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Carmen Posadas. De um "grande fracasso" a um novo segredo para desvendar

12 nov, 2018 - 14:55 • Maria João Costa

Com novo livro a sair em Espanha, a escritora falou com a Renascença sobre a sua última obra traduzida em português, o seu método de trabalho e a conversão da filha mais velha.
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Quanto encontrámos Carmen Posadas em Cabo Verde, no Festa do Livro Morabeza, estava a poucos dias de lançar em Espanha “La Maestra de Titeres”, o seu novo livro. Mesmo assim, a autora espanhola encontrou tempo para participar no festival que reuniu na cidade do Mindelo vários escritores e mostrou-se disponível para falar não só do seu mais recente livro como do último editado no mercado português.

No antigo armazém do carvão, mesmo de frente para a baía de onde se vê o Monte Cara, Carmen Posadas lamentou não ter ido a Portugal aquando do lançamento de “A Filha de Cayetana”.

Publicado pela Casa das Letras, o livro conta a história de uma personagem que foi retratada em dois quadros do famoso pintor Goya. A inspiração para a obra surgiu num momento menos inesperado da autora.

“Este livro é o resultado de um grande fracasso. Estava a escrever outro livro, mas tive de o abandonar porque ia ser uma catástrofe. Fiquei chateada e não sabia o que escrever”, recorda Carmen Posadas, lembrando o dia em que uma amiga lhe falou daquela que viria a ser a personagem principal do seu livro.

“Um dia uma amiga disse-me, não sei se estás a procurar uma personagem histórica, mas acho que deverias saber que a Duquesa de Alba, a musa de Goya, tinha uma filha negra. E eu disse: Perdão?! Como disseste? Não sei se te entendi bem?”, conta-nos a escritora responsável pelo sucesso “Pequenas Infâmias”, vencedor do Prémio Planeta em 1998.

A história de “Cayetana de Alba que não podia ter filhos” deu origem ao livro porque, explica Posadas, “era hábito no século XVIII oferecerem-se crianças escravas”. A escritora diz: “A questão é que, como ela não podia ter filhos, ficou tão encantada com a criança que a adotou e quando morreu deixou-lhe uma herança considerável. Não lhe podia deixar os títulos. Isso sim, teria sido notável, termos uma Duquesa de Alba mulata! Mas deixou-lhe muito dinheiro e interessou-me contar essa história.”

O próximo mistério

Enquanto relembra o livro, Carmen Posadas prepara-se já para falar da nova obra. “La Maestra de Titeres” é o título da trama protagonizada por Beatriz Calanda. “É uma saga familiar que se desenrola em três épocas diferentes. Passa-se no presente, durante a transição, que foi um período importante em Espanha aquando da morte de Franco e a chegada do rei e é quando descobrimos a liberdade, quando há abertura ao mundo; depois há uma terceira parte que se passa no pós-guerra, nos anos 50, numa época muito difícil”, revela Carmen Posadas

A autora, que tem predileção por personagens femininas nos seus livros, conta que esta “é a história de três mulheres -- uma avó, uma mãe e uma filha. São histórias que se entrelaçam e que, no final, convergem num segredo que temos de adivinhar.” Posadas deixa o mistério no ar: “Não posso revelar porque se chama “La Maestra de Titeres”, porque é a resolução de tudo!”

Nascida no Uruguai, mas há décadas a viver em Espanha, Carmen Posadas tem livros traduzidos em mais de vinte línguas. Em comum, a maioria das suas obras têm o facto de a ação ter lugar no passado. A razão, nas palavras da escritora, é simples: “Acho que isso se deve ao facto de gostar muito de fazer investigação. Por exemplo, no livro anterior – "A filha de Cayetana" – tive de fazer uma grande investigação sobre o século XVIII. Apercebi-me de que é mais fácil falar do século XVIII do que dos anos 50 e da transição, porque do século XVIII já não há ninguém vivo que me possa rebater quando digo que se bebia chocolate assim ou assado … ninguém me vai rebater … De qualquer forma dos anos 50 há muita gente viva e dos anos 70 é a minha geração, por isso vou aqui bater na madeira para que não tenha posto a pata na poça!”

Métodos e revelações

Carmen Posadas afirma-se uma escritora metódica. As suas rotinas de escrita começam bem cedo e sempre depois de fazer a sua ginástica. Nesta entrevista em Cabo Verde, entre outros escritores, diz em tom irónico: “As pessoas pensam nos escritores como boémios, que tomam duas garrafas de whiskey e fumam 20 maços de tabaco. Não conheço nenhum escritor assim! Agora somos todos muito organizados.”

O seu ritmo de trabalho começa cedo; diz que faz a sua ginástica, “sempre, aconteça o que acontecer”, e que só depois se dedica à escrita “até à hora de almoço”. No entanto “às vezes sai alguma coisa, outras vezes não". E "se não sai nada”, explica-nos, põe-se a corrigir ou a escrever artigos e proíbe-se de se “levantar da cadeira até à hora de almoço”.

Nesta entrevista à Renascença, Carmen Posadas falou ainda da sua filha Sofia, uma médica que foi casada e que, depois do divórcio e de uma peregrinação ao Santuário mariano de Medjugorje, na Bósnia-Herzegovina, se converteu ao catolicismo.

Nas palavras da autora houve “um encontro com Deus". "Ela era católica, mas muito relutante.” Posadas conta que, quando a filha se viu “confrontada com o problema pessoal com o seu marido e com uma situação difícil, houve um dia em que teve essa revelação e isso mudou-lhe a vida”.

Esta mudança na vida da filha é, no seu entender, “bastante surpreendente” sobretudo por Sofia ser “uma pessoa muito racional e quadrada”. Para Posadas, a filha é assim porque é médica e "é sabido que os médicos não creem tanto em Deus, porque estão em contacto com o sofrimento e com essa parte terrível da vida”. No entanto, Sofia “teve essa revelação e quis dar testemunho de como foi esse seu encontro com Deus”.

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