardar alimentos no frigórico ou a ligar uma máquina de roupa. As crianças não têm luz para fazer os trabalhos de casa.

A Camara de Loures diz que fez o que pôde. Instalou geradores, mas as pessoas não tinham dinheiro para pagar os custos do combustível. “E tentou ligar o bairro à rede pública de distribuição de eletricidade. Mas não conseguiu, porque não há quem certifique a instalação”, argumenta o vereador da habitação, Gonçalo Caroço.

Uma argumentação contestada por Garcia Pereira, que tem estado ligado ao processo. O advogado “responsabiliza a Câmara de Loures pelo facto de os moradores do bairro da Torre estarem há dois anos às escuras e por não lhe ser dada uma alternativa de habitação condigna e que respeite a vontade que têm de continuar juntos”.

Os moradores do bairro da Torre não querem continuar a ser realojados longe dos vizinhos com quem criaram laços de amizade e solidariedade. Pedem material de construção civil para com as suas próprias mãos construírem casas, no mesmo local ou perto do sítio onde atualmente vivem, até porque a maior parte dos homens do bairro trabalha na construção civil. Mas a Câmara de Loures afirma que” essa solução é impossível”.

O vereador da habitação diz que a Câmara não pode dispor do que não lhe pertence. O terreno onde está o bairro da Torre é uma parte do Estado e outra de um privado. “A solução é”, diz Gonçalo Caroço, “realojar as famílias em casas da Câmara”.

Rita Silva, da Habita, uma associação que luta por habitação adequada para todos, considera “um erro qualquer solução que não passe por preservar o bairro na sua riqueza”. Uma opinião partilhada pela antropóloga Júlia Carolino que faz parte de um grupo multidisciplinar de investigadores que se têm dedicado ao estudo de bairros de génese ilegal.” A Câmara tem de encontrar a melhor solução para as pessoas, em diálogo com elas”, defende.

As cem pessoas que vivem no bairro da Torre querem ficar juntas porque se consideram uma grande família. Ricardina Cutbert, da associação de moradores, fala “em laços de solidariedade e entreajuda que unem as etnias cigana e de origem africana”. São laços que ajudam a suportar a falta de condições em que vivem.

No bairro da Torre não falta só a eletricidade, explica o missionário comboniano José Manuel Salvador Duarte. Falta tudo. Medicamentos e comida. “Há fome no bairro da Torre. As crianças vão para a escola sem sapatos e de estomago vazio”.

O irmão José Manuel diz que” há cada vez mais imigrantes ilegais no bairro da Torre. Vêm trabalhar para construção civil, um sector que tem tido muita procura de mão de obra. Mas depois o que acontece é que os patrões não lhes pagam e eles não podem reclamar porque estão numa situação de ilegalidade”.

Os jovens, que são a maior parte da população, adianta o missionário, “vivem desesperados por verem que os pais toda a vida trabalharam e só têm uma barraca e porque apesar de serem criativos e terem ideais de vida, só conseguem empregos onde pagam o ordenado mínimo ou os serviços que ninguém mais quer fazer”. O ciclo de pobreza repete-se e “cria-se um terreno fértil para sementes de revolta”.

A situação no bairro da Torre, um bairro clandestino de barracas onde ainda vivem mais de cem pessoas, e onde não chega a luz elétrica, apesar de estar às portas de Lisboa, foi o tema em debate no programa de informação da Renascença Em Nome da Lei.

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