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Os “recasados” não estão excomungados. “Eles são Igreja”

04 dez, 2018 - 11:15 • Olímpia Mairos

“Classificar entre regular e irregular não é justo, em relação às inúmeras situações das famílias”, refere o Bispo de Bragança Miranda, na sua Nota Pastoral “A alegria e a fragilidade do Amor no Matrimónio e na Família”, onde dá orientações para uma “maior integração na Igreja dos divorciados a viver em nova união”.
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O bispo da Diocese de Bragança-Miranda acaba de publicar uma nota pastoral intitulada “A alegria e a fragilidade do Amor no Matrimónio e na Família”. O documento estabelece orientações com vista a uma maior integração eclesial dos cristãos divorciados a viver em nova união.

No fundo, trata-se de uma “aplicação do capítulo VIII” da Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Francisco “Amoris Laetitia”, publicada em 2016, em que é proposto um caminho de “discernimento” para os católicos divorciados que voltaram a casar civilmente, sublinhando que não existe uma solução única para estas situações.

“O Papa não faz a catalogação das famílias, mas apresenta o ideal cristão da família. Francisco não cai no esquema demasiado simples da classificação entre regular e irregular, porque este tipo de catalogação não é justo em relação às inúmeras situações das famílias. A terapia que Francisco apresenta é: acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”, escreve D. José Cordeiro.

O bispo de Bragança-Miranda destaca ainda que a exortação apostólica “Amoris Laetitia” propõe “cuidar”, sobretudo, de “quatro pontos mais urgentes” quanto ao matrimónio que são a “preparação para o matrimónio, o acompanhamento dos casais jovens, o apoio à família na transmissão da fé e a maior integração eclesial dos divorciados a viver em nova união”.

A nota pastoral oferece uma espécie de guia com orientações concretas e propõe a criação, no âmbito do Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar, de uma equipa interdisciplinar “onde não falte um psicólogo, um jurista, um sacerdote e um ou dois casais com credibilidade testemunhativa”.

A missão desta equipa passa por “monitorizar, com o auxílio dos párocos, os casais em fragilidade, encaminhar para a vigararia judicial os casais que indiciem possível nulidade do sacramento do matrimónio anterior e percorrer um caminho catecumenal de discernimento com aqueles casais que desejarem”.

Em declarações aos jornalistas, o bispo de Bragança-Miranda revela que “só este ano” foram tratados na vigararia judicial, e encaminhados para o estudo conjunto no Tribunal Eclesiástico Interdiocesano, sete situações “que estão a ser cuidadosamente acompanhadas e encaminhadas”.

Igreja tem lugar para todos

“Este acompanhamento que queremos não é apenas dizer que está o serviço disponível, agora venham cá se entenderem. Mas gostaríamos que os párocos e os diáconos e as pessoas consagradas, as equipas pastorais das unidades pastorais ajudassem a esta consciência, cada vez mais profunda da beleza e do amor do matrimónio, porque sabemos também, e felizmente, que no nosso território são mais aqueles que estão casados e que testemunham a beleza e a alegria do matrimónio do que os que vivem em situações de fragilidade, embora esses estejam num aumento significativo”, frisa D. José Cordeiro.

E é importante “dizer a todos esses que Deus os ama e que lhes quer bem e que a Igreja os acolhe e não estão excomungados por isso, mas que têm lugar e eles são Igreja”.

O sacerdote, no entender do bispo transmontano, “deve aparecer como pastor e não como controlador da graça” porque, citando a “Evangelii Gaudium”, do Papa Francisco, “a Igreja não é uma alfândega, mas uma casa paterna, onde há lugar para todos, com a sua vida fatigante”.

O acesso aos sacramentos “é a possibilidade, após o acompanhamento que é feito dos casos que são apontados e depois de uma séria conversão pessoal, espiritual, pastoral e missionária”, explica D. José Cordeiro, salientando que o caminho do discernimento “não acaba necessariamente nos sacramentos”, mas “pode orientar-se para outras formas de uma maior integração na vida da Igreja”.

“Não é de por em saldos as coisas, nem de banalizar o que de mais sagrado e santo nós temos naquelas que são as propostas que se fazem”, alerta o prelado, acrescentando que “não podemos impor a fé, temos que a propor. E são as propostas na relação pessoal, na relação comunitária e o despertar na consciência de todos, também este acolhimento, esta hospitalidade e o exercício autêntico e genuíno da caridade”, para que “não sejam só slogans nem chavões, mas que cada um, consoante a sua responsabilidade, a sua vocação, seja capaz de fazer esta ponte e se sentir sempre discípulo missionário, em comunhão com Cristo e com a Igreja”.

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