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Área metropolitana de Lisboa é um “laboratório” da diversidade religiosa em Portugal

06 dez, 2018 - 00:00 • Ângela Roque

Mais do que um em cada três residentes não tem religião. Mais de metade declara-se católica, mas apenas 15,8% vai à missa uma vez por semana. Quase 24% dizem-se não praticantes, mas acreditam em Deus.
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Um total de 35% da população da Área Metropolitana de Lisboa não confessa qualquer religião, segundo um estudo divulgado esta quinta-feira pela Universidade Católica. Os dados revelam ainda que quase 55% dos residentes declaram-se católicos, embora apenas 15,8% pratiquem semanalmente.

Coordenado por Alfredo Teixeira, do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER) da Universidade Católica, o inquérito “Religião e Espaço Público” concentrou-se exclusivamente na Área Metropolitana de Lisboa. Considerada um “laboratório” da diversidade religiosa em Portugal, esta é a região do país onde a identidade católica apresenta maior “erosão”. Como tinha já mostrado, em 2011, o inquérito ‘Identidades Religiosas em Portugal’, mais de metade da população que aqui vive é não crente (55,2%).

Para este estudo dividiram-se as freguesias da área metropolitana em três grandes áreas geográficas: concelho de Lisboa, Zona Norte do Tejo, e Margem Sul do Tejo e Península de Setúbal.

Católicos e sem religião são a maioria

Os resultados do inquérito mostram que na Área Metropolitana de Lisboa 54,9% da população declara-se católica, 9% pertence a outra confissão e 35% afirma não pertencer a nenhuma religião. Dentro deste último grupo “o peso dos não crentes aproxima-se dos 22%”, e os crentes sem religião já “ultrapassam os 13%”, confirmando a tendência de subida, o que leva os autores do estudo a sublinhar que o aumento dos que dizem acreditar em Deus, mas se encontram “desvinculados de qualquer forma de pertença religiosa”, se poderá tornar um “fenómeno social cada vez mais relevante”.

Para os autores do estudo “é possível afirmar que, nesta região, se verifica uma diminuição da maioria histórica dos católicos, a progressão dos sem religião e a estabilização, em termos gerais, do conjunto das chamadas minorias religiosas”, que não chegam aos 10%. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, apresentam cada vez mais “dificuldades de afirmação nos novos contextos urbanos e cosmopolitas.” Já quanto aos budistas, o estudo indica que “o seu peso é equiparável aos dos muçulmanos”, e que os seus seguidores não são todos de países asiáticos, o que se explica por ser uma religião “cujos princípios se coadunam facilmente com muitas das atuais tendências espirituais” que atraem “indivíduos urbanos e escolarizados”.

Outros dados relevantes mostram que os católicos, os crentes sem religião, os indiferentes, os agnósticos e os ateus compõem 90,7 por cento das posições religiosas da população residente na Área Metropolitana de Lisboa; a população integrada em grupos minoritários de matriz cristã está sobretudo nas zonas periféricas e fora da cidade de Lisboa e a maior parte dos não cristãos concentra-se na zona norte do Tejo (2,8%).

Culto e oração

A oração é um dos mais relevantes indicadores de religiosidade, mas o estudo mostra que 32,3% dos inquiridos não tem “qualquer prática orante”, mas há 49,3% que o fazem. Entre estes, 81% dos evangélicos afirmam rezar “todos os dias”. No universo dos católicos essa percentagem cai para 35,4%, e há 13% que “nunca rezam”.

A prática cultual comunitária também varia conforme as religiões: 15,8 % dos católicos declararam ir à missa “uma vez por semana”, e 13,3% “uma a duas vezes por mês”. Entre os evangélicos, 25% garantiram frequentar o culto comunitário todas as semanas, e 35% mais do que uma vez por semana.

