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Bispos do Congo preocupados com meio milhão de deportados de Angola

14 nov, 2018 - 17:17 • AIS

Angola começou a expulsar trabalhadores ilegais da indústria mineira em finais de setembro e nega que tenha havido maus tratos.
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Os bispos católicos da República Democrática do Congo estão preocupados com a situação em que se encontram cerca de meio milhão de congoleses deportados pelo governo de Luanda nas últimas semanas e que se dedicavam à extração ilegal de minérios no norte de Angola.

Os bispos afirmam estar alarmados com as notícias de violações dos direitos humanos pelas forças de segurança angolanas e receiam que a expulsão de tantos imigrantes ilegais possa ser uma ameaça à paz na região ao longo da extensa fronteira entre os dois países.

“Milhares de crianças, mulheres, idosos, doentes e deficientes, bem como homens e mulheres saudáveis, estão a ser praticamente descarregados como bens vulgares, dia após dia”, alertavam já os prelados numa declaração emitida no final do passado mês de outubro.

“Pedimos às autoridades congolesas que iniciem um diálogo direto e aberto com o governo angolano para assegurar que o retorno dos congoleses seja organizado e conduzido em condições que respeitem a sua dignidade e estejam em conformidade com o direito internacional humanitário que ambos países assinaram como membros das Nações Unidas”, afirmavam ainda os Bispos na referida declaração, apelando à comunidade católica para “compartilhar o pouco que podem” com os que estão a ser expulsos de Angola.

Também as Nações Unidas já manifestaram a sua preocupação para com esta situação. No final do mês passado, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados alertou para o facto de estas deportações em massa estarem a provocar “graves violações dos direitos humanos pelas forças de segurança de ambos os lados da fronteira”, sendo que, segundo a ONU, menos 330 mil pessoas estarão a enfrentar uma “situação extremamente precária”.

A Caritas congolesa está também a acompanhar esta situação potencialmente desastrosa. Só na cidade de Kamako, por exemplo, terão surgido nas últimas semanas cerca de 200 mil pessoas, superando largamente a população local e obrigando a Igreja a mobilizar os seus recursos no apoio de emergência.

Uma freira norte-americana Bernadette Reis, da Congregação das Filhas de São Paulo, disse à Rádio Vaticano, em 2 de Novembro, que as paróquias católicas ofereciam comida e abrigo para as pessoas que chegavam. No entanto – acrescentou –, os recursos locais são “completamente desproporcionais em relação ao número de pessoas em necessidade”.

Esta crise é a mais recente a afetar o Congo, um dos países mais pobres do mundo, em vésperas de eleições presidenciais, parlamentares e regionais, agendadas para 23 de dezembro, depois de uma crise política que se arrasta desde 2016.

Não é só a Igreja congolesa a manifestar a sua preocupação por esta situação desencadeada pela expulsão de quase meio milhão de pessoas de Angola. Também neste país já se fizeram escutar críticas à forma como as autoridades de Luanda estão a lidar com este processo.

A organização não-governamental Mosaiko veio apelar também ao “respeito dos direitos humanos”, garantindo que muitas pessoas estão sem alimentos e sem agasalhos, e falando mesmo no “tratamento deplorável” que está a ser dado a muitos destes imigrantes ilegais, incluindo crianças e mulheres grávidas.

Esta operação, que Luanda batizou de “Transparência” e que teve início a 25 de setembro, pretende ser uma resposta de Angola à imigração e exploração ilegal de diamantes. Para o governo angolano, são “completamente falsas” as afirmações de que terão ocorrido neste processo de expulsão de congoleses, “massacres, sevícias e violações dos direitos” humanos.

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