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Depois de conseguir travar barragem, mexilhão-de-rio vai ter direito a centro reprodutor

26 nov, 2018 - 14:33 • Olímpia Mairos

A espécie chegou a ser dada como extinta em Portugal no início do século XX. Redescoberto no rio Beça, vai ter agora um centro reprodutor em Boticas.
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O concelho de Boticas vai acolher o único centro reprodutor do mexilhão-de-rio da Península Ibérica. Trata-se de um projeto que integra um plano de promoção da fauna e da flora no concelho e que junta a autarquia local e a empresa Iberdrola, num investimento de 2,3 milhões de euros.

O presidente da Câmara de Boticas, Fernando Queiroga, refere que o centro de reprodução do mexilhão-de-rio é o “único na Península Ibérica e visa a preservação desta espécie que inviabilizou uma barragem”.

O mexilhão-de-rio chama-se “margaritífera margaritífera” e é uma espécie ameaçada que ficou famosa em 2009, após ter sido dada como extinta em Portugal no início do século XX.

Quando foi redescoberto no rio Beça, no concelho de Boticas, travou a construção da barragem de Padroselos, projetada para junto a Covas de Barroso.

O empreendimento integrava o Plano Nacional de Barragens para a Bacia do Tâmega, mas não passou do papel, devido à redescoberta fortuita do bivalve, não comestível, mas que se encontra protegido por uma diretiva comunitária.

“Conseguiu travar uma barragem e ainda bem, porque tinha efeitos nefastos a nível ambiental na zona onde era para ser construída", explica à Renascença Fernando Queiroga. "Fruto desta intervenção e deste protocolo com a Iberdrola vamos fomentar, reativar e dispersar este mexilhão pelos nossos rios.”

O centro de reprodução deste bivalve não comestível vai ficar instalado no Parque de Natureza e Biodiversidade de Boticas e representa, no entender do autarca, “mais um pólo de atração ao concelho”.

Segundo o biólogo Joaquim Reis, o rio Beça, em Boticas, “é um dos quatro rios em Portugal onde a espécie é considerada viável”.

“É uma espécie com especial interesse e nós queremos auxiliar a sua recuperação a nível nacional e internacional”, observa Joaquim Reis, adiantando que vão desenvolver “um programa de reprodução em cativeiro deste bivalve que precisa de trutas para completar o seu ciclo de vida”.

Em Boticas, os técnicos vão procurar facilitar “o encontro do mexilhão com as trutas para que se possa completar o ciclo de vida”. As trutas vão ser criadas no posto aquícola e na altura da reprodução do mexilhão vão ser infetadas com as suas larvas e libertadas para ajudar à dispersão natural do mexilhão nos rios Beça e Terva.

O mexilhão-de-rio é extremamente intolerante a qualquer tipo de poluição, tendo também reduzida tolerância à salinidade, pelo que só existe em águas doces (rios e lagos) com água considerada de qualidade.

Em condições ótimas, estes bivalves atingem populações elevadas e são também eles próprios determinantes para a qualidade da água, devido ao volume que filtram.

O centro reprodutor do mexilhão-de-rio faz parte das 28 medidas previstas no protocolo fauna e flora assinado entre a Câmara de Boticas e a concessionária das barragens, a espanhola Iberdrola. Vai ser implementado ao longo de cinco anos e representa um investimento de 2,3 milhões de euros.

Sara Hoya, da Iberdrola, explica que este protocolo resulta das contrapartidas pela construção das barragens de Daivões, Gouvães e Alto Tâmega, sublinhando que “as ações a implementar serão sugeridas anualmente pela câmara e financiadas pela Iberdrola e contemplam ações como a plantação de sobreiros, a revegetação de taludes ribeirinhos mediante técnicas de bioengenharia, repovoação com truta-de-rio ou a criação de charcas”.

O Sistema Eletroprodutor do Tâmega é considerado um dos maiores projetos hidroelétricos realizados na Europa nos últimos 25 anos, prevê um investimento de 1.500 milhões de euros e deverá estar concluído em 2023.

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  • João Rodrigo Baptist
    26 nov, 2018 São Paulo, Brasil 18:52
    Se esse mexilhão não é comestível, o interesse nele deve-se apenas ao favorecimento da reprodução de trutas?!
  • Zé do Norte
    26 nov, 2018 Lugo 16:57
    Já existe um centro reprodutor desta espécie na Galiza