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Habitação

Bairro da Jamaica: “Agora as amigas da minha filha podem vir a nossa casa. Antes tinham medo”

19 dez, 2018 - 13:27 • João Carlos Malta , Joana Bourgard (fotografia)

O maior bairro ilegal do país, localizado no Seixal, começa a desaparecer. Desde segunda-feira decorre o processo de realojamento de 64 famílias. Para quase 200 pessoas não vai ser só a morada a alterar-se. Será toda uma nova forma de viver que vão ter de aprender. Retrato de uma mudança que todos querem que não volte a criar um gueto.
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Uma casa nova pode não mudar a vida toda, mas altera muita coisa. E se a mudança é de um bairro clandestino, no centro do Seixal, associado à criminalidade e à pobreza, para uma casa condigna, a transformação pode ser ainda maior. Dirce resume-a com amor materno: “A minha filha fazia anos e os colegas não vinham porque tinha medo. Agora podem vir cá a casa”.

Nos últimos três dias, está em marcha o início do fim do bairro da Jamaica, situado no Vale de Chicharros, no Seixal. Começou pelo bloco 10 – um aglomerado de 30 apartamentos, onde viviam o dobro das famílias que a capacidade do prédio possuía. A chegada de novas pessoas levou as casas a serem subdivididas. O crescimento descontrolado foi fluido e sem regras. As condições de vida eram sub-humanas.

No total, são 64 famílias que vão ser realojadas em casas camarárias dispersas por todo o concelho. O "bairro maldito", há décadas associado a criminalidade, toxicodependência e pobreza, nasceu ilegal na década de 1990, e assim permaneceu.

Durante décadas, muitos foram adiando a necessidade de agir, mas no ano passado, depois dos avisos de um engenheiro do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) para o perigo de o bloco 10 estar em risco de ruir, as campainhas de alarme soaram no Governo e na autarquia. E poucos meses depois, quatro entidades – Ministério do Ambiente, Câmara do Seixal, Santa Casa da Misericórdia e o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana – juntaram-se para dar um rumo novo à vida de 234 famílias.

O processo que agora começa demorará cinco anos a estar concluído, até 2022, e vai custar 15 milhões de euros.

Na terça-feira, no bairro da Jamaica a lufa-lufa dos homens das mudanças era frenética. Escadas exteriores automáticas, elevadores elétricos que não paravam: para baixo e para cima. São muitos anos de vida empacotados.

O aparato policial entrava pelos olhos adentro, duas carrinhas da PSP garantiam que a mudança não tinha incidentes. A segurança foi uma grande preocupação para a Câmara do Seixal. O medo de episódios de violência, ou de novas ocupações, fez com que além dos agentes da Polícia se contratasse uma empresa de segurança privada para que ninguém possa entrar nas casas devolutas durante a noite.

O processo não é simples. O bloco 10 é um esqueleto de betão e tijolo e a acessibilidade nos corredores é reduzida. Para retirar os pertences das mais de 60 famílias foi necessário abrir novos buracos numa fachada de um prédio que de si já faz lembrar as imagens de uma zona de guerra.

De São Tomé ao Jamaica sem casa de partida

Dirce Noronha, 41 anos, tem 25 anos “de Jamaica”. Chegou novinha, vinda de São Tomé e Príncipe. Foi ali parar porque o pai e os irmãos já lá estavam. As memórias, de mais de meia vida vivida naquele bairro, saltam-lhe pela boca.

Quando chegou ao Jamaica e lhe disseram: “vais ficar aqui”, ela ripostou: “vou ficar aqui?”

Pára e explica a perplexidade. “Eu vinha de África, mas o meu pai vivia com condições”, lembra.

“Era mesmo estranho mandar as fotos para os amigos em São Tomé”, recorda.

O contraste entre o que tinha antes e o que encontrou em Portugal era evidente. Ela superou o choque, e de que maneira. Ao ponto de agora ser a líder da associação de moradores. No coração traz vivo o orgulho do que ali experienciou.

“Apesar de tudo, dávamo-nos como uma família e isso é uma coisa que se vai perder agora. É um sítio com muita diversidade de etnias e, assim do nada, aparecia uma música e de repente já estávamos em festa”, lembra.

Retrato de um "bairro maldito"

O bairro é complicado e junta aos problemas sociais, a falta de salubridade, e de saúde pública. Os ratos são um vizinho comum, e por essas razões Dirce está muito feliz com a mudança. A nova casa, na Arrentela, a três quilómetros do bairro da Jamaica, nada tem a ver com o que deixou. Pode agora começar de novo.

“Esta é uma casa que nem se compara com a que deixámos. Não há como comparar. Não vamos ter problemas de humidade, nem esgoto, nem infestação, nem saneamento básico. Não vamos ter nada disso. Para mim é uma alegria grande, estou mesmo muito, muito feliz”, afirma.

“Agora sei que posso ir procurar um emprego e que não me vão olhar de lado. Ter o Jamaica como morada era um fator de preconceito”, explica Dirce.