Para a maioria dos inquiridos as práticas religiosas rituais e coletivas ao fim-de-semana não chegam, no entanto, a 12% dos casos, sendo que “o ato de ir à missa, ao culto ou a outro ato religioso, tem um peso similar a outras práticas, como ‘passar o fim-de-semana fora’ ou ‘fazer desporto’”, refere o estudo, sublinhando que as respostas mostram que não existem grandes diferenças “entre as práticas de fim-de-semana dos sem religião e dos católicos”, que privilegiam o descanso em casa, o cuidado doméstico e as compras, por exemplo.

Transmissão da fé, tolerância e militância religiosa

A maioria dos inquiridos teve “ascendência católica”, e recebeu ainda na infância, quer na escola, quer em casa, “algum tipo de socialização religiosa”, o que permitiu que saibam o mínimo. Mas, sendo influente, esta “memória religiosa familiar” não se reproduziu, nem garantiu uma continuidade na fé.

Mais de metade dos inquiridos, 50,4%, não alterou a sua posição religiosa ao longo da vida, mas quase 24% deixaram de ser praticantes, embora continuem a acreditar, o que indica “uma certa desarticulação entre crer e pertencer”. Os muçulmanos estão entre os que menos equacionam a possibilidade de transitar para outra comunidade religiosa.

O estudo fala, ainda, de “indícios de privatização do religioso”. Mais de metade dos inquiridos admitiu não ter falado sobre assuntos religiosos “no último mês”, considerando, genericamente, que este é um assunto “reservado à esfera social mais íntima e privada”. Mais de um em cada três considera que a sua religião influencia as suas atitudes face a questões relativas à orientação pessoal e à moral humanitária.

É considerado muito relevante o dado que mostra que a esmagadora maioria dos inquiridos, quase 91%, nunca sentiu “qualquer tipo de discriminação” baseada na sua posição religiosa. Nas relações de amizade, os católicos são os que mais se dão com pessoas de outras religiões.

A fé na vida pública

Os evangélicos/protestantes são o grupo com “militância religiosa” mais forte. Cerca de 40% referem estar “envolvidos em grupos dentro das suas comunidades”, mas a taxa é baixa entre os muçulmanos (7,9%) e entre os católicos (10%), o que, neste último caso, também “ajuda a explicar as dificuldades de transmissão religiosa ao longo das últimas décadas, numa sociedade cada vez mais marcada por uma cultura de emancipação do indivíduo”, refere o estudo.

O estudo também mostra que muitos não sabem que é a Igreja Católica que está por trás de muitas das instituições sociais que dão apoio à população, ao indicar que a esmagadora maioria dos inquiridos não respondeu, ou não soube responder, “se beneficiou de alguma atividade ou apoio das Igrejas, outras comunidades religiosas, nos últimos dois anos”.

Relativamente à posição das diferentes religiões é relembrada, no estudo, a posição assumida no recente debate sobre a eutanásia, referindo que “há apenas dois grupos nos quais se verifica uma maioria que condena a eutanásia em qualquer situação: 68,7% dos muçulmanos e 62,9% dos evangélicos/protestantes são terminantemente contra a eutanásia”. Já 67,9% dos católicos aceitam a eutanásia “dentro de certos limites”, e 22,3% condenam esta prática em qualquer situação. “Tendo em conta que muitos católicos estão bastante afastados de qualquer envolvimento institucional e comunitário, não surpreende este distanciamento em relação à posição oficial da Igreja Católica”, sublinham os autores do estudo.

Ficha técnica

Este estudo foi coordenado por Alfredo Teixeira, do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa (CITER), com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e Patriarcado de Lisboa. Participaram Helena Vilaça, Jorge Botelho Moniz, José Pereira Coutinho, Margarida Franca e Steffen Dix.

Foram feitas 1180 entrevistas no domicílio a residentes da Área Metropolitana de Lisboa, com 15 ou mais anos, numa amostra representativa da população residente nesta região. As freguesias da Área Metropolitana de Lisboa foram divididas em três grandes áreas geográficas: concelho de Lisboa, Zona Norte do Tejo, e Margem Sul do Tejo e Península de Setúbal.

O estudo realizou-se entre 2 de junho e 15 de julho de 2018. O erro máximo da amostra é de 2,9%, para um grau de confiança de 95%.

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