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Crises internas, conspirações e traições: o normal no PSD

11 jan, 2019 - 12:30 • Dina Soares

Nenhum partido português teve tantas crises internas, lideranças contestadas, ruturas e cisões como o PSD. O partido fundado por Francisco Sá Carneiro tem vivido quase sempre em clima de conspiração interna e os dias que correm não são exceção.
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Os conflitos começaram logo a seguir à fundação. O partido ainda não tinha um ano quando Sá Carneiro se zangou com Miller Guerra, seu companheiro da ala liberal, e abandonou a liderança. Andou por Madrid e Londres, por razões de saúde e por pouca vontade de estar num Portugal demasiado à esquerda para o seu gosto. No seu lugar, ficaria Emídio Guerreiro, ex-membro da LUAR.

Depois do 25 de novembro de 1975, regressou a Lisboa, à liderança do PPD, mas também às guerras internas. Um grupo de 21 deputados situados mais à esquerda, entre os quais estão Emídio Guerreiro, Mota Pinto e Miguel Veiga, abandonam o partido por dissidências ideológicas.

Seguem-se as divergências com a ala eanista do PPD e um novo abandono da liderança. Dessa vez, seria António Sousa Franco a assegurar a liderança do partido durante três meses, até novo regresso do fundador, que volta a conquistar a liderança mas não a tão desejada pacificação interna.

Sá Carneiro está contra o governo de iniciativa presidencial de Mota Pinto. A maioria do grupo parlamentar é a favor. No documento das chamadas Opções Inadiáveis, 45 dos 73 deputados do partido, declaram a sua discordância face à estratégia de Sá Carneiro.

O manifesto estava assinado por Sousa Franco, Magalhães Mota, Marques Mendes, Cunha Leal, António Rebelo de Sousa, Rui Machete, Sérvulo Correia e Nandim de Carvalho. Mas figuras como Jorge Miranda e Pinto Balsemão também apoiavam a estratégia.

O fundador defendia uma aproximação aos CDS e ao PPM, que se constituiria na Aliança Democrática (AD). Mas boa parte da bancada entendia a aproximação a Freitas do Amaral e aos seus seguidores como uma guinada do PPD à direita, e preferiam uma aproximação à esquerda, através do PS.

Uma vez mais, Sá Carneiro demite-se da presidência do partido, suspende a atividade de deputado e parte para o estrangeiro, para regressar definitivamente em julho desse ano, no congresso do Hotel Roma, em Lisboa.

Da Aliança Democrática ao Bloco Central

Já em rutura total com o Presidente da República, Ramalho Eanes, Sá Carneiro força eleições intercalares e apresenta-se aos eleitores na AD. Conquista a maioria absoluta em 1979 e repete o resultado um ano depois. Parte para as eleições presidenciais com o lema “Uma Maioria, um Governo, um Presidente”, lançando o general Soares Carneiro contra Ramalho Eanes. Seria a sua última batalha: no dia 4 de dezembro, a queda do avião em que viajava para o Porto matou o fundador e primeiro líder do PPD.

Com a morte de Sá Carneiro e a derrota nas presidenciais, o partido entra de novo em convulsão. Francisco Pinto Balsemão é eleito presidente do PSD e assume a chefia do governo. Cavaco Silva e Eurico de Melo assinam uma carta exigindo a sua demissão. A crise atinge o partido e o país. Balsemão começa por resistir mas acaba por ser obrigado a pedir a demissão. Eanes marca eleições legislativas para abril de 1983. O PSD fica entregue a uma troika formada por Mota Pinto, Nascimento Rodrigues e Eurico de Melo.

O PSD fica em segundo lugar nas legislativas ganhas sem maioria pelo PS de Mário Soares. Forma-se o Bloco Central e Mota Pinto, já como vice-primeiro-ministro, é eleito líder do PSD. A coligação com o PS desagrada a largos setores do PSD, que não poupam Mota Pinto. Os “anos de chumbo” estão de volta ao PSD.

A mais organizada das fações internas contra o Bloco Central é o grupo da chamada Nova Esperança constituído, entre outros, por Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Santana Lopes, José Miguel Júdice e Pinto Leite.

A chegada e o tabu de Cavaco

Mota Pinto sai ainda antes do governo chegar ao fim e é substituído no governo e no partido por Rui Machete, que fica provisoriamente como presidente do partido até ao célebre congresso da Figueira da Foz, em abril de 1985.

João Salgueiro era o grande favorito, mas de repente surge Cavaco Silva com propostas de rutura e o apoio a Freitas do Amaral como candidato presidencial. O congresso dá uma reviravolta e o ex-ministro das Finanças de Sá Carneiro é eleito líder. É o inicio de uma década de paz.

Um ano antes das eleições legislativas, Cavaco Silva começa as suas intenções futuras, tanto em relação ao partido como em relação governo. Durante um ano, o primeiro-ministro e presidente dos sociais-democratas recusa-se a esclarecer o que pretende fazer. O tabu só seria desfeito em janeiro de 1995.

No congresso para a sucessão de Cavaco, no Coliseu de Lisboa, regressa a desordem. Luís Filipe Menezes acusa os candidatos Santana Lopes e Durão Barroso de serem “sulistas, elitistas e liberais” e abandona os trabalhos em lágrimas. Fernando Nogueira ganha o congresso, mas perde o país para António Guterres.

Segue-se Marcelo Rebelo de Sousa, que chega com o projeto de reeditar a AD, rebatizada de Alternativa Democrática, perde a confiança política em Paulo Portas e regressa à televisão.

Durão Barroso toma o seu lugar, chega ao governo em parceria com Portas, mas nem aquece o lugar e troca Lisboa por Bruxelas, deixando Santana Lopes no seu lugar. Pouco tempo depois, é a vez de Jorge Sampaio, Presidente da República, despedir Santana do governo. Na altura, Santana queixa-se do próprio partido. "Tenho as costas cheias de cicatrizes das facadas que levei".

Com Sócrates no poder com maioria absoluta, o PSD entra numa vertigem de lideranças, cada uma menos marcante que a anterior: Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e Manuela Ferreira Leite entram a saem sem deixarem marcas.

Pedro Passos Coelho é diferente. Ganhou duas eleições legislativas, esteve quatro anos no governo. Não conseguiu apoio para formar um segundo executivo, resistiu a deixar a liderança do partido. Quando saiu a desordem já estava instalada. Desde então só tem alastrado.

Comentários
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  • 13 jan, 2019 16:27
    pinto balsemao"nao tinha nada que se meter na guerra entre luis montenegro e rui rio "a culpa e da sic"que mete o marques mendes a dizer coisas que nao deve"exemplo rui rio gosta muito de antonio costa!