Na nova casa, com dois quartos, uma sala, uma casa de banho, vai viver com a filha. A adolescente está exultante.

“Diz que agora pode trazer os colegas a casa. Ela tem amigos e gostava que eles viessem ao sítio onde ela mora. Antes, por vivermos num bairro afamado de violência, os pais das meninas tinham receio de as deixar. Ela fazia anos e os colegas não vinham porque tinham medo”, lembra.

Dirce diz saber que nem todas as famílias realojadas estão agradadas com as novas casas, mas não entende.

“Quem dera a outros estarem no nosso lugar e ter uma renda baixa. Por mais que paguemos nunca vamos pagar o que outros pagam”, defende.

Por ser a presidente da associação de moradores, Dirce sabe que o processo vai ser exigente. A mudança vai significar uma volta de 180 graus na vida destas pessoas. Passaram os últimos anos sem pagar nada. Nem uma renda, nem uma conta. Tudo estava num estado degradante, mas tudo era gratuito.

Agora vão passar a pagar. As rendas são estabelecidas mediante o rendimento de cada agregado. Por exemplo, Dirce, que está desempregada, vai pagar cinco euros. O valor máximo não passa de pouco mais 300 euros. Ainda assim, é toda uma transformação de cultura e de forma de estar.

“As pessoas têm de se reeducar nesse sentido. No bairro é tudo aberto, e as pessoas não têm a noção do que custa. A luz não se paga. A água é à vontade. Mas vai haver apoio durante um mês por parte da Câmara e da Santa Casa. Todos vão ter de se habituar a economizar”, defende.

Não querer mudar os problemas de morada

Manuela Calado, vereadora com o pelouro da Gestão Urbanística, tem acompanhado os trabalhos de mudança no Jamaica. Sabe o tamanho do desafio que agora começa. A dificuldade de alterar hábitos é algo para que está avisada.

“Vão ter de se adaptar a uma nova vida com o pagamento da renda, da água, da luz e do gás, se houver. Tudo isso foi estipulado com base no rendimento familiar”, detalha.

Nos últimos dias, o trabalho das técnicas daquela autarquia da Margem Sul tem sido de aconselhar as pessoas a saberem a melhor forma para gastarem o menos possível com as contas mensais futuras.

“Vamos acompanhar estas famílias para que possam aprender a viver noutro espaço que não aquele onde viveram sempre”, explica a vereadora.

A Câmara do Seixal não quis cometer no Bairro da Jamaica os mesmos erros do passado, quando aplicou o Plano Especial de Realojamento. Nessa altura, as pessoas saíram de um prédio ou zona degradada para irem para outro lado. Manuela Calado diz que houve apenas uma transferência dos problemas. Nada mais. Agora quiseram fazer diferente.

“As famílias têm de ser integradas na comunidade, e para isso têm de perceber que pertencem à comunidade. Isolá-las, construir bairros sociais em que se tira de um lado e se coloca noutro, faz com que muitos dos problemas não desapareçam, e até se criem novos”, avisa a vereadora.

Dirce concorda. Ao início o método não foi muito bem-recebido. As pessoas não queriam perder os laços quase familiares que construíram em mais de duas décadas de vivência em conjunto. Mas agora percebe melhor o que se quer.

“Acho que é bom, porque formar um gueto e meter lá as pessoas é uma forma de exclusão social”, afirma.

É só o começo da mudança, a maior vem agora

Em relação ao ano que mediou a assinatura do acordo entre as quatro entidades que promovem este realojamento e o começo das mudanças, a vereadora explica-o com as dificuldades em ir ao mercado e encontrar 64 casas. Algumas ainda tiveram de ser reabilitadas.

Apesar de ter sido prometido que a mudança ocorreria em abril, há oito meses, e o perigo de o prédio desabar estar na cabeça dos que ali moravam, Dirce afirma entender que este é um processo novo para todos: até para as autoridades que o comandam.

No bairro da Jamaica vão continuar, até 2022, outras famílias, mas no bloco 10 cada família que sai corresponde a um par de paredes que vão abaixo. A ideia é fazer aquele prédio desaparecer até amanhã, quinta-feira, altura em que se dará a derrocada final.

O risco de haver outras famílias a ocupar o bairro de forma ilegal e perpetuar a situação era bem real.

“Se não tivéssemos coordenado a questão da segurança, no dia 20 haveria mais umas quantas famílias para ocuparem o que aqui ficou”, explica.

Durante muitos anos, segundo Dirce, no bairro da Jamaica ao mesmo tempo que as condições de vida se degradavam, a ideia de que algo ia mudar também se ia deteriorando. As muitas promessas nunca saiam do papel. Agora são reais. Está a acontecer. Há esperança, mas também a necessidade de mudar hábitos antigos e enraizados.

“Isso vai ser um processo longo, estranho para muita gente. Mas é o que tem de ser”, remata Dirce.

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